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O melhor argumento da França contra o racismo não está funcionando

📅 09 de agosto de 2026⏱ 3 min de leitura🌐 Traduzido e adaptado
O melhor argumento da França contra o racismo não está funcionando

O símbolo multicultural que não convence a extrema‑direita

No último mês, o atacante francês Kylian Mbappé marcou o 22º gol de sua carreira em Copas do Mundo, ao abrir o placar na disputa pela medalha de bronze. Aos 27 anos, ele se tornou o maior artilheiro da história do torneio, embora a seleção francesa, os Les Bleus, não tenha conquistado o título. No dia seguinte, as câmeras encontraram o outro rosto que domina a atenção pública: Victor Wembanyama, jogador de basquete de 22 anos e 2,10 m de altura, apontado como futuro da NBA.

Essa presença de atletas negros e árabes nas principais equipes esportivas contrasta com a retórica do partido de extrema‑direita Réunion Nacional (RN), que defende a redução da imigração e promove uma definição restrita de francesidade, excluindo figuras como Mbappé e Wembanyama. Junto a outros talentos, como Ousmane Dembélé e Michael Olise, eles encarnam o argumento mais persuasivo contra o ressentimento étnico: uma França multicultural, elegante e onipresente. Contudo, esse argumento está perdendo força. Após décadas à margem da agenda política dominante, o RN avança nas pesquisas e parece bem posicionado para disputar a presidência no próximo ano.

A experiência francesa demonstra que a representação cultural, por si só, não altera a dinâmica política; é preciso algo mais profundo.

O futuro político da França diante da diversidade

A vitória da França na Copa de 1998, com uma equipe diversificada, suscitou o slogan “Black, blanc, beur”, que brincava com o tricolor e simbolizava uma identidade racial ampliada. Na época, Jean‑Marie Le Pen, fundador do RN, acusava a seleção de “trazer jogadores do exterior” e de não saber cantar “La Marseillaise”. Apesar de conquistar votos de protesto, o partido ficou à margem do poder. Nas duas décadas seguintes, a imigração, sobretudo da África, intensificou a diversidade do país, ao passo que atentados terroristas e motins reacenderam o debate sobre a identidade nacional e o lugar do Islã. O RN, por sua vez, ganhou legitimidade nas urnas.

Após a derrota dos Les Bleus em 2010, Marine Le Pen – segunda colocada nas eleições presidenciais de 2017 – acusou alguns jogadores de ter “outra nacionalidade no coração” e, mais tarde, os rotulou como “um bando de meninos mal‑educados”. A conquista de 2018, celebrada em cafés parisienses, trouxe novamente a seleção ao centro da cena nacional. Mbappé, então com 19 anos, marcou um gol precoce na final, colocando os Bleus na vantagem de 3 a 0. O clima de fraternidade que se espalhou nas ruas contrastou com a retórica da extrema‑direita, que ainda questionava a “francêsidade” da equipe.

Comentários como o do comediante Trevor Noah, ao brincar que “a África ganhou a Copa do Mundo”, provocaram reação da direita, que via na piada uma afronta. Gérard Araud, embaixador francês nos EUA, afirmou que a piada “legitima” o racismo, ao passo que jogadores como Paul Pogba e Benjamin Mendy reforçaram a mensagem de que a França de hoje é “cheia de cores diferentes” e que todos se sentem franceses ao vestir a camisa. Hoje, a região de Paris lidera a produção de talentos futebolísticos, fornecendo a maioria dos atletas nas Copas recentes. Dos 1 248 jogadores que participaram do último torneio, 99 nasceram na França.

Mesmo Jordan Bardella, líder do RN, elogiou a equipe enquanto avançava na competição, mas manteve a postura cautelosa ao ser eliminado. A constatação é clara: a diversidade cultural não tem sido suficiente para conter o avanço da extrema‑direita. Enquanto a França celebra seus ídolos multirraciais, o debate sobre identidade nacional e políticas de imigração continua definindo o futuro político do país.

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