Denúncias no HGE: após festa com políticos e convidados selecionados, servidores relatam suposta pressão para declarar apoio à direção
Áudios enviados à imprensa apontam que terceirizados e contratados teriam sido ameaçados de demissão caso não comparecessem à confraternização promovida pelo diretor Fernando Fortes Melro. As acusações ainda não foram comprovadas e aguardam apuração pelos órgãos competentes.
As denúncias envolvendo a confraternização promovida pelo diretor-geral do Hospital Geral do Estado (HGE), Fernando Fortes Melro, ganharam novos desdobramentos após a divulgação de áudios e relatos de servidores que afirmam ter sofrido pressão para participar do evento.
Dias antes da festa, o AR News 24h publicou reportagem informando que o chamado "Arraiá dos Amigos de Fernando Fortes", realizado no Salão Fama, no bairro do Trapiche da Barra, seria destinado apenas a convidados previamente selecionados. Segundo a publicação, circulava entre servidores uma mensagem solicitando o envio antecipado dos nomes dos participantes à direção do hospital, o que levantou questionamentos sobre os critérios de escolha e sobre a natureza — pública ou privada — da confraternização.
Dois dias após o evento, o mesmo veículo divulgou imagens e vídeos mostrando a presença de lideranças políticas, entre elas o senador Renan Calheiros (MDB), além de integrantes da gestão do HGE e de servidores apontados como convidados da direção. A reportagem descreveu que apenas parte dos trabalhadores participou da confraternização, reforçando a percepção de que houve seleção prévia dos convidados.
Foi nesse contexto que surgiram novas denúncias encaminhadas ao portal Francês News.
Em um áudio atribuído a uma servidora do HGE, a trabalhadora afirma que terceirizados e contratados teriam recebido uma orientação direta para comparecer ao evento.
> "Se não for para a festa declarar apoio, é rua."
Segundo a denunciante, a frase teria sido utilizada para intimidar profissionais com vínculos precários, condicionando a permanência no trabalho à participação na confraternização e à demonstração de apoio à gestão. A autenticidade do áudio e o conteúdo das acusações ainda não foram confirmados oficialmente.
Discurso do diretor
Outro ponto que passou a chamar a atenção dos servidores foi o discurso proferido por Fernando Fortes Melro durante a confraternização.
Conforme registros divulgados pela imprensa, o diretor afirmou que os participantes haviam sido "escolhidos a dedo", justificando que seria impossível reunir todos os cerca de três mil servidores da unidade em um único evento.
VÍDEO: Áudio vazado expõe suposta ordem no HGE: "se não for declarar apoio na festa, é rua"
Durante a fala, Melro também agradeceu o apoio político recebido de lideranças que, segundo ele, contribuíram para sua gestão à frente do HGE.
"E vocês que estão aqui hoje foram escolhidos a dedo. Eu queria fazer uma festa com 3 mil funcionários do HGE, mas não foi possível porque tem gente de plantão, enfim, é muita gente." Diretor do HGE, Fernando Melro
O encontro reuniu autoridades e lideranças políticas ligadas à base governista, entre elas o senador Renan Calheiros (MDB), o pré-candidato à Câmara dos Deputados Paulinho Mendonça (MDB), o deputado federal Luciano Amaral (PSD) e o deputado estadual José Wanderley Neto (MDB). Também participou da confraternização o defensor público Ricardo Melro, irmão do diretor do HGE, Fernando Fortes Melro Filho. Segundo registros divulgados anteriormente, a presença dessas lideranças reforçou os questionamentos sobre o caráter do evento e sua relação com a gestão da unidade hospitalar.
Possíveis implicações
Caso as denúncias sejam confirmadas, especialistas em Direito Administrativo apontam que a utilização do cargo para constranger servidores a participar de manifestações de apoio político poderá configurar violação aos princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade previstos no artigo 37 da Constituição Federal, além de eventual abuso de poder e desvio de finalidade.
Também poderá ser analisada pelos órgãos de controle eventual utilização da estrutura administrativa para mobilização de trabalhadores em evento de caráter político-partidário.
Além da suposta pressão para participação na confraternização, servidores relataram à imprensa um ambiente de insegurança entre terceirizados e contratados, que afirmam recear retaliações em razão da fragilidade de seus vínculos de trabalho.
Segundo os relatos, esse cenário teria levado muitos profissionais a comparecer ao evento por medo de sofrer consequências funcionais, alegação que também dependerá de investigação para ser confirmada.
Contraditório
Até o fechamento das reportagens utilizadas como base para esta matéria, Fernando Fortes Melro não havia apresentado manifestação pública sobre as acusações de coação. Também não havia sido divulgada nota oficial do Hospital Geral do Estado ou da Secretaria de Estado da Saúde esclarecendo as denúncias.
As alegações permanecem sob análise e poderão ser objeto de apuração pelos órgãos de controle competentes, caso sejam formalizadas por meio de representação ou denúncia.
O que ainda precisa ser esclarecido
A apuração dos órgãos competentes deverá responder, entre outros pontos:
- se houve pressão para que servidores comparecessem ao evento;
- quais foram os critérios utilizados para selecionar os convidados;
- se a participação foi voluntária ou condicionada à manutenção do vínculo de trabalho;
- se houve utilização da estrutura administrativa do hospital para organização da confraternização;
- e se ocorreram retaliações contra trabalhadores que não aderiram ao evento.
Até que essas questões sejam esclarecidas, as denúncias permanecem no campo das alegações, sem confirmação administrativa ou judicial.
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