Amanda denuncia ameaças da direção e falta de prontuário: a trajetória de dor de Ana Paula até o óbito
Nascida em 1983, vítima de tentativa de feminicídio com fogo e faca teria enfrentado demora em leito, carência de antibióticos e queda de energia na maior emergência de Alagoas, segundo desabafo familiar
A filha de Ana Paula Oliveira da Silva gravou um relato público em que detalha o sofrimento imposto à mãe, vítima de uma tentativa de feminicídio com extrema crueldade, e denuncia falhas graves no atendimento prestado pelo Hospital Geral do Estado (HGE), em Maceió. Segundo Amanda, após sobreviver a um ataque com queimaduras, facadas e mutilação, a mulher nascida em 1983 teria sido submetida a dias de suposto abandono na área vermelha da unidade, sem receber antibióticos e sem conseguir uma vaga na UTI.
O crime ocorreu no dia 26 de junho. Conforme narrado pela filha, Ana Paula foi arrastada por um matagal pelo ex-companheiro, que teria despejado gasolina, ateado fogo na vítima, desferido facadas, arrancado a língua e se automutilado. O agressor, ainda segundo o depoimento, deixou Ana Paula agonizando por cerca de 25 minutos e buscou socorro apenas para si. Esse intervalo teria permitido que a mãe rastejasse até a beira de uma rodovia, onde foi avistada por trabalhadores.
O quadro clínico era devastador. Com aproximadamente 90% do corpo queimado, Ana Paula precisou ser intubada às margens da pista e transportada ao HGE com o apoio de duas ambulâncias. Ao chegar à unidade, no entanto, não havia leito disponível na UTI. A paciente teria ficar confinada na área vermelha recebendo exclusivamente sedativos para permanecer inconsciente, sem outras medicações analgésicas ou antibióticas, o que teria permitido a progressão de uma infecção generalizada.
Amanda relata que a situação só se alterou após três ou quatro dias, quando decidiu promover uma paralisação em via pública para reivindicar uma vaga. Durante o ato, diz ter sido hostilizada por motoristas e motociclistas, ameaçada por caminhoneiros e acompanhada por guarnições policiais. A repercussão em transmissões ao vivo e na imprensa, conforme a filha, impulsionou a liberação de um leito de terapia intensiva.
Após a transferência para a UTI, a família teria descoberto que os registros apontavam uso apenas de medicação para sedação nos dias anteriores, sem nenhum antibiótico. Uma médica teria apresentado a Amanda um termo para assinatura, alegando que Ana Paula estava estável para submeter-se a um procedimento. Contudo, outro profissional hospitalar teria confirmado, posteriormente, que a intervenção jamais foi realizada.
O transtorno não teria parado por aí. A família denuncia que uma queda de energia deixou o setor sem eletricidade por 12 horas exatamente no local onde Ana Paula estava intubada e respirando com aparelhos. Além disso, Amanda afirma ter sofrido tentativas de intimidação por parte de uma médica, que teria tocado em assuntos políticos durante diálogo no hospital, e também pelo diretor da unidade.
Ela relata que um protocolo médico deixado para ela simplesmente desapareceu do setor e que a entrega do prontuário foi recusada repetidamente, tendo sido liberados apenas os registros do dia da entrada na UTI e do óbito, excluindo-se os documentos dos dias de internação na área vermelha.
Em seu desabafo, Amanda descreve o desespero da vigília desde a morte da mãe. Fala em noites sem sono, alucinações, perda de apetite e crises de ansiedade, pedindo que a população não permita o esquecimento do caso. Ela lembra que Ana Paula deixou filhos, neto e uma rede de familiares e amigos, e convoca apoio através da frase "Justiça por Ana Paula".
O caso aguarda apuração das autoridades sobre as circunstâncias do crime e as condições do atendimento hospitalar.
VÍDEO:
Paralisação, ameaças, falta de energia e de prontuário: filha relata trajetória de dor de Ana Paula até o óbito
Transcrição do vídeo postado por Amanda:
"Bom dia, minha gente. Boa tarde ou boa noite, não sei qual é o horário que vocês vão estar vendo esse vídeo. Me chamo Amanda, filha de Ana Paula Oliveira da Silva, que nasceu em 1983 e teve sua vida ceifada em 2086. Ninguém imaginaria, principalmente minha mãe, que naquele dia 26 de junho ela teria sua vida brutalmente machucada e torturada. Muito menos filhos e familiares e amigos imaginariam que aquele dia seria um dia que ia mudar o resto das nossas vidas.
Minha mãe teve 90% do seu corpo queimado pelo ex-companheiro, onde ele atirou fogo com gasolina, automutilou, esfaqueou e arrancou sua língua, onde deixou minha mãe carbonizando 25 minutos naquele local e ainda além disso, ele viu o sofrimento dela e não teve a capacidade de se arrepender e de socorrê-la. Ele, meio ao ato que ele cometeu com a minha mãe, Ele se machucou e foi pedir socorro. E o tempo que ele foi pedir socorro foi o tempo que a minha mãe conseguiu lutar para sobreviver. Onde minha mãe lutou para sair do local onde ela estava, no meio aos matos, que ele arrastou ela para os matos e cometeu o ato lá. Minha mãe lutou para sair daquele local, certo? Para que a gente pudesse encontrar e para que a justiça fosse feita e ele pagasse pelo ato que ele fez. O criminoso, o assassino assumiu o que ele cometeu com a minha mãe, certo? Minha mãe, quando conseguiu sair daquele local, ela foi avistada por outros trabalhadores que estavam em frente. Só que só viram quando a minha mãe saiu daquele local. Ninguém viu quando ela estava sendo arrastada. Ou acredito que viram, né? Alguém viu e não quis se meter. Eu não sei, não sei. Minha mãe foi brutalmente machucada, né? Minha mãe foi entubada ali mesmo na beira da pista, certo? Onde ela precisou de duas ambulâncias para dar o suporte e o apoio para que ela pudesse ser entubada naquele local e encaminhada para o HGE. Minha mãe, ao chegar no HGE, não teve uma UTI para ela, certo? Onde a minha mãe, o estado que ela estava era o mais grave do HGE. Era um dos mais graves e acredito que era o primeiro mais grave que tinha ali, certo? Onde minha mãe apenas estava sendo sedada. Minha mãe estava na área vermelha onde estava sofrendo negligência, onde minha mãe não estava tomando nenhum medicamento, além da sedação, para que ela não pudesse acordar e não acabar se machucando. Acho que o choque que ela ia sentir quando visse o estado do seu corpo. Mas e a dor que ela estava sentindo por dentro, que não estava sendo valorizada? Minha mãe sofreu tanto com o assassino quanto naquele HGE. Ontem minha mãe só conseguiu uma vaga, após três ou quatro dias que eu decidi fazer uma paralisação. Em meio à paralisação, onde confrontei policiais, confrontei motoristas, E motoqueiros aonde me esculhambavam, aonde me xingavam, aonde caminhoneiros ameaçavam passar o caminhão por cima de mim, certo? E eu não estava ali pra fazer baderna, e sim pra onde uma vaga deu pra minha mãe. Aonde muitas pessoas, principalmente homens, aonde me xingavam e me esculhambavam, certo?
Em meio à paralisação, a gente teve apoio da guarnição, que estava lá, que prestou apoio, certo? E eu venho aqui também agradecer Quando a gente estava no meio da paralisação, a gente recebeu uma ligação de que sim, minha mãe tinha conseguido uma vaga na UTI porque o vídeo já estava circulando e eu já tinha aberto uma live ao vivo, certo? Após a minha mãe conseguir essa vaga na UTI, foi que a gente descobriu que a minha mãe não estava tomando nenhum antibiótico. Nada, nada, nada, além da sedação, para que ela ficasse sedada e não acordasse. Minha mãe iniciou, minha gente, para vocês terem ideia, dias depois. Medicação, minha mãe já estava, a infecção estava se agravando, certo? Pediram para eu assinar um procedimento para ela, que ela fizesse, porque ela estava estável. Ela estava estável para fazer esse procedimento e o procedimento não foi feito. Após esse procedimento que eles disseram ser feito, eu descobri que não tinha sido feito porque o outro médico chegou para mim e falou: "A médica que disse para você que a sua mãe fez o procedimento, ela também disse para mim, mas eu estou aqui para corrigir e que a sua mãe não foi feita". Minha gente, minha mãe estava sofrendo, minha mãe sofreu negligência, minha mãe foi torturada por um assassino, E ainda teve que lutar para sobreviver, para que a filha tivesse a dignidade de encontrar, de enterrar e de lutar pela vida dela. E ela ainda tem que sofrer naquele HGE, onde a saúde está um caos, onde meio paralisação, tudo isso, a gente teve visibilidade. Com os reportes que estavam dando essa visibilidade, dando voz ao caso da minha mãe, onde a médica também veio me intimidar, falando que veio tocar em assuntos políticos, onde eu falei para ela, ela estava lá para discutir assuntos políticos ou sobre assuntos da minha mãe, porque o que importava ali era a saúde da minha mãe e não partido, eu não estava lá para decidir partido, eu estava lá para lutar por uma vida que era da minha mãe, A médica se estressou para o meu lado porque ela achou que eu ia ficar intimidada com as coisas dela. Eu também fui perseguida onde eu estava, pelo diretor, onde o médico deixou o relatório da minha mãe prontinho, num local onde ele deixou lá, que eu não lembro o setor. E quando chegou lá, aquele protocolo já não estava lá, que era aquele relatório, no caso da minha mãe, não estava lá. E, inclusive, quando a gente está chegando lá, quem está esperando a gente? O diretor. Eu acredito que ele achou que iria me intimidar lá, mas não me intimidou, certo? Outras pessoas ainda veio novamente após autorização do médico, porque o médico autorizou, entendeu? Para entregar a mim e, mesmo assim, eles ainda ficaram com um pé atrás de me entregar a mim. E, mesmo assim, ainda estão negando, negaram. Negaram um prontuário médico da minha mãe, que foi os dias que ela ficou na área vermelha, porque até então só entregaram o prontuário do dia que ela entrou no HGE, que foi no dia que ela entrou na UTI, me desculpa, no dia que ela entrou na UTI, e o dia que ela veio em óbito. E os dias que ela sofreu negligência, que é onde teve queda de energia, minha mãe passou também 12 horas sem... O local onde a minha mãe estava, na realidade, né? Teve queda de energia, certo? Onde passou o HGE 12 horas, certo? Minha mãe estava entubada e respirando por aparelhos, certo? E eu estou aqui para que a justiça seja feita. Venho pedir a vocês que não deixem que a voz da minha mãe se cale. Não deixem que a voz da minha mãe se apague na realidade, né? Eu peço força a vocês, que é essa força que vocês estão me dando, que eu estou conseguindo dar adiantamento nas coisas da minha mãe. Certo? Venho aqui pedir para que vocês me ajudem. Continue orando, minha gente, porque eu não estou dormindo. O dia, eu espero qualquer momento uma ligação da minha mãe. Um perguntando, filha, onde você está? A noite vai chegando, o coração vai apertando. A madrugada está sendo dolorosa, onde tira o sono, onde tira a fome, onde ataca a ansiedade, dá vontade de morrer. Entendi? Onde eu venho tendo alucinações. Eu venho pedir aqui a ajuda de vocês, para que comentem aqui embaixo Justiça por Ana Paula e que não deixem o caso da minha mãe se apagar. Minha mãe não só era uma vítima, a minha mãe tinha família, a minha mãe, a minha mãe tinha história. Entendeu? Minha mãe tinha filhas, filho, neto, familiares e amigos que gostavam dela. Aonde ela passava, ela deixava a alegria dela. Então eu peço aqui a vocês, por favor, não deixem que a luz da minha mãe se apague."
