Prontuário, desbridamento, falta de UTI e paralisação: pontas soltas do caso Ana Paula no HGE
Pontos que ainda precisam ser esclarecidos sobre o caso Ana Paula
Após o falecimento de Ana Paula, as declarações da família, os esclarecimentos prestados pela direção do Hospital Geral do Estado (HGE), a informação da Equatorial Alagoas de que a interrupção de energia teria origem na subestação interna da unidade e as irregularidades apontadas pela Vigilância Sanitária durante fiscalização, permanecem diversas questões de interesse público que ainda carecem de esclarecimentos. Além disso, o Conselho Regional de Medicina do Estado de Alagoas (CREMAL) realizou inspeções no hospital e informou que emitirá relatório técnico ao término das fiscalizações.
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| Especialistas apontam que seis dias fora da UTI para queimadura grave é incompatível com protocolos médicos |
Família cobra acesso a prontuário após morte e supostas falhas no HGE
Causa da morte e eventual nexo de causalidade
Um dos principais pontos diz respeito à causa da morte registrada na Declaração de Óbito. É necessário esclarecer quais foram a causa básica e as causas associadas do falecimento e se houve algum fator relacionado ao atendimento hospitalar que possa ter contribuído para a evolução clínica da paciente.
A definição desse nexo é essencial para distinguir eventual responsabilidade decorrente das lesões provocadas pelo autor do crime investigado e da análise sobre a assistência prestada durante a internação.
Permanência antes da internação em UTI
Segundo a direção do HGE, Ana Paula permaneceu inicialmente na chamada "Vermelha Trauma", onde teria sido submetida ao processo de estabilização clínica antes da transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI).
Entretanto, permanece a dúvida sobre onde exatamente a paciente permaneceu durante o período anterior à transferência, qual foi o tempo efetivo de permanência nesse setor e se havia indisponibilidade de leitos intensivos durante esse intervalo. Também é importante esclarecer se todas essas informações estão devidamente registradas no prontuário médico.
Diretores do HGE rebatem acusações de falhas estruturais e de atendimento
Interrupção do fornecimento de energia
Outro ponto relevante envolve a interrupção do fornecimento de energia elétrica registrada durante a internação.
A Equatorial Alagoas informou que o problema teria ocorrido na subestação particular do hospital, cuja manutenção seria de responsabilidade da própria unidade. Diante dessa manifestação, ainda precisam ser esclarecidas as causas da falha, o funcionamento dos grupos geradores, eventual necessidade de manutenção preventiva, a autonomia dos equipamentos e quais setores foram efetivamente afetados durante a ocorrência.
Fiscalizações da Vigilância Sanitária e do CREMAL
A Vigilância Sanitária de Maceió notificou o HGE após identificar diversas não conformidades estruturais e operacionais, incluindo problemas relacionados à estrutura física, instalações elétricas, equipamentos, armazenamento de medicamentos, resíduos hospitalares e ausência de documentação técnica referente aos geradores de energia. Foi concedido prazo para adequação das pendências.
VÍDEO:
Fiscalização do CREMAL no HGE
Paralelamente, o CREMAL iniciou uma série de inspeções técnicas na unidade para avaliar as condições estruturais, organizacionais, técnicas e éticas do hospital. O Conselho informou que, ao final das fiscalizações, será elaborado relatório técnico contendo as inconformidades eventualmente identificadas e as medidas necessárias para regularização.
Possibilidade de transferência para outra unidade
Caso realmente não houvesse disponibilidade imediata de leito de terapia intensiva, permanece a dúvida sobre quais providências foram adotadas pela Central Estadual de Regulação e pela Secretaria de Estado da Saúde para avaliar eventual transferência da paciente para outra unidade especializada em queimados ou para outro hospital com leito disponível.
Integridade do prontuário
A família afirma existir divergência entre as datas registradas no sistema hospitalar e a cronologia da internação.
Caso essas alegações sejam objeto de investigação, será importante verificar a integridade do prontuário físico e eletrônico, inclusive os registros médicos, de enfermagem, prescrições, administração de medicamentos e eventuais alterações realizadas durante a internação.
Atuação das autoridades
Também permanece sem esclarecimento público se o Ministério Público instaurou procedimento para acompanhar o caso sob a ótica da assistência hospitalar.
Da mesma forma, não há informação oficial sobre eventual apuração administrativa específica destinada a verificar possíveis falhas assistenciais.
Medidas judiciais adotadas pela família
Outro aspecto ainda não esclarecido é se a família ingressou com medidas judiciais visando obter perícia médica independente, acesso integral ao prontuário, produção antecipada de provas ou eventual responsabilização civil do Estado.
Posicionamento da Secretaria de Estado da Saúde
Considerando que o HGE integra a rede estadual de saúde, permanece a expectativa de manifestação oficial da Secretaria de Estado da Saúde sobre as providências adotadas após as fiscalizações, os investimentos previstos para correção das irregularidades apontadas e eventuais medidas relacionadas à infraestrutura elétrica e ao atendimento de pacientes críticos.
Permanecer cerca de seis dias fora da UTI é compatível com os protocolos?
Sob o ponto de vista técnico, a resposta depende das condições clínicas efetivamente apresentadas pela paciente e da documentação médica existente.
Segundo protocolos nacionais e internacionais para atendimento de grandes queimados, pacientes com queimaduras extensas — especialmente superiores a 20% da superfície corporal em adultos, e com maior gravidade quando atingem percentuais muito elevados — normalmente necessitam de monitorização intensiva, reposição volêmica rigorosa, controle de vias aéreas quando indicado, prevenção de infecções, suporte nutricional especializado e acompanhamento contínuo em ambiente de terapia intensiva ou em centros especializados em queimados.
Caso a paciente realmente tenha permanecido vários dias em setor de emergência aguardando vaga em UTI, será necessário verificar, por meio do prontuário e de eventual perícia médica, se essa permanência observou os protocolos assistenciais aplicáveis ao caso concreto ou se decorreu de limitações estruturais da rede de saúde. Essa análise depende da documentação clínica completa e não pode ser concluída apenas com base em relatos públicos.
Assim, a apuração técnica dos fatos dependerá da análise do prontuário médico, dos registros de enfermagem, dos exames realizados, das prescrições, dos horários de evolução clínica e das conclusões de eventual perícia independente, elementos que poderão esclarecer se a assistência prestada esteve em conformidade com os protocolos médicos vigentes.
