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Uma alerta global: a surpreendente crise de dengue no Brasil - The Washington Post

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Hospital Municipal Raphael de Paula Souza atende pacientes com sintomas de dengue no Rio de Janeiro em fevereiro. (Mauro Pimentel/AFP/Getty Images)


Uma alerta global: a surpreendente crise de dengue no Brasil

BRASÍLIA — Cenas de caos e desespero se tornaram comuns nos hospitais públicos e privados por todo o Brasil. Salas de espera lotadas de pacientes gemendo de dor, deitados em macas improvisadas ou até mesmo no chão, à espera de atendimento que parece não vir. Enfermeiros correndo de um lado para outro em meio ao tumulto, tentando prestar os primeiros socorros, mas sobrecarregados diante da demanda explosiva.

Nunca antes o país havia enfrentado uma crise sanitária de tamanha proporção. Nem mesmo durante os piores momentos da pandemia de Covid-19, quando os sistemas de saúde entraram em colapso sob a pressão dos inúmeros casos. Desta vez, porém, o causador não é o coronavírus e sim outro velho conhecido que vem causando danos ainda maiores - a dengue.

Os números refletem a gravidade da situação. Somente nos dois primeiros meses de 2024, mais de um milhão de casos suspeitos da doença foram registrados no Brasil, o dobro do mesmo período do ano anterior. Até o fim do ano, projeções indicam que o total poderá ultrapassar os 4,2 milhões de infectados, o maior número já registrado na história do país.

E o Brasil não está sozinho nesta crise. Também em outros países da América do Sul a dengue avançou de forma preocupante. No Paraguai, quase 100 mil casos suspeitos foram notificados até agora em 2024 - cinco vezes acima da média. No Peru, a expansão da doença forçou a declaração de emergência em diversas regiões. Na Argentina, os números dispararam de forma alarmante.

Para os especialistas, o que está acontecendo é um claro sinal de alerta. A luta contra a dengue ingressou numa nova fase imprevisível e ainda mais perigosa. Se antes a doença ficava limitada aos climas tropicais, agora está se espalhando para regiões onde nunca havia chegado antes. E onde já é endêmica, os casos explodem exponencialmente a níveis inéditos.

A proliferação sem precedentes da dengue no Brasil representa um alerta ao mundo sobre os desafios crescentes impostos por doenças transmitidas por vetores. E sobre a urgência de se investir em medidas de prevenção e controle, antes que surtos podem se alastrar por outros continentes.

Um cenário perfeito

Para entender o motivo dessa situação catastrófica, é necessário analisar diversos fatores que se combinaram em um cenário devastador. Nos últimos anos, os números de casos de dengue vinham aumentando gradativamente no Brasil, passando de algumas centenas de milhares por ano para mais de 1,7 milhão em 2021.

No entanto, algo diferente ocorreu em 2022. Uma onda extrema de calor atingiu o país simultaneamente a um forte episódio do fenômeno climático El Niño. Isso acabou criando condições ideais para a proliferação do mosquito Aedes aegypti, vetor transmissor da dengue, em proporções antes impensáveis.

“As altas temperaturas, associadas ao El Niño, prolongaram o ciclo de vida do mosquito e aumentaram sua capacidade reprodutiva”, explica Kleber Luz, coordenador de pesquisas sobre dengue na Sociedade Brasileira de Epidemiologia. "Cada mosquito foi capaz de picar e infectar mais pessoas."

Outro fator agravante foi a circulação simultânea dos quatro sorotipos do vírus da dengue no Brasil, reduzindo as defesas de quem já havia tido a doença anteriormente. Além disso, milhões de brasileiros vivem em comunidades precárias, sem acesso adequado a saneamento, facilitando o acúmulo de água parada e a reprodução do vetor.

Somados, esses elementos criaram o quadro perfeito para a propagação descontrolada do vírus. E o epicentro desta crise sem precedentes tem sido o Distrito Federal.

Colapso em Brasília

Localizada no coração do país, Brasília se tornou o local mais castigado pelo surto em 2022. Até o final de fevereiro, quase 120 mil casos prováveis ​​de dengue já haviam sido confirmados na capital federal, que concentra apenas 2,8 milhões de habitantes.

A velocidade com que a doença se disseminou superou em muito a capacidade de resposta das autoridades locais. Em questão de semanas, hospitais públicos e privados atingiram o limite, não conseguindo mais receber os pacientes que chegavam em estado grave, com febre alta, dores musculares, manchas pelo corpo e sangramentos.

Cenas de desespero passaram a ser corriqueiras nos postos de saúde. Pacientes amontoados em macas improvisadas ou cadeiras, agonizando por atendimento médico. Familiares correndo desesperados de um hospital a outro em busca de uma vaga, sob o temor de perder seus entes queridos.

“Nunca presenciamos uma demanda tão grande como agora. Estamos passando por uma crise sem precedentes”, admitiu o secretário de Saúde do DF, Manoel Pafiadache.

Diante da superlotação, os hospitais não conseguiam mais garantir o devido atendimento e tratamento aos enfermos, como consultas médicas, exames complementares e prevenção de complicações. Muitos pacientes precisaram aguardar por horas, ou até dias, por uma avaliação clínica.

Para dar vazão à demanda reprimida, as autoridades abriram às pressas um hospital de campanha. Porém, os leitos se encheram com rapidez. Além da alta transmissão, outro agravante foi a gravidade dos casos, muito mais complexos devido à circulação de várias variantes do vírus.

Expansão global

A expansão dramática da crise no Brasil acende um alerta para todo o mundo, segundo especialistas. A propagação da dengue para regiões antes poupadas demonstra como a doença emergiu como ameaça crescente em nível planetário, facilitada pelas mudanças climáticas.

Nos Estados Unidos, já há registro de focos de transmissão local em estados quentes e úmidos como Flórida, Texas e Califórnia. Também foi confirmada no sul da Europa. Se nada for feito para contê-la, há risco real desses locais se tornarem endêmicos nas próximas décadas.

"Precisamos estar preparados, essa crise no Brasil pode influenciar ainda mais a disseminação da doença para outros continentes", afirma Gabriela Paz-Bailey, do CDC americano.

Para Albert Ko, de Yale, é imprescindível que países até então poupados invistam em controle do mosquito transmissor e sistemas de vigilância para detectar rápido novos focos. No Brasil, a batalha contra a dengue deverá ser intensificada, com foco na redução dos criadouros do Aedes aegypti e na melhoria do atendimento à população mais vulnerável.

Se nada for feito, o que ocorre atualmente no país poderá se repetir em outros pontos do planeta nos próximos anos, à medida que as mudanças climáticas ampliem o alcance do mosquito. E, assim, novas gerações terão de lidar com as difíceis consequências de uma doença que, até agora, assola principalmente os trópicos.
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