Descoberta chinesa pode tornar água dessalinizada mais barata que água engarrafada
Nova tecnologia solar desenvolvida pela Academia Chinesa de Ciências aumenta em 8,5 vezes a eficiência da dessalinização e pode revolucionar o acesso à água potável em regiões áridas.
Por Redação
30 de junho de 2026
Uma descoberta científica na China pode representar um divisor de águas no combate à escassez global de água doce. Pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências desenvolveram uma nova estrutura tridimensional que melhora drasticamente a eficiência da dessalinização por evaporação solar, tornando o processo potencialmente mais barato do que a produção de água engarrafada.
A tecnologia, cujos resultados foram publicados na revista Advanced Materials, utiliza uma estrutura inovadora contendo cadeias de polímeros fortemente ligadas com estruturas de casca oca. Essa configuração proporciona uma taxa de evaporação 8,5 vezes maior do que as reportadas anteriormente para tecnologias similares.
Eficiência recorde e redução de custos
Segundo os cientistas, a estrutura singular maximiza a captação da luz solar e reduz significativamente o consumo de energia necessário para o processo de evaporação. Os números impressionam:
- Absorção solar de banda larga de 90,2%
- Redução de 45,7% no consumo de energia por evaporação
- Eficiência 8,5 vezes superior às tecnologias anteriores
"A excelente conversão fototérmica e a capacidade de transporte de água proporcionam um desempenho de evaporação excepcional", afirmou Wang Dan, um dos autores do estudo.
Do laboratório para o mundo real
Os pesquisadores não se limitaram aos testes em laboratório. Eles construíram um dispositivo de dessalinização ao ar livre para demonstrar a viabilidade prática da tecnologia. Sob luz solar natural, o sistema produziu 20 litros de água doce por dia, com qualidade que atende aos padrões de água potável da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O dispositivo, compacto, ocupa apenas cerca de 0,75 metros quadrados — tamanho suficiente para satisfazer as necessidades básicas diárias de consumo de água potável de aproximadamente 10 pessoas.
Aplicações agrícolas promissoras
Além do consumo humano, a tecnologia mostrou potencial para transformar a agricultura em regiões com escassez hídrica. A água dessalinizada produzida pelo sistema foi usada com sucesso para irrigar um pequeno campo experimental de cinco metros quadrados.
"A água produzida sustentou com sucesso os ciclos completos de crescimento de diversas culturas em uma parcela demonstrativa", escreveram os cientistas no estudo. Espinafre, milho e couve-chinesa completaram seus ciclos de crescimento utilizando a água produzida pelo sistema, demonstrando a viabilidade da tecnologia para irrigação agrícola.
Custo competitivo após dois anos
Um dos aspectos mais revolucionários da descoberta é o potencial de redução de custos. Os pesquisadores estimam que, após dois anos de operação, o custo da água produzida por essa tecnologia seria inferior ao da água engarrafada comercial.
Essa projeção é particularmente significativa considerando que a dessalinização tradicional depende fortemente de combustíveis fósseis, tornando-a inviável economicamente para muitas regiões inóspitas e em desenvolvimento.
Contexto global: a crise da água
A descoberta chega em um momento crítico. A capacidade diária de dessalinização de água do mar na China já ultrapassa 3 milhões de toneladas, mas a tecnologia ainda enfrenta desafios de eficiência e sustentabilidade energética.
A escassez global de água doce afeta bilhões de pessoas em todo o mundo, e o tratamento e reutilização da água tornaram-se essenciais. No entanto, as tecnologias atuais ainda dependem muito de combustíveis fósseis, limitando sua aplicação em regiões remotas ou com poucos recursos.
A evaporação térmica solar era vista como um método promissor para o tratamento de água nessas áreas, mas sua aplicação vinha sendo limitada pela ineficiência e pelas restrições de produção — problemas que a nova estrutura 3D parece ter resolvido.
Durabilidade e confiabilidade
Os testes também demonstraram que os materiais utilizados apresentaram boa durabilidade e confiabilidade durante o uso a longo prazo, um fator crucial para a adoção da tecnologia em escala comercial.
Os pesquisadores esperam que o novo material possa oferecer uma solução prática e sustentável para a produção de água doce em regiões que enfrentam escassez hídrica, contribuindo para a segurança hídrica e alimentar global.
