
Após revelar a rota do ouro que está sendo investigada pelo Ministério Público boliviano e a ligação empresarial entre Fernando Cerimedo, ex-ANDIS, sua então esposa Natalia Basil e Vicente Federico Quintanal, o REALPOLITIK teve acesso a novos áudios que fornecem informações sobre a origem da Australis Energy Group SRL e conversas sobre a divisão de empresas entre o consultor e seu ex-sócio.
As gravações atribuídas a Cerimedo revelam um detalhe até então desconhecido: o interlocutor menciona um sócio a quem chama de "Roque", descrevendo-o como insolvente, e afirma que, não conseguindo se desvincular dessa empresa, "eles criaram outra chamada Australis". "Vou dar metade para a Surlibre", diz ele, referindo-se à divisão de bens.
Em 3 de abril de 2026, o REALPOLITIK revelou que Basil, ex-funcionário da Agência Nacional para Pessoas com Deficiência (ANDIS) e, na época, sócio de Cerimedo, havia formado o Australis Energy Group juntamente com Vicente Quintanal.
A empresa foi registrada em 30 de julho de 2025 com o objetivo de viabilizar atividades de exploração geológica, extração de hidrocarbonetos e mineração de lítio, gás e ouro, além da geração de energias tradicionais e alternativas.
O artigo publicado por este veículo sobre a investigação boliviana já havia mencionado que a possível ligação com o ouro decorre, por ora, do caso em que a Procuradoria de La Paz investiga o ex-assessor de Javier Milei por suposto enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro. A investigação teve origem em transações detectadas em uma casa de câmbio e ainda está em fase preliminar.
O que os áudios de Fernando Cerimedo revelam sobre o Australis Energy Group
Nos áudios, um interlocutor atribuído a Fernando Cerimedo menciona a Australis Energy Group, a Surlibre Inversiones SA e outras empresas da rede, como a Numen.
Referindo-se à Australis, ele afirma que a Patagonia Energy Holding SA, uma empresa de energia ligada a um sócio que ele chama de "um certo Roque" e descreve como insolvente, já existia anteriormente. Segundo seu relato, como não conseguiam romper os laços com essa sociedade, "criaram outra chamada Australis".
A gravação sugere que a nova empresa foi criada para separar os negócios futuros da Patagonia Energy Holding, embora não especifique quais dívidas, obrigações ou conflitos existiam, nem qual era a situação jurídica do sócio mencionado.
O nome mencionado nos áudios - "Roque" - coincide com os registros corporativos revelados pela REALPOLITIK.
Roque Cambareri consta como presidente da Patagonia Energy Holding SA, empresa criada em fevereiro de 2024 e dedicada ao setor energético, da qual Basil e Quintanal também fazem parte.
Cambareri já havia sido identificado por esta redação como uma figura recorrente em diversas estruturas empresariais ligadas ao círculo de Cerimedo. As gravações de áudio sugerem que o "Roque" mencionado por Cerimedo é o mesmo Cambareri que aparece como presidente da Patagonia Energy Holding SA, em uma rede que também inclui Basil e Quintanal.
As informações de registro da Australis Energy Group completam o quadro. De acordo com dados da Inspeção Geral de Justiça (IGJ) e de bancos de dados comerciais, a Australis Energy Group SRL está registrada com o número CUIT 30-71918543-2. Natalia Belén Basil consta como sócia-gerente e Vicente Federico Quintanal como sócio.
Segundo o banco de dados Datok, o CUIT (número de identificação fiscal) consta como inativo no cadastro da ARCA, órgão sucessor da AFIP (Autoridade Tributária Federal Argentina); não declara atividade principal nem código de atividade, não possui funcionários cadastrados que possam ser consultados e não apresenta dívidas no sistema financeiro.
Essa situação coincide com o conteúdo dos novos áudios, nos quais Cerimedo afirma que a Australis "não funciona" e a incorpora ao grupo de empresas que restariam para Basil após a separação.
Em outras palavras, a empresa existe formalmente, com contrato social e sócios registrados, mas não apresenta atividade econômica visível — como Cerimedo sugere no áudio — nos bancos de dados comerciais consultados.
Esses documentos também incluem a Surlibre na divisão de bens que Cerimedo discutia com Natalia Basil durante a separação. Em um trecho, o consultor afirma que "cederá metade da Surlibre" à sua ex-companheira.
Enquanto a Australis aparece como uma empresa criada para atividades de mineração e energia sem atividade pública verificável, a Surlibre Inversiones SA mostra o outro lado do esquema: o de uma empresa que entrou no negócio da Hidrovia Paraná-Paraguai.
A Surlibre foi constituída em 13 de maio de 2024, possui o número de registro CUIT 30-71857626-8 e está cadastrada como empresa ativa na IGJ. Seu registro CUIT está ativo na ARCA, não possui cheques devolvidos e tem uma dívida de 87.000 pesos, classificada como situação 1, junto ao BBVA.
Sua principal atividade declarada é "serviços de consultoria, gestão e administração empresarial", uma categoria ampla que permite sua atuação em diferentes áreas.
A ligação da Surlibre com o negócio da Hidrovia Paraná-Paraguai se consolidou em 2024, quando a empresa se tornou sócia da Sanabria SRL, proprietária de um terreno em Puerto General San Martín, a cerca de 35 quilômetros ao norte de Rosário. O local, conhecido como "Guardería de Mirto", funcionava anteriormente como um depósito de barcos e ponto de partida para embarcações de recreio. A intenção do grupo era convertê-lo em uma base para o fornecimento de diesel e outros serviços a rebocadores e barcaças que navegam pela Hidrovia Paraná-Paraguai.
De acordo com o aviso de transferência de ações publicado pelo Registro Público de Comércio de Rosário, a Surlibre Inversiones SA adquiriu 150 das 500 ações da Sanabria SRL: 100 transferidas por Sergio Ezequiel Amarilla e 50 por Iván Alberto Sanabria. Após a transação, a Sanabria ficou com 200 ações, Amarilla com 150 e a Surlibre com 150, o que corresponde a 30% do capital social.
A empresa é presidida por Vicente Federico Quintanal, enquanto Fernando Gabriel Cerimedo consta como diretor suplente. Assim, Cerimedo integra formalmente a estrutura de gestão da empresa, que firmou parceria com a Sanabria e se envolveu no projeto de revitalização da creche Mirto em Puerto General San Martín.
As novas gravações de áudio incluem Surlibre falando sobre a divisão de bens que Cerimedo discutia com Natalia Basil durante a separação.
A pesquisa do IGJ e os bancos de dados comerciais posicionam a Surlibre dentro de uma rede de empresas com diretores e sócios recorrentes. Quintanal também aparece ligado à Almo Seco SA, Oppel SA, Hollybar SA, MDZ SA, Fevisa, Long Experience e Compañía Inversora Sudamericana SA, com atividades que abrangem assistência domiciliar, gastronomia, comércio e serviços.
Cerimedo, por sua vez, está ligado à Academia Numen, American Apps, Argentina de Triatlón e Compañía Inversora Sudamericana SA, empresa na qual coincide novamente com Quintanal.
Essa estrutura corporativa assume uma nova dimensão após as investigações judiciais abertas na Bolívia e na Argentina. Em La Paz, o Ministério Público está investigando Cerimedo por suposto enriquecimento ilícito e lavagem de dinheiro.
Nesse caso, foram realizadas buscas em propriedades e casas de câmbio, resultando na apreensão de dinheiro, documentos financeiros e equipamentos tecnológicos. A investigação também examina transações que podem envolver até $400.000 e possíveis operações relacionadas ao ouro. Trata-se de uma investigação em andamento, sem uma decisão judicial definitiva.
Caputo; do chefe da Agência Nacional de Portos e Navegação, Iñaki Arreseygor; e de Fernando Cerimedo por supostas irregularidades nas autorizações relacionadas à Sanabria SRL e suas atividades na Hidrovía.
