Cientistas da Unifesp identificam proteína que atua como 'freio biológico' contra metástase
Inibição da sindecam-4 (SDC4) neutraliza estratégia de resistência de células tumorais e impede a dissemnação do câncer para outros órgãos, segundo estudo publicado em revista científica
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP — 08 de julho de 2026
Pesquisa conduzida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta a proteína sindecam-4 (SDC4) como um alvo terapêutico promissor no combate à progressão do câncer. Experimentos em laboratório demonstraram que o bloqueio da molécula — encontrada na superfície das células — paralisa a divisão celular desordenada e elimina a proteção que células tumorais usam para sobreviver solto no organismo, neutralizando o principal mecanismo que facilita as metástases. Os resultados foram publicados em março na revista Cytotechnology.
“Nosso estudo mostra que a SDC4 pode se tornar um alvo terapêutico promissor e servir como marcador diagnóstico para acompanhar a progressão de tumores. A estratégia de silenciar essa molécula tem potencial para impedir a proliferação de células cancerosas, mas ainda estamos em fases iniciais da pesquisa e seria necessário validar os resultados em cada caso específico da doença”, afirma Carla Cristina Lopes, professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp e autora correspondente do artigo.
Para formar os tecidos do corpo, as células precisam estar ancoradas umas às outras e à matriz extracelular, que funciona como uma espécie de preenchimento entre elas. Quando uma célula normal se desprende desse ambiente, ela ativa um mecanismo natural de autodestruição chamado anoikis — termo de origem grega que significa "morte por falta de casa".
No câncer, contudo, essa proteção natural é subvertida. Células tumorais mais agressivas adquirem a capacidade de resistir à anoikis, o que lhes permite sobreviver soltas, migrar pela corrente sanguínea e colonizar outros órgãos, fenômeno conhecido como metástase.
É nesse processo que a SDC4 ganha destaque. Em condições normais, a proteína é produzida para desempenhar funções essenciais, como a adesão aos tecidos. O problema surge quando ocorre uma superexpressão dessa molécula, situação diretamente associada ao desenvolvimento e à progressão do câncer. “A sindecam-4 protege as células tumorais desse tipo específico de morte celular que ocorre quando a célula se desprende do tecido”, destaca Lopes.
Mecanismo desvendado em laboratório
Para entender esse processo, os pesquisadores realizaram testes com células endoteliais — de revestimento dos vasos sanguíneos — provenientes de coelhos. A equipe forçou essas células a ficarem soltas no meio de cultura, impedindo que se fixassem em qualquer superfície. Como esperado, a grande maião não resistiu. Um pequeno grupo, porém — menos de 5% — conseguiu sobreviver à "falta de casa". Essas células sobreviventes se tornaram altamente agressivas e passaram a produzir a proteína SDC4 em quantidades exageradas.
Para comprovar se a molécula era a responsável por garantir a sobrevivência em suspensão, os cientistas recetiaram técnicas de engenharia genética para "silenciar", ou desligar, a SDC4 nessas células. O resultado confirmou a suspeita: sem a proteína, as células perdiam suas características malignas e voltavam ao estado normal, dependendo novamente da adesão física a uma superfície para continuarem vivas.
“Essa reversão aumentou significativamente a morte programada e reduziu a capacidade invasiva das células, indicando a SDC4 como um alvo terapêutico promissor para conter a metástase antes que ela se estabeleça”, comenta a pesquisadora. Os resultados ainda precisam ser replicados em células humanas — incluindo células tumorais — para que a pesquisa possa avançar na reala clínica.
As análises também revelaram como a SDC4 age no interior das células: ela interfere diretamente nas etapas iniciais do ciclo de multiplicação celular componente a produção da molécula p27, um inibidor natural da divisão celular, e ajudou a reequilibrar a produção de ciclinas e CDKs — proteínas que ditam o ritmo e autorizam o avanço da multiplicação das células.
A investigação foi realiz do apoio da FAPESP durante o mestrado de Bianca Zaia F. Ferreira. A equipe também contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Próximos passos
Atualmente, o grupo investiga se o canabidiol (CBD) — composto não psicoativo derivado da Cannabis sativa — pode atuar sobre as moléculas de SDC4. “A descoberta do papel da SDC4 na metástase abre caminho para uma série de novos estudos. Uma das nossas linhas de pesquisa busca verificar se o canabidiol consegue reverter o comportamento maligno de células resistentes ao anoikis, modulando a expressão da SDC4 ou interferindo nas vias de sinalização que sustentam o crescimento desordenado. Seria uma abordagem interessante, mas ainda estamos nas etapas iniciais de investigação”, adianta Lopes.
