
Eu conto os mortos
Conto os mortos de hoje
Busco uma contagem dos mortos ou busco os mortos de ontem. Tento contá-los, os mortos. Os relatórios me dizem que há, hoje, mais mortos. Anuncio os mortos — a casa está silenciosa. Tento contar. Busco números. Forneço números. Acordo tentando. Me cubro de números, tentando ficar imóvel.
Busco alguma quietude além dos mortos — tento apenas me virar. Conto os mortos, cada par de pulmões, vagueio pelos números, os narcisos, mesmo assim, desabrocham. Escondo os números, cubro o que sei. A casa quente se enche.
Novamente, tento não poupar nenhum número, os que morreram, não os que estão prestes a morrer, e quando acordo, eles estão lá, contados e não contados.
Quando a vida me tira mais, guardo os mortos dentro de mim, aqueles que não se feriram, mas partiram, embora muitos estejam feridos. Minha contagem —
Não tenho vontade de sair
Logo estou contando
No portão da casa, sinto o crepúsculo se dissipar. Abençoo os mortos, esqueço os mortos do ano passado, perco mais mortos, contabilizo o que posso.
Conto pela manhã
A luz se espalha pelo tapete grosso. Movo minhas mãos como se estivesse contando os mortos. Como se estivesse alterando os mortos em minhas mãos enquanto conto.
