
Há decisões que ultrapassam o papel e revelam a temperatura de uma República. A decisão de André Mendonça de afastar o diretor-geral e o diretor de Inteligência da Polícia Federal é uma delas.
Não se trata apenas da substituição de dois dirigentes. O que está em discussão é a existência de uma estrutura de inteligência que produziu relatórios sobre um ministro do Supremo Tribunal Federal, inclusive um documento sem assinatura, timbre ou autoria identificada e classificado como de baixa confiabilidade.

Para entender o tamanho do problema, é preciso olhar para o contexto. Mendonça é o relator do caso Banco Master, uma investigação que colocou sob os holofotes operações e relações envolvendo personagens poderosos.
No curso desse processo, vieram a público mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro que levantaram questionamentos sobre sua relação com Alexandre de Moraes. Depois disso, Moraes pediu que Mendonça fosse investigado.
Agora, surge a informação de que havia uma estrutura de inteligência da própria Polícia Federal produzindo material relacionado ao ministro.
Não é preciso inventar uma conspiração para reconhecer que essa sucessão de fatos é grave. Basta fazer as perguntas que precisam ser feitas.
Quem determinou a produção desses relatórios? Qual era a finalidade? Que informações foram utilizadas? Quem tinha conhecimento disso? E por que um ministro do Supremo passou a ser objeto de uma estrutura de inteligência vinculada à Polícia Federal?
É justamente aí que o caso deixa de ser uma simples disputa entre autoridades e passa a interessar a todos os brasileiros. Instituições de Estado não podem funcionar como instrumentos de proteção, pressão ou intimidação de quem quer que seja. Nem contra um cidadão comum, nem contra um ministro do Supremo, nem contra um parlamentar, nem contra qualquer autoridade.
Durante anos, ouvimos que a Polícia Federal deveria ser Polícia de Estado, e não polícia de governo Concordo. Mas esse princípio só tem valor quando vale para todos. Uma instituição verdadeiramente republicana não pode ser forte apenas diante dos fracos e cautelosa diante dos poderosos.
Afinal, quando uma autoridade decide mexer em uma estrutura sensível do Estado, não movimenta apenas em papéis e cargos, mas em interesses.
E quando essa autoridade está no centro de um caso como o Banco Master, o que está em jogo vai muito além de uma disputa administrativa. Ali se cruzam dinheiro, poder, instituições e personagens de enorme influência. É exatamente por isso que a decisão de Mendonça precisa ser examinada sem medo de chegar onde os fatos levarem.
Possivelmente, essa é a verdadeira caixa de marimbondos: não descobrir quem é amigo de quem, mas desvendar até onde certas estruturas do Estado podem chegar quando acreditam que ninguém está olhando.
Agora estão olhando. E o Brasil tem o direito de saber o que havia dentro dessa caixa.
Magno Malta é senador da República. Foi eleito por duas vezes o melhor senador do Brasil.
