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Escassez de pele para doação na África agrava tratamento de queimaduras

Escassez de pele para doação na África deixa pacientes com queimaduras em espera



Em dezembro de 2025, o Egito recebeu seu primeiro carregamento de pele humana preservada para o tratamento de queimaduras extensas, marcando um avanço importante para o país e evidenciando um desafio maior enfrentado por toda a África: a falta de sistemas robustos para coleta, processamento e distribuição de pele doada.

O tecido importado foi destinado ao Hospital de Queimados Ahl Masr, no Cairo, onde médicos enfrentam diariamente a dificuldade de tratar pacientes com queimaduras graves, cuja pele — a principal barreira protetora do corpo — foi comprometida. Nessas situações, o tempo é crucial para evitar infecções, perda de fluidos e complicações que podem levar à morte.


Bancos de Tecidos: Solução Urgente para Crise no Tratamento de Queimaduras na África
Bancos de Tecidos: Solução Urgente para Crise no Tratamento de Queimaduras na África

A importância da pele doada


A pele doada funciona como um curativo biológico temporário, protegendo o paciente até que seja possível realizar um enxerto com a própria pele. “A escassez de pele doada é um dos maiores desafios no tratamento de queimaduras no Egito”, afirma o professor Naiem Moiemen, chefe de cirurgia do Hospital Ahl Masr e especialista em cirurgia plástica.

Atualmente, o tratamento ainda depende em grande parte do autoenxerto, que usa a pele saudável do próprio paciente. Porém, em casos de queimaduras extensas, essa opção é limitada pela pouca disponibilidade de pele íntegra, tornando a doação essencial para salvar vidas.

Um problema continental


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as queimaduras causam cerca de 180 mil mortes anuais, com a maioria ocorrendo em países de baixa e média renda, especialmente na África e no Sudeste Asiático. Na África Subsaariana, estima-se que mais de 1,4 milhão de pessoas sofreram queimaduras em 2017, com taxas de mortalidade superiores ao dobro da média global.

Apesar da importância dos bancos de tecidos para o tratamento, o acesso a enxertos de pele permanece desigual no continente. Uma pesquisa recente em 22 países africanos revelou que apenas 63% dos centros de tratamento realizam enxertos de pele parcial, com falta de equipamentos e pessoal treinado como principais obstáculos.

O exemplo da África do Sul


A África do Sul possui um dos sistemas mais avançados de bancos de tecidos na região, com o Banco de Tecidos Vitanova na Cidade do Cabo sendo referência para doação e processamento de pele. Ainda assim, o país enfrenta escassez constante devido ao curto período para recolhimento da pele após o óbito e à limitada base de doadores.

Sandra Venter, gerente geral do banco, ressalta que “sem uma comunidade de doadores dispostos, nenhum investimento em tecnologia será suficiente para garantir o fornecimento”.

Desafios culturais e religiosos


No Egito, a importação da pele doada gerou debates sobre integridade corporal após a morte, permissibilidade religiosa e confiança nas instituições de saúde. As autoridades têm buscado tranquilizar a população, destacando que a retirada da pele não desfigura o corpo e que o consentimento voluntário é fundamental.

O Dar Al-Ifta, órgão jurídico islâmico do país, declarou que a doação de órgãos e tecidos é permitida pela lei islâmica, desde que respeitadas condições rigorosas. Contudo, a aceitação pública ainda depende de fatores culturais, religiosos e da confiança no sistema.

Confiança é a chave para o futuro


Especialistas em bioética, como Jillian Gardner, da África do Sul, afirmam que o sucesso dos programas de doação depende não apenas da capacidade técnica, mas também da transparência, respeito cultural e confiança da população.

“Medo de corrupção, uso indevido ou acesso desigual pode reduzir a disposição para doar”, alerta Gardner, que defende regulamentação clara, supervisão independente e engajamento público.

Caminhos para avançar


A cooperação regional pode fortalecer os programas de bancos de tecidos, compartilhando expertise e recursos. Enquanto isso, a necessidade clínica é urgente, pois atrasos no tratamento de queimaduras graves podem ser fatais.

O futuro do tratamento de queimaduras na África dependerá, portanto, não só de infraestrutura e tecnologia, mas também da capacidade dos sistemas de saúde de construir confiança e promover a doação como um ato de solidariedade que salva vidas, preservando a dignidade dos doadores.
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