
Com as relações entre os EUA e o Canadá cada vez mais tensas após o fracasso das negociações comerciais entre os dois países, a maioria dos canadenses apoia seu governo e a maneira como ele escolheu lidar com o impasse. Mas, do outro lado da fronteira, os americanos oferecem muito menos apoio à abordagem do governo Trump.
As negociações comerciais entre os EUA e o Canadá fracassaram no mês passado, com cada lado culpando o outro. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, criticou os EUA por solicitarem o que descreveu como "mudanças de última hora", que, segundo ele, eram "injustas, antieconômicas e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo".
O presidente americano, Donald Trump, por sua vez, acusou o Canadá de "explorar os EUA há décadas" e retratou o país como "difícil e irracional".
Um dia após o fracasso das negociações comerciais, entraram em vigor as tarifas de 50% impostas pelo governo Trump sobre bilhões de dólares em produtos canadenses. O Canadá, então, anunciou tarifas retaliatórias que entrarão em vigor em 8 de setembro.
As tensões entre as duas nações só aumentaram. Na semana passada, Trump assinou uma Ordem Executiva instruindo seu Secretário do Interior a mudar o nome do Lago Ontário para "Lago América" — uma medida que irritou os canadenses e provocou reações negativas de líderes políticos tanto no Canadá quanto nos EUA.
Não há uma solução clara à vista para a ruptura na crucial relação comercial entre os países, com Trump e Carney mantendo-se firmes em suas posições.
Ao falar com jornalistas na terça-feira, Carney sinalizou que estaria disposto a retomar as negociações, mas somente se as autoridades americanas parassem de insultar e zombar de seu país. "Quando os americanos pararem de fazer memes, de criticar, de tentar bancar os durões e começarem a levar a sério essas discussões, poderemos tê-las", disse o líder canadense.
Não é construtivo", acrescentou. "Mas essa é a democracia deles".
Enquanto isso, Trump reiterou suas acusações contra o Canadá quando questionado no dia seguinte sobre a possibilidade de retomada das negociações. "O Canadá vem explorando os Estados Unidos há muitos, muitos anos, há décadas", disse o presidente durante uma coletiva de imprensa na quarta-feira.
Eis o que pesquisas recentes revelam sobre como americanos e canadenses se sentem em relação à situação tensa — e como seus líderes estão lidando com ela.
A maioria dos americanos — quase 70% — disse acreditar que os EUA deveriam estar abertos a um acordo com o Canadá, mesmo que isso signifique que muitas das exigências americanas não sejam atendidas, segundo uma pesquisa do Ipsos divulgada na terça-feira. Em comparação, apenas 25% dos americanos disseram acreditar que os EUA deveriam adotar uma postura firme contra seu vizinho do norte e pressionar para que muitas de suas exigências sejam atendidas.
Os americanos também se mostraram mais propensos a responsabilizar seu próprio governo pela deterioração das relações do que o governo canadense. Cerca de 46% disseram acreditar que os EUA têm a maior parcela de culpa pela guerra comercial em curso, enquanto apenas 12% disseram acreditar que o Canadá é mais culpado e 18% disseram sentir que ambos os lados são igualmente responsáveis, de acordo com a pesquisa.
A pesquisa também revelou que a maioria dos americanos se opõe a ações que possam agravar ou já tenham agravado as tensões entre os dois países. Por exemplo, quase 60% dos americanos disseram ser contra a imposição de tarifas adicionais dos EUA sobre o Canadá, enquanto apenas 20% indicaram apoio a uma medida tão agressiva. E mais de 60% dos americanos disseram discordar da ordem de Trump para renomear o Lago Ontário, enquanto apenas 14% apoiaram a medida.
A objeção dos americanos à Ordem Executiva, em particular, foi observada em ambos os partidos: 84% dos democratas e 65% dos independentes disseram ser contra, e mais republicanos (43%) se opuseram a ela do que aqueles que concordaram com ela (33%).
Uma pesquisa recente do Economist/YouGov apresentou resultados semelhantes: quase 60% dos americanos que responderam à pesquisa disseram ser contra o aumento das tarifas sobre produtos canadenses, em comparação com menos de 30% que disseram apoiar tal medida. Cerca de 45% disseram acreditar que o Canadá não tem sido injusto com os EUA em relação ao comércio entre os dois países, enquanto apenas 28% concordam com Trump ao pensar que o Canadá tem sido injusto.
A maioria — 64% — dos americanos ainda descreve o Canadá como um aliado ou amigo, de acordo com a pesquisa Economist/YouGov. Mas, embora continuem sendo minoria, a parcela de americanos que veem o Canadá de forma negativa cresceu nos últimos anos; cerca de 22% descrevem o Canadá como hostil ou inimigo, um recorde desde 2016. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por americanos que se identificam como republicanos, segundo a pesquisa.
Em meio ao impasse com o Canadá, o índice de aprovação de Trump permaneceu em torno de 38%, onde tem oscilado nos últimos meses. Esse número representa uma queda acentuada de 14 pontos percentuais em relação ao índice de aprovação registrado quando ele reassumiu a Casa Branca em janeiro passado.
A maioria dos canadenses — 63% — afirmou acreditar que o país tomou a decisão correta ao manter sua posição e abandonar as negociações comerciais com os EUA, "mesmo que isso signifique custos mais altos e perda de empregos", segundo uma pesquisa do Ipsos realizada para a Global News e divulgada em 29 de agosto. Ainda mais canadenses — 73% — disseram concordar com a decisão do país de impor tarifas retaliatórias sobre produtos americanos no valor de bilhões de dólares.
A pesquisa constatou, no entanto, que o apoio a essas ações era menor entre os grupos demográficos mais jovens do que entre os grupos etários mais velhos. Por exemplo, pouco menos de 50% dos adultos da Geração Z apoiaram a decisão do Canadá de se manter firme nas negociações comerciais, em comparação com 80% dos baby boomers mais velhos.
Outra pesquisa, conduzida pelo Instituto Angus Reid, uma organização canadense sem fins lucrativos, revelou que cerca de 76% dos canadenses acreditam que o país agiu corretamente ao suspender as negociações comerciais, e que 69% afirmaram acreditar que Carney demonstrou "firmeza" ao rejeitar um "mau acordo".
A maioria dos canadenses — 62% — também indicou apoio a tarifas retaliatórias contra os EUA, considerando a medida "adequada dadas as circunstâncias".
Ainda assim, 89% dos canadenses expressaram preocupação com o fato de a guerra comercial com os EUA afetar os preços, segundo a pesquisa — embora mais de 60% dos canadenses tenham dito acreditar que o país sairá mais forte dessa disputa.
Enquanto a popularidade de Trump permanece em baixa, a do governo Carney subiu quatro pontos percentuais, chegando a 56% nas últimas semanas, ao passo que sua desaprovação caiu dois pontos, para apenas 29%, segundo dados divulgados pela empresa de pesquisas Abacus Data no domingo. A aprovação de Carney individualmente também melhorou recentemente, com 53% dos canadenses tendo uma opinião positiva sobre ele e apenas 28% uma visão negativa. A empresa de pesquisas afirmou que seus resultados indicam que "a posição política do governo Carney se baseia principalmente em como os canadenses avaliam sua gestão da relação com os Estados Unidos".
O Partido Liberal Canadense, liderado por Carney, manteve sua estreita maioria no Parlamento, com seus candidatos saindo vitoriosos em três eleições especiais realizadas no início desta semana.
Carney citou as ações de seu governo na guerra comercial como um dos principais motivos para as vitórias. "A mensagem clara da noite passada, em três distritos eleitorais muito diferentes neste grande e diverso país, é que os canadenses apoiam o plano do governo, que visa, antes de tudo, fortalecer o país, diversificar com parceiros confiáveis e construir um Canadá forte para todos", disse ele na terça-feira.
