
O Nepal celebrou seu primeiro Dia dos Mártires da Geração Z em 8 de setembro de 2026, com um feriado nacional, marcando exatamente um ano desde que jovens manifestantes foram às ruas e causaram mudanças fundamentais em todo o sistema social e político do Nepal.
Em setembro de 2025, o Nepal foi tomado por protestos em todo o país, liderados principalmente por estudantes e membros da Geração Z. O movimento começou com a proibição do governo às plataformas de mídia social, mas rapidamente cresceu, sem uma liderança definida, transformando-se em uma expressão mais ampla de frustração pública com a corrupção e a ineficiência do governo. Durante vários dias, jovens nepaleses foram às ruas em todo o país, protestando não apenas contra as restrições à liberdade de expressão online, mas também contra a corrupção, o suposto desvio de verbas públicas e a ostentação de riqueza das elites políticas e suas famílias. Os protestos então degeneraram em confrontos com policiais, que se intensificaram e resultaram em uso ilegal da força, incluindo graves violações dos direitos humanos.

As frustrações de Liza
Entre as vítimas da violência estava Liza Adhikari, de 21 anos, que foi atingida por um tiro de fuzil SLR enquanto estava em frente ao prédio da Secretaria do Parlamento. A bala a atingiu pelas costas, atravessou seu corpo e saiu pela frente, deixando um ferimento que não pode ser simplesmente suturado.

Foto usada com permissão
Adhikari, estudante do último ano de Administração de Empresas na Universidade de Kathmandu, não retornou às aulas desde o incidente. Ela sofre não apenas com os danos físicos, mas também com o fardo emocional.
Ela fez um apelo por ajuda financeira através das redes sociais e visitou hospitais em todo o Nepal em busca de tratamento. Com opções limitadas, acabou viajando para a Índia, onde recentemente se submeteu a uma cirurgia do plexo braquial. O plexo braquial é uma rede de nervos que transmite sinais da medula espinhal para o ombro, braço e mão, permitindo movimento e sensibilidade.
Em uma entrevista online concedida à Global Voices, diretamente de um hospital na Índia, Adhikari relatou que o projétil danificou gravemente os ossos de seu braço e que os médicos informaram que as veias não estavam mais funcionando corretamente. Ela foi informada de que suas chances de recuperação completa permanecem incertas. Mesmo assim, ela não desistiu.
Liza Adhikari, nos dias atuais, na província de Mahakali (Sudurpaschim), no Nepal.
Essa determinação também foi o que a levou ao protesto naquele dia — algo que ela agora recorda com grande pesar e arrependimento. A bala foi removida, mas suas consequências continuam moldando sua saúde e trajetória educacional.
A história de Shantanu
A sobrevivência de Shantanu Dhakal em Itahari, no distrito de Sunsari, província de Koshi, no Nepal, é mais um exemplo das consequências duradouras da violência que deixou de se restringir à capital.
Em 8 de setembro de 2025, Shantanu estava na faculdade. Mal sabia ele que o dia do protesto se tornaria um ponto de virada inesperado em sua vida. Durante vários dias antes da manifestação, ele vinha recebendo informações sobre o protesto planejado pelas redes sociais.
O jovem de 18 anos, filho único de uma família de agricultores de classe média no distrito de Morang, no leste do Nepal, juntou-se ao protesto em Itahari naquele dia. Ele foi confiante, carregando uma faixa com slogans que havia preparado com seus amigos.
Durante a primeira hora, as ruas estavam tranquilas. Mas, de repente, depois de um tempo, multidões começaram marchando agressivamente, incendiando e atirando pedras contra propriedades públicas e a prefeitura da cidade metropolitana. Isso durou duas horas. Por volta das quatro da tarde, tiros e gás lacrimogêneo foram disparados contra civis. Quando o primeiro tiro foi disparado, ele foi para outro lugar; ninguém sabia para onde. Mas quando o segundo tiro foi disparado, eu não percebi que dessa vez era eu”, disse ele em uma entrevista online.
Em questão de segundos, o protesto ao qual Shantanu se juntara com confiança transformou-se em um momento de sobrevivência.
Ele recuperou a consciência cerca de um minuto depois, após ser levado a uma clínica próxima, onde seu ferimento foi enfaixado. Em seguida, foi colocado em uma maca e levado para o Hospital Universitário Birat. "Eu não tinha audição, nem visão, nada. Talvez nenhuma célula sensorial estivesse funcionando corretamente naquele momento."
Shantanu durante o tratamento em Biratnagar
Seu primeiro instinto foi correr. Esse instinto pode tê-lo salvado de ferimentos mais graves. A bala entrou pelo lado esquerdo da mandíbula, fraturou o osso ao redor dos dentes e danificou o tecido mole dentro da boca antes de seguir em direção ao peito.
O que se seguiu não foi apenas um tratamento de emergência, mas o início de uma longa recuperação. Inicialmente, ele foi submetido a uma traqueostomia e permaneceu com um tubo para ajudá-lo a respirar. Posteriormente, foi realizado um enxerto como parte do seu tratamento.

Para muitos, uma lesão pode acabar se tornando nada mais do que uma marca física. Para Shantanu, no entanto, a cicatriz ainda carrega a lembrança do que aconteceu naquele dia. Mesmo depois de dez meses, ela pode trazer de volta o trauma. Em alguns dias, desperta arrependimento e memórias dolorosas; em outros, ele aprende a se adaptar e a conviver com ela. Porque, no fim das contas, a vida continua.
Mas as consequências daquele dia não se restringem apenas à sua pele. A lesão afetou seus movimentos físicos, principalmente ao comer e dormir, e seus efeitos se tornam ainda mais perceptíveis quando ele trabalha na lavoura. Seu corpo passou por duas cirurgias, embora nenhuma delas tenha sido considerada de grande porte.

Foto usada com permissão)
A lesão também impôs um fardo financeiro à sua família. Os medicamentos prescritos pelos cirurgiões nem sempre estão prontamente disponíveis e são caros. Felizmente, grande parte do seu tratamento médico foi coberta pelo Governo do Nepal.
Nem todas as pessoas que foram às ruas ficaram com hematomas pelo corpo, embora muitas tenham ficado marcadas pelo medo e pelo trauma.
A história de Riya
Riya (nome fictício), uma policial, também tem uma história semelhante. Em uma entrevista pessoal com a autora, ela compartilhou que estava de serviço em Baneshwor, Katmandu, em 8 de setembro de 2025, com alguns colegas e amigos. “A rua estava tranquila durante a primeira meia hora, mas de repente a situação ficou violenta.
Alguns dos meus amigos foram levados pela polícia, enquanto eu fui atingida por pedras, sofrendo uma contusão grave no pé esquerdo. Fui levada para um hospital próximo e meu ferimento foi enfaixado”, disse ela.
Riya recebendo tratamento em uma clínica
Mas o medo persistiu mesmo depois de ela ter saído do hospital. "Foi o momento mais assustador. Mesmo depois de voltar para casa, essa sensação não passou facilmente", recordou.
Somente no dia 8 de setembro, 19 pessoas morreram durante os protestos, e centenas ficaram feridas. Mas suas mortes não encerraram as discussões pelas quais lutavam. Abhijeet Adhikari, advogado e ativista político, reflete sobre aquele dia. "Nenhum princípio de proporcionalidade foi respeitado", o que alimentou a exigência pública por responsabilização.
Justiça e responsabilização
Após os protestos que levaram à instalação de um governo interino, diversas investigações buscaram determinar a responsabilidade e os procedimentos de punição. Uma comissão judicial de inquérito liderada por Gauri Bahadur Karki recomendou a prisão dos líderes envolvidos, incluindo o então primeiro-ministro, o ex-primeiro-ministro (K.P.) Sharma Oli, o ministro do Interior Ramesh Lekhak e outros.
No entanto, em julho de 2026, um painel de revisão independente concluiu que as provas disponíveis não eram suficientes para responsabilizá-los criminalmente. Desde então, mesmo após um ano, o caminho para o processo tornou-se politicamente controverso e a responsabilização permanece incerta.
Apesar de todas essas incertezas, Liza, Shantanu e Riya compartilharam suas reflexões sobre o impacto dos protestos e como a violência subsequente continua a afetá-los, ao celebrarem o aniversário.
Para Liza, esses dias permanecem entrelaçados com arrependimento e as consequências de uma decisão que ela gostaria de poder desfazer. "Talvez, se eu tivesse ouvido meus pais naquele dia, isso não teria acontecido comigo", disse ela.
Para Riya, a escolha foi não ficar presa ao passado. "O que aconteceu, aconteceu "Está no passado", disse ela. Mesmo assim, ela permanece incerta sobre o rumo que o país está tomando.
Enquanto Shantanu lida com uma cicatriz no rosto, ele se recusa a deixar que ela defina seu futuro. Recém-formado no ensino médio, ele está se reerguendo e se preparando para cursar engenharia. Seu sorriso diz tudo quando você o olha.

Talvez essa seja a beleza de todo sobrevivente como ele.
