Ebola avança na República Democrática do Congo e profissionais de saúde param atividades por salários atrasados
A luta contra o maior surto de Ebola da história africana enfrenta uma nova ruptura na República Democrática do Congo (RDC). Funcionários de uma unidade de tratamento no epicentro da crise paralisaram as atividades na segunda-feira em protesto contra atrasos salariais, enquanto autoridades confirmam que o vírus já atinge cinco províncias após avançar pelo nordeste do país.
A greve ocorreu no Hospital Geral de Rwampara, na província de Ituri, região mais castigada pela epidemia. Epidemiologistas, investigadores de casos, motoristas e coveiros afirmam que trabalham sem receber há dois meses. Um dos profissionais, Bahati Claude, demonstrou perplexidade com a situação: segundo ele, é inconcebível que o pagamento não tenha sido efetuado apesar das jornadas contínuas no combate à doença.
A paralisação se soma a um cenário já alarmante. A doença, que se concentra no norte congolês, é a mais grave já registrada no continente. Os números mais recentes apontam 1.926 infecções e 702 mortes. No domingo, o Instituto Nacional de Saúde Pública da RDC oficializou a presença do vírus em Haut-Uele e Tshopo, elevando para cinco o total de províncias em situação de surto.
Desinformação, conflitos e rituais tradicionais dificultam o controle
A resposta sanitária é obstada por uma combinação complexa de fatores. A presença de grupos paramilitares armados, que dominam trechos da região em função de reservas minerais, limita o acesso das equipes médicas e eleva a insegurança nas zonas afetadas.
Ao mesmo tempo, boatos e crenças locais alimentam hostilidade contra os profissionais de saúde. Em algumas comunidades, a doença é associada à feitiçaria, o que já resultou em agressões a trabalhadores humanitários. Outro obstáculo são os rituais funerários tradicionais, amplamente enraizados, nos quais famílias desrespeitam protocolos de biossegurança — facilitando a disseminação do patógeno durante o luto.
A crise sanitária também carrega um peso econômico devastador. De acordo com as Nações Unidas, a epidemia já jogou quase um milhão de pessoas na pobreza, aprofundando a vulnerabilidade social em áreas já bastante castigadas.
Governo promete regularizar pagamentos e OMS pede ação urgente
Diante da greve, o ministro da Saúde da RDC, Roger Kamba, reconheceu falhas administrativas na folha de pagamento. Em declaração na semana passada, ele afirmou que o governo trabalha para corrigir distorções nas listas de beneficiários e garantir que os valores cheguem aos trabalhadores que efetivamente estão em serviço. “Temos os meios para resolver isso”, disse Kamba, referindo-se às mudanças nas relações que geraram omissões.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a escalada da transmissão exige uma reação coordenada e imediata entre parceiros locais, nacionais e internacionais. Já o Comitê Internacional de Resgate (IRC) alertou que a progressão da doença está acelerando nas regiões previamente atingidas, ao mesmo tempo que cresce o perigo de propagação para o Sudão do Sul, vizinho da RDC.
Segundo cidadão dos EUA infectado recebe tratamento na Alemanha
A dimensão internacional do surto ganhou novo capítulo nesta segunda-feira, quando um segundo norte-americano diagnosticado com Ebola foi internado em unidade de isolamento especial do Hospital Universitário de Frankfurt, na Alemanha. O paciente, um homem com mais de 60 anos, teve a infecção confirmada na sexta-feira enquanto prestava serviços a uma organização humanitária cristã na RDC. Segundo Timo Wolf, chefe da enfermaria isolada, o estado de saúde dele é atualmente estável.
Entre desafios operacionais, barreiras culturais e pressão para conter o avanço do vírus em novos territórios, a República Democrática do Congo segue no centro do que especialistas consideram a emergência de saúde pública mais grave já vivida pelo continente africano.
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