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Neandertais e humanos modernos começaram a enterrar mortos juntos por competição, diz estudo

Neandertais e humanos modernos começaram a enterrar seus mortos ao mesmo tempo por competição, diz estudo

Pesquisa indica que as práticas funerárias surgiram no Levante, na Ásia Ocidental, há cerca de 120 mil anos, como uma forma de ambas as espécies demarcarem território em meio à disputa por recursos.

Por Redação
30 de junho de 2026

Um estudo publicado na revista L'Anthropologie lançou uma nova luz sobre um dos mistérios mais fascinantes da evolução humana: o surgimento das práticas funerárias. Segundo a pesquisa, tanto os neandertais quanto os humanos modernos (Homo sapiens) começaram a enterrar seus mortos aproximadamente na mesma época e em locais muito semelhantes. Para explicar esse comportamento inédito, os pesquisadores sugerem uma motivação pragmática e territorial: a competição.

Práticas funerárias surgiram na Ásia Ocidental como forma de demarcar território, aponta pesquisa
Práticas funerárias surgiram na Ásia Ocidental como forma de demarcar território, aponta pesquisa



Ao analisarem dados de 17 antigos sítios funerários na Ásia Ocidental, os autores do estudo concluíram que o costume de sepultar os mortos provavelmente se originou na região do Levante há cerca de 120.000 anos, espalhando-se posteriormente para a Europa e a África.

Uma origem inesperada

O que mais intriga os antropólogos é que nenhuma das duas espécies parecia praticar o sepultamento em seus habitats ancestrais. Os humanos modernos, originários da África, têm o enterro mais antigo conhecido no continente — uma criança no Quênia — datado de apenas 78.000 anos atrás. Da mesma forma, os neandertais, nativos da Europa, não possuem sítios funerários na região tão antigos quanto os encontrados no Levante.
Os primeiros sepultamentos conhecidos de Homo sapiens foram descobertos nas cavernas de Qafzeh e Skhul, em Israel, enquanto o exemplo mais antigo de Neandertal vem da caverna de Tabun, no mesmo país. Outro local crucial é a caverna de Shanidar, no Iraque, famosa por abrigar um grupo de esqueletos de neandertais com cerca de 100.000 anos.
A concentração de sepultamentos do Paleolítico Médio é muito maior no Levante do que em qualquer outra parte do mundo, um detalhe que os pesquisadores consideram fundamental para entender o "porquê" e o "como" essas práticas emergiram.

A teoria da demarcação de território

Durante o último período interglacial, o Levante tornou-se uma encruzilhada vital. Humanos modernos vindos da África e neandertais descendo da Europa migraram para a região, passando a explorar os mesmos nichos geográficos, utilizar recursos semelhantes e, muito provavelmente, habitar as mesmas cavernas.
Diante desse cenário de superpopulação relativa e escassez, os autores do estudo levantam a hipótese de que a crescente frequência de sepultamentos está diretamente ligada à intensificação da competição. "Quando uma espécie começou a enterrar seus mortos, a outra pode ter seguido o exemplo como forma de reivindicar a posse da terra", explicam os pesquisadores. Em outras palavras, os rituais funerários teriam nascido não apenas como um ato de luto, mas como uma ferramenta de demarcação territorial.

Rituais semelhantes, mas com diferenças marcantes

A análise detalhada dos sítios revelou que ambas as espécies honravam seus falecidos de maneiras que denotam profundo respeito. Tanto neandertais quanto Homo sapiens enterravam indivíduos de todas as idades — de bebês a adultos — e frequentemente depositavam oferendas funerárias, como restos de animais, junto aos corpos.
No entanto, as diferenças nos rituais mostram que cada espécie mantinha sua própria identidade cultural:
  • Localização: Os neandertais sepultavam seus mortos principalmente no interior das cavernas, seja no centro ou próximas às paredes. Já os humanos modernos preferiam enterrar seus falecidos fora das cavernas, em terraços ou em abrigos rochosos próximos.
  • Posição do corpo: O Homo sapiens sempre depositava os cadáveres de costas, em uma postura flexionada. Os neandertais, por outro lado, utilizavam diversas posições diferentes.
  • Simbolismo: Os neandertais tinham o hábito de colocar rochas calcárias perto da cabeceira da sepultura, funcionando como um apoio para a cabeça. O Homo sapiens raramente usava pedras dessa forma, mas se envolvia em outras atividades simbólicas, evidenciadas pela presença de conchas e ocre em vários locais de sepultamento.
A descoberta reforça a ideia de que neandertais e humanos modernos eram mais semelhantes do que se imaginava, compartilhando não apenas o espaço físico, mas também desenvolvendo respostas culturais paralelas aos desafios de seu tempo.
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L'Anthropologie
Volume 128, Issue 3,
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