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O Monge que voou 180 metros no século XI

Historiador sugere que um monge medieval pode ter visto o cometa Halley duas vezes.

Por AR NEWS 24H — 14 de junho de 2026

O Salto da Torre

No início do século XI, enquanto a Europa ainda mergulhava na Idade Média, um jovem monge beneditino fez algo que desafiava a própria gravidade — e a Igreja. Eilmer de Malmesbury, como viria a ser conhecido, subiu aos 45 metros da torre de sua abadia na pequena cidade inglesa de Malmesbury, vestindo um par de asas rudimentares que ele próprio havia confeccionado com madeira de salgueiro e tecido.

O que se seguiu foi um dos momentos mais extraordinários da história da aviação — séculos antes de Leonardo da Vinci desenhar suas máquinas voadoras.

Vitral na Abadia de Malmesbury representando o "monge voador" medieval, Eilmer
Vitral na Abadia de Malmesbury representando o "monge voador" medieval, Eilmer



Eilmer planou por cerca de 180 metros, passando por cima da muralha da cidade antes de cair em um pequeno vale próximo ao rio Avon. A queda foi brutal: ambas as pernas foram fraturadas, deixando-o incapacitado pelo resto da vida. Mas ele havia voado. E a Abadia de Malmesbury, até hoje, ostenta um vitral em homenagem ao Irmão Eilmer — o primeiro homem a conquistar os ares.

A Voz que nos Chega do Passado

Este lendário experimento não nos chega diretamente de Eilmer, mas através do historiador do século XII Guilherme de Malmesbury, que escreveu o relato por volta de 1125. Curiosamente, Guilherme negligenciou fornecer uma data exata para o feito — uma omissão que alimentou séculos de especulação entre historiadores.

Mas Guilherme menciona outro episódio crucial na vida de Eilmer, quando o monge já era "de idade avançada": a passagem do cometa Halley em 1066. Eilmer teria comentado, com a serenidade de quem já havia visto o espetáculo antes:
"Faz muito tempo que não te vejo."

O Enigma da Data de Nascimento

A frase de Eilmer sobre o cometa Halley lançou uma das investigações mais fascinantes da historiografia medieval. Alguns historiadores interpretaram o comentário como evidência de que Eilmer testemunhara o cometa em uma passagem anterior — em 989, quando seria um menino.

Supondo que Eilmer tivesse pelo menos cinco anos em 989, ele teria nascido no máximo em 984. Isso faria com que tivesse mais de 80 anos em 1066, e sua tentativa de voo — descrita como ocorrendo quando ele estava "em sua primeira juventude" — provavelmente entre 1000 e 1010.

Mas essa é uma estimativa baseada em muitas suposições, como alerta James Aitcheson, da Universidade de Leicester, em um artigo publicado na revista Notes and Queries.

A Teoria Revolucionária de Aitcheson

Aitcheson propõe uma alternativa surpreendente: Eilmer pode ter visto um cometa completamente diferente em sua juventude — o cometa de 1018. Nesse caso, ele teria nascido muito mais tarde, e a data de seu voo teria ocorrido entre as décadas de 1020 e 1040.

Segundo o pesquisador, o cometa de 1018 teria sido visível nas Ilhas Britânicas por cerca de duas semanas no outono, e Eilmer pode simplesmente ter presumido que se tratava do mesmo cometa que observara em 1066 — o cometa Halley, que o deixou "agachado de terror diante da estrela brilhante".
Aitcheson sugere que Eilmer poderia ter nascido no início da década de 1010, o que o tornaria com mais de 50 anos em 1066 — tecnicamente ainda consistente com a descrição de Guilherme de Eilmer como sendo de "idade avançada".

O Fim de uma Lenda Astronômica?

Esta nova cronologia desafia especulações recentes de que Eilmer compreendeu a periodicidade do cometa Halley séculos antes do astrônomo Edmund Halley, do final do século XVII. Então, seria realmente o "Cometa de Eilmer"?
Aitcheson acha que não.
Ele reconhece que Eilmer poderia ter tido acesso a registros históricos de avistamentos de cometas na Grã-Bretanha e na Europa, e portanto poderia ter identificado o padrão de seu ciclo. Mas o único registro que temos vem de Guilherme de Malmesbury, que não menciona se Eilmer era um astrônomo amador.
"De fato, não está claro se os observadores do céu no início da Idade Média conseguiam distinguir um cometa do outro", escreve Aitcheson.

O Legado que Persiste

Uma data de nascimento posterior para Eilmer também abre uma possibilidade emocionante: o monge pode ter vivido o suficiente — até os 90 anos — para conhecer Guilherme pessoalmente e "transmitir diretamente a história de seus feitos pioneiros na aviação".
Imagine: o velho monge, mancando pelos corredores da abadia com suas pernas quebradas, contando ao jovem historiador como um dia voou sobre as muralhas de Malmesbury. É uma cena que nos comove mil anos depois.

O Pioneiro Esquecido

Eilmer de Malmesbury não tinha motores, nem combustível, nem computadores de voo. Tinha apenas salgueiro, tecido, coragem e uma visão — a visão de que os humanos poderiam voar.
Seu voo de 180 metros, realizado entre 1000 e 1040, permaneceu incomparável por séculos. Leonardo da Vinci desenhou asas no século XV. Os irmãos Wright decolaram em 1903. Mas o primeiro aviador da história foi um monge inglês que, por um breve momento, tocou o céu medieval.

A Abadia de Malmesbury ainda lembra. E agora, nós também.

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