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Maceió AL - -

Com Pix e minerais críticos blindados, Brasil tentou negociar saída para o tarifaço


Quase um ano de negociações e uma proposta recheada de concessões comerciais não foram suficientes para impedir o tarifaço. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entregou a Washington um plano que previa a redução de tarifas de importação para cerca de 300 linhas de produtos e a abertura de discussão sobre o mercado de etanol, mas manteve fora da mesa três temas tratados como intocáveis: o Pix, os minerais críticos e a política interna do país, o que inclui a relação comercial com a China.

Tarifa de 25% começa em 22 de julho após quase um ano de negociações frustradas
Tarifa de 25% começa em 22 de julho após quase um ano de negociações frustradas

O documento foi preparado pelo MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e entregue em 2 de julho ao representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Ao separar as demandas americanas entre negociáveis e inegociáveis, o Planalto concentrou a oferta na abertura comercial: os cerca de 300 itens que teriam tarifas reduzidas pertencem a setores com pouca produção nacional, como máquinas, equipamentos e tecnologia da informação, o que, segundo o governo, beneficiaria os exportadores norte-americanos sem afetar a indústria brasileira. O texto também contestava os fundamentos da investigação comercial aberta contra o Brasil, argumentando que as políticas públicas do país não geram distorções no comércio e não discriminam empresas dos Estados Unidos.

No etanol, a sinalização de abertura tinha uma condição clara. Qualquer avanço na pauta do biocombustível dependeria da redução, pelos Estados Unidos, das tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro, que passam de 100% quando as vendas ao mercado americano superam a cota anual de 150 mil toneladas. Em 7 de julho, o ministro Márcio Elias Rosa reafirmou a posição e revelou a determinação de Lula de que o tema fosse tratado "junto com a questão do açúcar".

A lista de pedidos do lado americano ia além do que o Brasil aceitava debater: incluía acesso ampliado para bens industriais, produtos químicos e os setores automotivo e aeronáutico, além de pontos sobre regulação de plataformas digitais e minerais críticos, estes últimos classificados como fora de negociação.

Duas linhas vermelhas foram explicitadas pelo Planalto. A primeira é o Pix: incluído pelos Estados Unidos na investigação comercial sob a alegação de que as políticas de pagamentos digitais poderiam prejudicar companhias americanas, o sistema do Banco Central foi defendido pelo governo como política pública sem caráter discriminatório e ficou fora de qualquer conversa. A segunda envolve os minerais críticos: Washington sugeriu que o Brasil restringisse investimentos de "atores não orientados pelo mercado" e de "entidades estrangeiras de preocupação" no setor. Sem citar a China nominalmente, a proposta foi lida no Planalto como tentativa de conter a presença chinesa em projetos brasileiros e recusada em nome da autonomia do país para escolher parceiros em recursos estratégicos.

Nada disso sensibilizou o governo Trump, que confirmou a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros a partir de 22 de julho. Para Elias Rosa e o chanceler Mauro Vieira, os americanos esperavam uma "capitulação" e cobravam a "abertura total de alguns setores, ou de todos os setores", sem oferecer nada em troca. Nas mais de 30 reuniões mantidas ao longo do processo, avalia o ministro do MDIC, "tudo o que foi proposto ou não teve resposta ou tinha a reação de que era pouco".

O governo informou que seguirá negociando com Washington, por entender que a relação bilateral é maior do que o conflito tarifário. Ainda assim, o horizonte é de incerteza: há possibilidade de novas sobretaxas unilaterais, como a taxa extra de 12,5% que já preocupa o Planalto, e a avaliação interna é a de que a motivação política do tarifaço fará com que a eleição presidencial de 2026 influencie os próximos capítulos da disputa.

Fatos conferidos na reportagem integral do Poder360.
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