Resumo
A interocepção – o processo pelo qual o sistema nervoso sente, percebe e modela o estado interno do corpo – é considerada um mecanismo transdiagnóstico tanto em transtornos de saúde mental quanto física. Trata-se de um construto inerentemente multidimensional e complexo, que apresenta desafios tanto conceituais quanto de mensuração. Essa complexidade é ilustrada por um debate recorrente na área, que questiona se "mais" interocepção é inerentemente benéfica para a saúde. Argumentamos que essa tensão surge da ambiguidade entre dois construtos distintos de interocepção, que denominamos: modelagem interoceptiva e categorização interoceptiva. Definimos modelagem interoceptiva como o processo subjacente pelo qual o sistema nervoso prevê e rastreia informações sensoriais da periferia para gerar um modelo do estado atual ou futuro do corpo.
Em contraste, a categorização interoceptiva refere-se à categorização e interpretação das informações interoceptivas. Esses não são processos independentes, mas uma distinção conceitual que destaca diferenças subjacentes na variação da interocepção. Esclarecer essa distinção revela que os riscos à saúde têm maior probabilidade de decorrer de uma modelagem interoceptiva inadequada e/ou de uma categorização interoceptiva mal adaptativa, em vez de um excesso de interocepção em geral (ou seja, uma melhor modelagem é sempre benéfica para a saúde mental e física). Ilustramos essa estrutura usando o exemplo de adversidades na primeira infância, propondo que características dos ambientes da primeira infância podem moldar os processos de modelagem e categorização de maneiras que conferem vulnerabilidade a desafios posteriores de saúde mental e física.
Ao desvendar esses construtos inter-relacionados, essa estrutura promove clareza conceitual na área, com implicações importantes para a teoria, a mensuração e a intervenção.
