Ciganos ucranianos na linha de frente
As bandeiras ucranianas tornaram‑se cada vez mais visíveis nos assentamentos ciganos, acompanhadas por um maior uso da língua e das canções ucranianas. Em entrevista ao meio de comunicação Varosh, Horvat destacou que os ciganos historicamente viveram como minorias sob diversos estados e impérios, raramente ocupando posições sociais seguras. A perseguição sofrida durante a Segunda Guerra Mundial também gerou um distanciamento das instituições militares. Hoje, muitos equiparam a defesa da Ucrânia à proteção de suas famílias e de seu futuro. Horvat aponta ainda a desigualdade educacional: estima que cerca de 40 % dos ciganos em Zakarpattia não possuem ensino secundário básico, embora a situação tenha melhorado nos últimos anos.
Alguns nunca obtiveram passaportes ucranianos, o que pode impedir a mobilização formal. As autoridades regionais de recrutamento reconhecem que a baixa alfabetização não impede o serviço militar, mas cria dificuldades práticas. Em 2025, o Centro Anti‑Discriminação “Memorial” organizou, em Bruxelas, um encontro com veteranos ciganos que se juntaram voluntariamente às Forças Armadas da Ucrânia. Os participantes relataram episódios de discriminação, mas também destacaram a solidariedade encontrada dentro das fileiras. Roma Arsen Mednyk ingressou no exército após a ocupação russa de sua cidade natal, Bucha, e o massacre de civis.
Inicialmente tratado com suspeita por ser cigano, conquistou a confiança dos companheiros e, posteriormente, se tornou comandante de uma unidade de assalto. Sua trajetória foi apresentada em um documentário sobre soldados ciganos e a guerra. Antes de fevereiro de 2022, a população cigana da Ucrânia já enfrentava barreiras graves à cidadania, à habitação, à educação, à saúde e ao emprego. De cerca de 400 mil ciganos que vivem no país, aproximadamente 30 mil não possuíam documentos de identidade oficiais, deixando‑os funcionalmente apátridas. Mulheres ciganas, por vezes, davam à luz em casa devido à discriminação ou a custos médicos exorbitantes, resultando em crianças sem certidão de nascimento e forçando as famílias a viver à margem da sociedade.
As comunidades ciganas também eram alvos de grupos nacionalistas, sofrendo frequente discriminação e preconceito.
Identidade tártara sem território único
A leste, na Rússia, os tártaros – o segundo maior grupo étnico do país – enfrentam outra questão: o que significa a pátria para um povo disperso pelos continentes, sem um território único que os una? O Tartaristão, república da Federação Russa, permanece como âncora cultural, mas para muitos tártaros a pertença se realiza por meio da comunidade e da cultura, não por uma localização no mapa. Essa dispersão, aliada a uma história marcada por traumas e tensões, molda o debate atual sobre soberania, separatismo e autodeterminação entre os tártaros.
Enquanto alguns defendem a preservação da identidade cultural por meio da língua, da música e das tradições, outros questionam a viabilidade de um Estado independente, considerando a ausência de um território contíguo. As discussões ocorrem tanto nas comunidades da diáspora, espalhadas pela Europa e Ásia, quanto nas áreas urbanas da Rússia, onde os tártaros mantêm associações culturais e escolas que ensinam a língua tártara.
Essas iniciativas buscam reforçar laços de identidade, mesmo diante de políticas que, em certos momentos, limitaram o uso público da língua e restringiram manifestações culturais. Assim, tanto ciganos ucranianos quanto tártaros russos demonstram que a noção de nacionalidade pode transcender fronteiras cartográficas, sendo construída a partir de laços comunitários, experiências compartilhadas e a luta por reconhecimento pleno de direitos.
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