
Um policial sul-coreano foi preso após confessar ter arquivado dezenas de casos de pessoas desaparecidas sem investigá-los, a fim de evitar o trabalho de mantê-los em aberto. O escândalo, que abalou a popular ilha turística de Jeju, expôs falhas estruturais no sistema de supervisão policial e levou à descoberta de quatro corpos em menos de uma semana.
O policial, identificado pelo sobrenome Bu, estava lotado na Delegacia de Polícia de Jeju Seobu. A Agência de Polícia Provincial de Jeju o prendeu sob suspeita de negligência no cumprimento do dever, falsificação de registros eletrônicos oficiais e obstrução do trabalho policial por meios fraudulentos, segundo o Korea Times.
Ele foi preso em caráter de urgência no dia 22 de agosto, libertado dois dias depois pelo Tribunal Distrital de Jeju e preso novamente no dia 25 de agosto, após a emissão de uma ordem judicial formal.
Bu mentiu para as famílias e alterou registros no sistema oficial de pessoas desaparecidas
Um dos casos de maior repercussão envolve Jang Mi-ran, uma mulher de 37 anos que desapareceu em maio. Seu namorado registrou um boletim de ocorrência por desaparecimento. Segundo o Korea Times, Bu garantiu ao denunciante que havia entrado em contato com a mulher e que ela não queria revelar seu paradeiro. As autoridades confirmaram posteriormente que essa conversa nunca aconteceu: não havia registros dela no telefone pessoal ou profissional do policial, nem no telefone da própria mulher.
Bu também apagou os dados de Jang do sistema de gestão de pessoas desaparecidas e arquivou o caso. Por causa disso, a família levou semanas para registrar um novo boletim de ocorrência e, nesse meio tempo, as gravações das câmeras de segurança próximas à residência da mulher já haviam sido apagadas.
O corpo. Jang foi encontrado em 24 de agosto, em Hallim-eup, Jeju, 104 dias após seu desaparecimento, a cerca de 400 metros de onde ele morava.
O segundo caso envolve um homem na casa dos sessenta anos que foi dado como desaparecido em julho. Bu repetiu o mesmo procedimento: alegou tê-lo contatado e registrou que o homem não desejava ser localizado. O corpo foi encontrado em 22 de agosto em Gujwa-eup, Jeju.
A revisão de 298 arquivos revelou pelo menos 25 encerramentos irregulares adicionais
Dada a magnitude do caso, as autoridades ordenaram uma revisão de todos os 298 processos que Bu processou e encerrou durante seu período na equipe de investigação, entre março de 2025 e julho de 2026, um período de cerca de 16 meses. Esse número representa aproximadamente 11% de todos os boletins de ocorrência de pessoas desaparecidas registrados em Jeju durante esse período, segundo as autoridades, e triplica a média por agente.
O jornal Korea Times noticiou que Hong Seok-ki, chefe do Departamento Nacional de Investigação da Agência Nacional de Polícia da Coreia (KNPA), visitou a delegacia de polícia de Jeju para receber informações sobre a situação. "É claro que lamento o ocorrido e tomarei medidas institucionais para garantir que algo assim não volte a acontecer", declarou ao sair do prédio. A primeira-ministra Han Seong-sook ordenou que a KNPA conduzisse uma investigação minuciosa sobre o caso e desenvolvesse medidas estruturais para evitar sua recorrência.
As autoridades identificaram pelo menos 25 casos adicionais com indícios de encerramento irregular ou informações falsificadas. Em 10 desses casos, a polícia encerrou as investigações sem contatar os indivíduos ou confirmar sua segurança; todos foram posteriormente localizados com vida. Em outros 15 casos, os indivíduos estavam em segurança, mas a polícia registrou no sistema que eles haviam falecido em acidentes de trânsito, homicídios ou outras circunstâncias.
O escândalo abriu um debate nacional sobre a supervisão policial
O caso abalou a credibilidade da instituição em um momento politicamente delicado. Sob um sistema atualmente em revisão pela KNPA (Agência Nacional de Proteção à Criança da Coreia), os agentes podiam encerrar unilateralmente casos de pessoas desaparecidas sem notificar seus superiores. Essa falta de supervisão permitiu que as irregularidades de Bu passassem despercebidas por meses. O jornal Korea Times noticiou que a KNPA está avaliando se os gerentes de nível médio deixaram de cumprir seus deveres.
A pressão pública e da mídia levou o presidente sul-coreano Lee Jae-myung a prometer uma reforma institucional. O escândalo surgiu em um momento em que o governo pressiona pela aprovação de uma legislação que transfira os poderes de investigação dos promotores para a polícia, argumentando que isso reduzirá sua influência em assuntos políticos. A medida está gerando resistência entre aqueles que questionam o histórico de corrupção e incompetência da corporação.
Com quatro corpos encontrados na Ilha de Jeju em menos de uma semana e centenas de casos sob revisão, a KNPA enfrenta uma crise de confiança que o próprio governo reconhece como um problema institucional profundamente enraizado. Agências policiais em todo o país iniciaram revisões de casos arquivados, e o caso de Bu tornou-se um símbolo de uma falha sistêmica que transcende a conduta individual de qualquer policial.
