Minha carreira de quase 32 anos uniformizada ensinou‑me lições valiosas. Uma das mais importantes revela que a distância entre o sucesso militar operacional e os resultados políticos estratégicos pode ser significativa, e raramente se reduz ao aumento da atividade militar.
Em seu discurso de despedida, George Washington advertiu que “estabelecimentos militares excessivamente crescidos” eram “inauspiciosos para a liberdade”. A formação militar profissional dos EUA ensina a teoria de Carl von Clausewitz, segundo a qual a força militar deve permanecer subordinada a fins políticos. Colin Powell, como presidente do Estado‑Maior Conjunto, argumentou que a força militar só deveria ser empregada para alcançar objetivos claros e definíveis, apoiados pela opinião pública. Outros oficiais reformados, citados por Andrew Bacevich e Daniel Sjursen em *Paths of Dissent*, apresentaram argumentos semelhantes.
Desequilíbrio na política dos EUA
Os militares norte‑americanos são instruídos a analisar o poder nacional pelos modelos DIME ou DIMEFIL – diplomático, informativo, militar, econômico, financeiro, de inteligência e de aplicação da lei. Em teoria, esses elementos deveriam operar de forma integrada. Na prática, as guerras pós‑11 de Setembro deixaram as forças armadas muito mais preparadas e dotadas de recursos que os seus pares civis, responsáveis por moldar os resultados políticos. Esse desequilíbrio evidencia‑se nos pedidos de financiamento e nas propostas de lei de dotações. Os orçamentos militares recentes chegam a quase 900 bilhões de dólares por ano, com mais de 600 bilhões solicitados para 2026.
Em contraste, os recursos destinados a assuntos internacionais – diplomacia, desenvolvimento e assistência à segurança – giram em torno de 50 a 60 bilhões de dólares. A disparidade, portanto, ultrapassa a proporção de 15 para 1, ou mais de 25 para 1, caso se aprovar um orçamento de defesa de 1,5 trilhão de dólares. Rosa Brooks, em *Como tudo se tornou guerra e os militares se tornaram tudo*, aponta de forma direta o desafio: quando as forças armadas são o único instrumento de política externa com recursos completos, todos os problemas parecem ter solução militar.
Em 2008, dois colegas e eu publicamos um argumento complementar na *American Diplomacy*, citando o apelo do então secretário da Defesa, Robert Gates, por “um aumento dramático nos gastos com instrumentos civis de segurança nacional”. Nas quase duas décadas que se seguiram, o déficit de despesas civis só se ampliou, enquanto a diplomacia e o financiamento ao desenvolvimento foram reduzidos a níveis históricos. Muitas vezes, as operações militares são iniciadas para “enviar uma mensagem”, e o envio de tropas é anunciado sem objetivos ou critérios políticos claros para a retirada. Essa dependência excessiva de soluções militares transformou‑se em um hábito caro.
Ferramentas militares e realidade política
As falhas mais perigosas ocorreram no Iraque em 2010, quando foram criados postos de controle e patrulhas compartilhadas que mantiveram intervenientes armados desconfiados uns dos outros, operando em prol de um objetivo comum inexistente. Concebidos como solução temporária, esses arranjos não conseguiram resolver as disputas políticas subjacentes. A lição não foi que as forças dos EUA deveriam permanecer no terreno, mas que, ao término de uma operação militar, é imprescindível mobilizar entidades diplomáticas e políticas com todos os recursos disponíveis. Em junho de 2014, o Estado Islâmico explorou essa lacuna ao tomar Mosul e avançar em direção a Bagdá.
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