
Temos um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, construído como conquista democrática na Constituição de 1988, mas convivemos diariamente com o abandono progressivo daqueles que sustentam esse sistema funcionando.
O SUS permanece sendo o principal instrumento de proteção social do povo brasileiro. É ele que acolhe a maioria absoluta da população, que vacina milhões, realiza transplantes, garante atendimento de urgência e sustenta programas essenciais de prevenção e assistência. Sem o SUS, o país mergulharia em uma tragédia humanitária ainda maior.
Mas nenhum sistema resiste indefinidamente ao desmonte político, ao subfinanciamento crônico e à destruição da dignidade de seus trabalhadores.
A precarização do trabalho na saúde deixou de ser um problema administrativo. Tornou-se um mecanismo institucionalizado de adoecimento humano.
Profissionais submetidos à terceirização, pejotização, contratos frágeis e jornadas exaustivas vivem hoje sob permanente insegurança. Trabalham sem estabilidade, sem proteção previdenciária adequada, sem descanso digno e, muitas vezes, sem condições mínimas de atendimento. Concurso público e carreira nem se fala.
Burnout, depressão, ansiedade, exaustão física, sofrimento psíquico severo e doenças cardiovasculares avançam silenciosamente entre trabalhadores que deveriam ser protegidos pelo Estado e respeitados pela sociedade.
Há profissionais morrendo lentamente sob o peso de um modelo que naturalizou o excesso, a insegurança e a exploração.
Durante as recentes crises sanitárias globais, médicos, enfermeiros, técnicos e demais trabalhadores da saúde foram chamados de heróis nacionais. Receberam homenagens, aplausos e discursos emocionados. Passada a emergência, voltaram ao mesmo cenário de baixos salários, múltiplos vínculos precários e abandono institucional. A situação dos aposentados é de indignidade, viveram trabalhando nesse sistema e hoje padecem do esquecimento institucional.
A hipocrisia nacional está justamente aí: celebra-se o heroísmo enquanto se destrói a dignidade do trabalhador.
Ao mesmo tempo, o país presencia o avanço agressivo da mercantilização do ensino na saúde. Multiplicam-se escolas e cursos sem qualidade mínima, abertos sob lógica puramente comercial, sem compromisso ético, científico ou humano.
Educação em saúde virou negócio altamente lucrativo para grupos econômicos, enquanto a formação profissional e a segurança da população tornam-se variáveis secundárias.
Instituições sem estrutura adequada continuam funcionando como fábricas de diplomas. Isso compromete o futuro da assistência, enfraquece a qualidade do atendimento e ameaça diretamente a saúde coletiva.
Enquanto isso, a desigualdade brasileira segue estampada na própria geografia do cuidado.
Quando adoecem, muitos governantes e setores privilegiados recorrem aos grandes hospitais privados de São Paulo. Já a maioria da população depende exclusivamente do SUS — muitas vezes enfrentando filas intermináveis, falta de especialistas, carência de exames e estruturas insuficientes.
Essa distância entre o Brasil oficial e o Brasil real revela uma das maiores tragédias políticas do país: aqueles que decidem os rumos da saúde pública frequentemente não vivenciam as consequências do próprio abandono que produzem.
As reformas econômicas e constitucionais aprovadas nos últimos anos aprofundaram esse cenário. Direitos trabalhistas foram enfraquecidos, vínculos de proteção social foram desmontados e a precarização passou a ser apresentada como modernização inevitável.
Nenhuma nação constrói desenvolvimento sustentável adoecendo seus trabalhadores, abandonando sua saúde pública e tratando direitos sociais como obstáculos econômicos.
O Brasil precisa decidir que projeto de país deseja construir. Nós temos uma, entre várias propostas, a carreira única interfederativa do SUS. Está na lei do SUS e nunca foi discutida. Agora a Mesa Nacional de Negociação Permanente do SUS debateu e aprovou esse protocolo. Com certeza uma das mais importantes propostas de enfrentamento da crise de recursos humanos.
Ou seguirá naturalizando desigualdade, exploração e abandono institucional, ou reconstruirá um pacto social baseado na valorização da vida, do trabalho digno e da saúde pública como direito fundamental.
Defender o SUS não é apenas defender hospitais e serviços. É defender a ideia de que vidas humanas não podem ser subordinadas à lógica do lucro, do descaso e da exclusão.
Um país que abandona seus profissionais de saúde está, na verdade, adoecendo a si mesmo.
