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Trump quer estabilizar a Líbia. Os militantes têm outros planos.

✍️ Redação AR NEWS 24H ⏱️ 5 min de leitura
Trump quer estabilizar a Líbia. Os militantes têm outros planos.

Uma série de crises abalou a Líbia no último mês, minando uma iniciativa liderada pelos EUA para resolver o profundo impasse político do país e abrir seus mercados ao investimento americano.

Protestos violentos contra a deterioração das condições de vida eclodiram em cidades do oeste controladas pelo primeiro-ministro Abdul Hamid Dbeibeh, ao mesmo tempo em que uma série de ataques com drones atingiu instalações de energia e petróleo na cidade de Zawia, a oeste de Trípoli. No leste, perto de Benghazi, sob o comando do homem forte Khalifa Haftar, agressores desconhecidos assassinaram o major-general Fawzi al-Mansouri, chefe da inteligência militar de Haftar. Essa sequência caótica de eventos levou os EUA, a reconhecerem, tardiamente, que a deterioração da situação de segurança poderia comprometer sua iniciativa de paz.

Em um tom que refletia preocupação com a situação que se agravava, Massad Boulos, assessor do presidente Donald Trump para assuntos árabes e africanos, afirmou que os ataques "ressaltam a necessidade de instituições militares e de segurança unificadas e profissionais, capazes de garantir a segurança do povo líbio" Até o momento, Boulos conseguiu reunir comandantes militares do leste e do oeste da Líbia em exercícios conjuntos e reuniões bilaterais. Mas esses esforços incipientes estão longe de uma unificação efetiva das instituições militares. Sem progresso nessa frente, há pouca esperança de se alcançar uma solução política duradoura.

O dilema da segurança

Em um recente relatório ao Conselho de Segurança da ONU, Hanna Tetteh, enviada da ONU para a Líbia, disse que os apagões generalizados e o descontentamento público revelavam as consequências da "fragmentação institucional", da má gestão de recursos, do baixo investimento e da inexistência de coordenação na tomada de decisões. O alerta de Tetteh sobre a fragilidade da situação de segurança ao longo da costa oeste — onde grupos armados ligados ao tráfico de drogas, de pessoas e de combustível competem — reacende as questões não abordadas sobre as milícias armadas que se tornaram parte do cenário líbio atual.

Um aspecto importante desse alerta é a tentativa de Dbeibeh de reorganizar suas forças antes de uma possível operação militar para retomar o controle de Zawia das milícias locais, cidade que se tornou uma prioridade estratégica devido à refinaria de petróleo ali localizada.

No entanto, Mohammed al-Haneesh, membro da Câmara dos Representantes da Líbia por Zawia, adverte que invadir a cidade não é tarefa fácil — uma que poderia ter custos políticos e de segurança exorbitantes.

Al-Haneesh afirma que o sucesso de qualquer acordo político dependerá da capacidade do governo dos EUA de exercer pressão forte e equilibrada sobre todas as partes. O fracasso nesse aspecto, observou ele, poderia abrir caminho para uma nova escalada armada, levando a uma divisão ainda maior do que a atual.

O futuro da situação de segurança em Zawia é importante para Boulos. Também é importante para a empresa americana General Electric, que anunciou a evacuação de suas equipes técnicas de uma usina em Zawia até que a situação de segurança melhore.

Zawia, localizada a cerca de 40 quilômetros a oeste de Trípoli e que abriga a maior refinaria em operação na Líbia, não é apenas uma cidade problemática; em minha opinião, é um teste crucial para a iniciativa de Boulos.

Qualquer escalada ali enfraqueceria a posição de Dbeibeh e aumentaria a fragilidade do ambiente de segurança no oeste. Isso ameaça diretamente a iniciativa dos EUA, que depende da manutenção da frágil estabilidade do país.

O objetivo, da perspectiva dos EUA, é impor um acordo de compartilhamento de poder entre o leste e o oeste que unifique as instituições e crie condições para investimentos no setor energético.

Zawia provou que a dimensão de segurança da iniciativa de Boulos está um tanto subdesenvolvida, como demonstrado vividamente pela rápida saída da GE da usina local. Essa saída deve servir de alerta para Boulos, enquanto ele busca persuadir outras empresas americanas a retornarem à Líbia.

E, apesar do sucesso de Boulos em unificar o orçamento pela primeira vez em 13 anos, o conflito entre Benghazi e Trípoli sobre as receitas do petróleo e a gestão do banco central continua.

Se Dbeibeh tentar tomar Zawia e impor seu controle, a iniciativa ficará sob extrema pressão, pois seu provável fracasso significará necessariamente que ele não é a figura confiável para trazer estabilidade.

Na perspectiva do especialista em petróleo Ahmed al-Shehati, a iniciativa de Boulos não visa resolver as raízes do conflito líbio, mas sim, pragmaticamente, congelar temporariamente o conflito e proteger o fluxo de petróleo.

Esse acordo pode ter sucesso, segundo al-Shehati, em evitar confrontos militares entre as elites e estabilizar o fluxo de recursos, mas permanece frágil a longo prazo.

A família de Haftar com múltiplas vozes

No leste, especificamente no reduto de Haftar em Benghazi (a terceira maior cidade da Líbia), a situação não é menos complexa.

Ele sofreu um duro golpe com o assassinato de al-Mansouri, um de seus principais assessores e chefe da inteligência militar. Mas Haftar conseguiu manter a maior parte da atenção voltada para seus esforços incansáveis em conquistar a simpatia, tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia, de seu filho, Saddam Hussein, em parte ajudando a garantir a libertação de um piloto americano e dois combatentes do Afrika Korps russo no Mali.

Ao se aproximar de potências estrangeiras, Khalifa Haftar espera garantir a influência de sua família em qualquer acordo futuro. O acordo de compromisso de Boulos não foi divulgado, mas relatos sugerem que ele colocaria Saddam Hussein à frente do Conselho Presidencial, que governaria juntamente com Dbeibeh como primeiro-ministro.

O recente relatório de Tetteh destaca a divergência de prioridades entre as iniciativas concorrentes: enquanto as Nações Unidas trabalham para unificar as instituições de segurança e executivas em preparação para as eleições há muito adiadas, Boulos busca apenas um consenso político e econômico entre os atuais centros de poder.

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