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Os terremotos na Venezuela deixaram crianças traumatizadas, deslocadas e em situação de insegurança alimentar.

✍️ Redação AR NEWS 24H ⏱️ 6 min de leitura
Os terremotos na Venezuela deixaram crianças traumatizadas, deslocadas e em situação de insegurança alimentar.

Este artigo faz parte da Cobertura Especial "Por Dentro do Desastre do Terremoto na Venezuela", onde examinamos as consequências dos terremotos, compartilhamos histórias de quem vivenciou a tragédia e exploramos o impacto humano, os esforços de recuperação e os desafios enfrentados pelas comunidades afetadas. Os nomes das crianças foram alterados para garantir sua proteção.

Esta reportagem foi produzida com o apoio da Moving Minds Alliance (MMA) por meio do Fundo de Para Crianças em Crise (REACH).

Por que a terra está com raiva das pessoas?", pergunta Elyas, de cinco anos, à sua avó, enquanto está deitado no meio de um labirinto de beliches montado sob uma tenda branca em um complexo esportivo em La Guaira, Venezuela. Sua família não tem a resposta para uma pergunta tão profunda.

O duplo terremoto de 24 de junho apagou parte da cidade onde ele cresceu. Dezenas de estruturas que ele conhecia agora são montes de escombros. Enquanto isso, outros prédios que permanecem de pé como esqueletos rachados ameaçam desabar a qualquer momento.

A família de Elyas está preocupada com a precisão com que ele descreve como uma parede de dois andares desabou sobre as costas do pai e cortou a mão da avó. "Tentamos distraí-lo, mas ele começa falando sozinho e pergunta tudo", Na nova rotina da criança, a chuva não é mais apenas água caindo do céu. A cada aguaceiro, ele antecipa o aviso da mãe de que "a terra vai tremer de novo." Segundo ela, o estrondo do trovão o faz lembrar do som que destruiu sua casa em Punta de Mulatos, em La Guaira, a região mais devastada dos seis estados da costa norte da Venezuela atingidos pelos terremotos.

"Ele ouve um avião e fica com medo; trovões e ele fica assustado […] houve um evento com o Mickey Mouse, e quando dispararam o canhão de confete, fez "Pow!" e ele começou correndo." Janet Guerra, psicóloga da Universidade Católica Andrés Bello e especialista em desenvolvimento infantil, explica que, embora as crianças nos primeiros anos de vida não processem esses eventos logicamente, eles permanecem "gravados no corpo." O período entre zero e cinco anos de idade, vital para o crescimento biológico, também é vital para o desenvolvimento da psique.

Se esse medo não for dissipado, a criança pode desenvolver um ciclo de paralisia ou desregulação emocional diante de futuros eventos estressantes", alerta Guerra, observando que essa consequência pode se estender até a idade adulta, onde elas reagirão sem compreender racionalmente a origem de seu sofrimento.

Quase 3,9 milhões de crianças vivem nas áreas afetadas pelos terremotos, segundo a UNICEF, e centenas de milhares enfrentam necessidades urgentes de moradia, alimentação e apoio psicológico.

As emoções que as crianças não conseguem nomear

Ao telefone, Elyas Elyas e sua mãe observam fotografias e vídeos de como era a vida deles antes do desastre: o último jantar de Natal, a festa de 15 anos do primo e a pintura da casa para a qual agora têm medo de voltar. É difícil para Elyas ficar parado. Logo ele se levanta, empurra a cadeira de rodas do pai e corre na grama sintética com outros meninos e meninas.

Desde que chegou ao acampamento, ele ficou mais "inquieto" e "indisciplinado." Às vezes, dizem os pais, ele "não obedece a nada." Segundo os especialistas consultados, esse comportamento é simplesmente uma das maneiras pelas quais as crianças expressam emoções que não conseguem ou não sabem nomear.

Nos abrigos espalhados. Por Caracas e La Guaira, algumas mães, pais e cuidadores dizem que seus filhos e filhas "não sabem" ou "não entendem" o que está acontecendo porque "são muito pequenos". "Eles entendem, eles sentem e sofrem — até os mais novos, de zero a dois anos de idade." Eles absorvem a tensão do ambiente ao seu redor e a expressam através de seu comportamento, razão pela qual precisam de uma observação mais atenta, e os cuidadores [também] precisam cuidar de si mesmos.

A poucos metros de Elyas, sentadas em um colchão fino sem lençóis, duas irmãs — Daniela, de seis anos, e Albany, de um ano — choram em uníssono. A mais velha não consegue tirar os olhos das mãos; uma brincadeira com um tubo de cola as deixou vermelhas e irritadas. O choro da bebê é mais difícil de decifrar.

Depois de aliviar a dor de Daniela com água e pomada, a mãe, Claudia, amamenta Albany na tentativa de acalmá-la; em segundos, a bebê se afasta e começa chorando novamente. Seu desconforto se deve à ausência de sua principal fonte de alimento: a mamadeira.

"Aqui, ela não tem leite, mingau de aveia nem fororo [uma bebida à base de milho]. Às vezes eu a amamento, às vezes dou a ela comida do refeitório, mas ela tem tido dificuldade para se acostumar. É por isso que ela está assim: chorando o tempo todo." Segundo Marianella Herrera, nutricionista da Fundação Bengoa, essa é uma resposta esperada à quebra da rotina da criança. Em situações de emergência, os abrigos e acampamentos temporários do país dependem da disponibilidade de suprimentos, o que significa que alimentos de cozinhas comunitárias, como arroz, feijão preto ou arepas, muitas vezes têm prioridade sobre as necessidades nutricionais específicas da primeira infância.

Antes do terremoto, a segurança alimentar entre as crianças na Venezuela já era precária, com a desnutrição infantil começando a se agravar em 2016 como consequência da crise humanitária. O último boletim da Cáritas Venezuela, de março de 2024, indica que em 67% das comunidades monitoradas no país, há desnutrição aguda, moderada e grave. A incidência de doenças entre crianças menores de cinco anos ultrapassa os níveis de alerta sanitário.

A tragédia dos terremotos gêmeos também deixou as agências de proteção do Estado "severamente fragilizadas e com recursos insuficientes [...] sem orçamento, transporte ou assistentes sociais", denuncia. Essa lacuna é agravada pelos cortes na ajuda internacional e pelas restrições impostas às ONGs pelo governo venezuelano.

Como resultado, a mamadeira, que antes chegava em horário fixo, agora depende da logística do abrigo em que a família estiver, interferindo na transição de cada criança para alimentos sólidos. "Se um menino ou menina ainda não se adaptou completamente às refeições em família, sua situação nutricional se torna crítica quando é impossível oferecer refeições adaptadas em meio à assistência em massa", afirma. Essa interrupção também afeta a segurança emocional da criança, acrescenta Guerra, porque quebra a rotina que proporcionava ordem e tranquilidade à sua psique.

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