
O aplicativo "My Security", gerenciado pelo governo da província de Buenos Aires e criado para facilitar o registro de ocorrências, gerou mais de 225.000 casos criminais em 2025. No entanto, mais da metade não entrou nas estatísticas oficiais de criminalidade devido à falta de uma classificação legal definitiva por parte dos promotores.
Este sistema subestima significativamente a criminalidade, deixando mais de 100.000 roubos e furtos sem registro e classificados como "provisórios" nos arquivos do Ministério Público. A contratação privada da plataforma e seus custos associados são atribuíveis à Soflex S.A., que forneceu a plataforma e recebeu contratos que variam de US$ 148.000 a US$ 400.000 anualmente.

A eficácia da plataforma é limitada, visto que apenas 1,87% das denúncias foram ratificadas pessoalmente pelas vítimas em 2025, um requisito obrigatório para evitar o arquivamento do caso, resultando em apenas uma fração mínima dos crimes denunciados sendo efetivamente investigados.
O aplicativo "Minha Segurança" tornou-se uma ferramenta que, na prática, torna invisível grande parte da criminalidade, já que mais de 50% das denúncias recebidas não são reclassificadas pelo Ministério Público como crime previsto no Código Penal, permanecendo presas em uma categoria administrativa de "classificação provisória" que as exclui das estatísticas oficiais de criminalidade.
O sistema cria uma lacuna significativa na percepção real de segurança. Em 2025, as denúncias feitas pelo aplicativo "Minha Segurança" representaram 12,1% de todas as Investigações Criminais Preliminares (IPP) iniciadas na província de Buenos Aires. Mais da metade das denúncias feitas pelo aplicativo (122.867 casos em 2025) foram classificadas como "classificação provisória", sendo excluídas das estatísticas criminais oficiais como roubo, furto ou abuso sexual, embora uma grande proporção correspondesse a esses crimes.
Apesar de ser promovida como uma solução tecnológica para facilitar denúncias, a plataforma tem uma taxa de sucesso muito baixa no andamento de processos criminais e, como as vítimas precisam ratificar o procedimento pessoalmente em menos de cinco dias, menos de 2% dos casos progridem, tornando o aplicativo uma ferramenta com pouca eficácia para a efetiva persecução penal.
O aplicativo "Minha Segurança" funciona como um "aspirador de pó" para denúncias, mas seu impacto na persecução penal é mínimo, já que apenas 1,1% das denúncias recebidas em 2025 foram simultaneamente ratificadas e reclassificadas — condições necessárias para uma investigação eficaz. O sistema de denúncias online "Minha Segurança" gerou 225.398 Inquéritos Criminais Preliminares (IPP), o equivalente a 22% de todos os processos criminais instaurados na província de Buenos Aires.
A falta de classificação das denúncias transforma a plataforma em um "buraco negro" estatístico, onde crimes graves como tentativa de homicídio por violência de gênero, lesões corporais e tráfico de drogas são relegados a uma categoria administrativa que não entra nos índices de criminalidade do Ministério Público.

Para 2025, os dados comparáveis mais precisos e consistentes provêm do Sistema Nacional de Informações Criminais (SNIC), com um total de 118.868 roubos e 79.510 furtos, incluindo crimes consumados e tentativas. Juntos, representam 198.378 ocorrências registradas. A média de 2025 foi de aproximadamente 9.906 roubos por mês, 6.626 furtos por mês e 16.532 ocorrências combinadas por mês.
A Procuradoria-Geral da República de Buenos Aires oferece outra métrica que contabiliza os inquéritos preliminares (IPP) dos Tribunais Criminais e Correcionais e classifica cada caso pelo primeiro crime imputado. Em 2025, registrou 117.432 IPPs por roubo e 88.547 por furto, mas também publicou números separados para 36.306 roubos qualificados à mão armada, 15.074 outros roubos qualificados, 24.026 furtos qualificados de veículos e 2.633 outros furtos qualificados.
No mesmo ano, foram iniciadas 1.035.350 investigações preliminares em toda a província. Destas, 1.012.857 ocorreram nos Tribunais Criminais e Correcionais e 22.493 nos Tribunais de Responsabilidade Criminal Juvenil. Segundo os dados obtidos, 225.398 dessas investigações tiveram origem na plataforma, representando 21,8% do total: aproximadamente uma em cada cinco.
O relatório oficial confirma 122.713 casos provisórios nos tribunais de adultos e outros 154 nos tribunais de menores, totalizando 122.867. Ele também detalha, dentro dos tribunais de adultos, 97.194 casos que os usuários identificaram como "suposto roubo ou furto" e 5.891 como "suposto furto de celular"; juntos, eles totalizam exatamente 103.085.
O cálculo de 36%
Estatísticas do sistema judiciário para adultos registraram 284.018 investigações preliminares (IPP) já classificadas nas diversas categorias de roubo e furto durante o ano de 2025: furto simples e qualificado, roubo simples, roubo à mão armada e outros roubos qualificados. Se, a título de exercício hipotético, fossem adicionados os 103.085 boletins de ocorrência digitais que os denunciantes classificaram como roubos ou furtos, o volume aumentaria em 36,3% em comparação com os números divulgados.

Esses 36,3% devem ser interpretados como uma estimativa máxima do impacto da classificação, e não como uma correção legal definitiva. A classificação escolhida pelo denunciante pode ser confirmada, modificada ou descartada pelo Ministério Público. Por exemplo, o que é relatado como roubo pode acabar sendo classificado como furto, tentativa de furto, dano, fraude, perda de propriedade ou ato não criminoso.
É importante também distinguir entre dois denominadores. Os 103.085 registros representam 36,3% dos 284.018 já cadastrados, mas representariam 26,6% de um total hipotético de 387.103 se todos fossem validados como roubo ou furto. Essas duas proporções respondem a perguntas diferentes sobre o quanto os números divulgados aumentariam e qual parcela eles representariam no universo maior.
O primeiro problema é a falta de ratificação. A Procuradoria-Geral da República afirma expressamente que o denunciante tem cinco dias úteis para comparecer perante o Ministério Público, e a Resolução 416/17, alterada pela Resolução 99/19, estabelece que, caso não o faça, o Ministério Público poderá extinguir o processo sem maiores diligências. A legislação prevê exceções em que o Ministério Público deve agir de ofício, dependendo da natureza, plausibilidade, gravidade e severidade da questão; além disso, certas denúncias anônimas — como as relativas ao tráfico de drogas ou à corrupção policial — não exigem ratificação.
Ainda assim, a escala de não ratificação revela uma falha de concepção. De acordo com os dados obtidos, apenas 1,29% das denúncias digitais foram ratificadas em 2024 e 1,87% em 2025. Um canal apresentado como totalmente remoto acaba impondo uma etapa presencial que a grande maioria não realiza. A comunicação institucional também é inconsistente. O site da Procuradoria-Geral da República alerta claramente sobre o prazo de cinco dias, enquanto a página do aplicativo na Google Play apresenta a visita à Procuradoria como algo que o usuário pode fazer "se a situação o justificar".
O site do Ministério Público, por sua vez, enfatiza que o incidente pode ser relatado sem a necessidade de ir a uma delegacia.
O segundo problema é independente do primeiro, visto que, mesmo entre as 4.222 denúncias ratificadas em 2025, 1.728 ainda não haviam sido classificadas criminalmente em setembro de 2026. Isso demonstra que atribuir todo o acúmulo de processos à conduta dos cidadãos seria um equívoco; há também atrasos ou falta de processamento por parte do Ministério Público.

Impacto Territorial
O fenômeno não tem o mesmo impacto em todos os distritos judiciais. Os relatórios da investigação indicam que os casos digitais ainda em fase provisória representaram 23,5% de todas as investigações preliminares em Quilmes, 19,3% em San Martín, 19,95% em Mar del Plata, 16,5% em La Plata, 16,4% em Morón e 16,7% em Moreno-General Rodríguez.
Diversas fontes qualificadas ligadas à política criminal opinaram que a plataforma havia se transformado em um problema sério. Uma delas a descreveu como "uma fraude", e outra como "um monstro".
Enquanto isso, porta-vozes do Ministro da Segurança da Província de Buenos Aires, Javier Alonso, recusaram-se a responder perguntas sobre a evolução dessa plataforma de denúncias.
Entretanto, nos tribunais de adultos, o total de investigações preliminares diminuiu 6,4% entre 2024 e 2025, enquanto o subtotal de crimes contra o patrimônio caiu 12,3%. Categorias específicas mostram reduções de 14,4% em furtos simples, 21% em furtos qualificados de veículos estacionados em locais públicos, 16,1% em roubos simples e entre 11% e 12,4% em furtos qualificados.
Essas reduções não podem ser automaticamente interpretadas como uma queda correspondente na criminalidade em si. Ao mesmo tempo, havia 122.713 arquivos digitais de adultos aguardando classificação, e 103.085 foram inicialmente sinalizados pelos usuários como roubos ou furtos. Sem resolver esse acúmulo de casos, uma comparação anual das categorias criminais revela uma confusão entre as mudanças nas taxas de criminalidade e as mudanças nos registros, nos canais de denúncia utilizados e na velocidade de classificação.

A data limite também é importante. Os dados de 2025 foram extraídos em 11 de janeiro de 2026. Se uma promotoria reclassificar um caso após essa data, o "retrato" anual original fica desatualizado em relação ao andamento subsequente do processo. O Clarín destaca que quase 7.000 denúncias foram recategorizadas entre maio e setembro de 2026, confirmando que a categoria provisória é dinâmica.
Interface principal do aplicativo móvel "Minha Segurança", desenvolvido pelo Ministério da Segurança da Província de Buenos Aires.
As investigações preliminares medem a atividade registrada pelo sistema de justiça criminal, não o número total de crimes efetivamente cometidos. Elas dependem de fatores como a denúncia da vítima, o canal de comunicação escolhido, o processamento do processo e a classificação recebida.
A isso se soma a tradicional "cifra oculta" da criminalidade, com incidentes que nunca chegam às autoridades. A Pesquisa Nacional de Vitimização definiu essa cifra como a proporção de crimes não denunciados e estimou que, em 2016, 67,7% dos crimes registrados não foram denunciados. Embora esses dados nacionais estejam desatualizados e não possam refletir com precisão a situação na Província de Buenos Aires em 2025, eles ilustram por que os registros administrativos devem ser complementados com pesquisas periódicas de vitimização.
Como funciona?
O serviço "Minha Segurança" permite que você registre determinados incidentes pela web ou pelo aplicativo móvel. O formulário aceita informações pessoais e detalhes do incidente, além de fotos, vídeos ou gravações de áudio; após o envio, o sistema permite que você verifique o número do processo e a promotoria responsável.

