Passageiro australiano relata experiência após surto de hantavírus em cruzeiro que matou três pessoas
Perth, Austrália – Após passar quase seis semanas em quarentena, o australiano Peter Marsh tornou-se o primeiro passageiro do navio de cruzeiro MV Hondius a falar publicamente sobre a experiência vivida durante o surto de hantavírus que resultou na morte de três pessoas a bordo.
Marsh, de 82 anos, está entre os quatro cidadãos australianos, um residente permanente e um neozelandês repatriados para a Austrália em 15 de maio. Desde então, o grupo permanece isolado no Centro Nacional de Resiliência de Bullsbrook, na Austrália Ocidental, onde cumpre um rigoroso protocolo sanitário para evitar a propagação da doença.
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Em entrevista concedida à ABC News diretamente da instalação de quarentena, o aposentado afirmou não atribuir culpa a ninguém pelo ocorrido.
“Na minha opinião, ninguém é responsável pelo que aconteceu. A primeira pessoa que morreu foi quem trouxe o vírus para o navio, mas ela não sabia que estava infectada, não apresentava sintomas e acabou pagando o preço mais alto”, declarou.
Segundo Marsh, a operadora do cruzeiro agiu rapidamente assim que identificou a gravidade da situação, implementando medidas para reduzir os riscos aos demais passageiros.
Viagem dos sonhos transformada em crise sanitária
Apaixonado por observação de aves, Peter Marsh embarcou na expedição acompanhado de um grupo de observadores de pássaros de Sydney. Inicialmente, a viagem correspondia a todas as expectativas dos participantes, até que alguns passageiros começaram a apresentar sintomas da doença.
“O processo foi muito gradual. A primeira morte parecia um caso isolado. Mas quando soubemos que a esposa da primeira vítima também havia falecido, foi um choque enorme para todos”, relembrou.
A confirmação de que o surto era causado pelo hantavírus elevou significativamente a tensão a bordo. A doença, transmitida principalmente por roedores infectados, pode provocar graves complicações respiratórias e apresentar alta taxa de mortalidade em determinados casos.
“Ficou claro que estávamos diante de um vírus potencialmente letal. Todos sabíamos que ele poderia matar”, afirmou.
Redes sociais aumentaram a preocupação
Marsh também criticou a atuação de alguns influenciadores digitais que estavam no navio e divulgaram informações alarmistas durante a crise.
“Algumas publicações foram extremamente irresponsáveis. Elas fizeram familiares e amigos ao redor do mundo acreditarem que a situação era muito pior do que realmente era”, disse.
Após a identificação do vírus, os passageiros passaram a manter distanciamento social e permaneceram a maior parte do tempo confinados em suas cabines até o desembarque em Tenerife, na Espanha.
Posteriormente, o grupo foi transferido para a Holanda antes de retornar à Austrália para cumprir o período de quarentena.
Quarentena longa, mas necessária
Apesar dos desafios do isolamento, Marsh acredita que a medida foi essencial para proteger a saúde pública.
“Se uma única pessoa deixar de adoecer graças à nossa quarentena, então tudo isso terá valido a pena”, afirmou.
O período de isolamento ocorre em uma instalação criada durante a pandemia de Covid-19 e adaptada para emergências sanitárias. Segundo o aposentado, a impressão inicial do local era de extrema rigidez, mas a convivência diária revelou um ambiente confortável e acolhedor.
“A equipe tem sido extraordinária. Recebemos apoio constante e um tratamento humano excepcional”, destacou.
Observação de aves ajuda a enfrentar o isolamento
Para combater o estresse e o tédio durante as semanas de confinamento, Marsh recorreu à sua paixão de mais de duas décadas: a observação de aves.
Ele conta que três dos ocupantes da instalação compartilham o mesmo hobby e transformaram a atividade em uma competição amigável.
“Estamos vendo quem consegue registrar mais espécies. Eu já observei 34 aves diferentes a partir do centro”, revelou.
Segundo ele, a prática tem desempenhado um papel importante no equilíbrio emocional durante o período de isolamento.
“A observação de aves acalma a mente e traz tranquilidade. É uma forma maravilhosa de aliviar o estresse e manter o bem-estar psicológico”, explicou.
Contagem regressiva para voltar para casa
Com o término da quarentena previsto para a próxima semana, Marsh já faz planos para reencontrar a família em Nova Gales do Sul.
Depois de semanas longe de casa, ele diz que o que mais espera é poder abraçar novamente a esposa, os filhos e os netos.
“Um grande abraço da minha esposa, dos meus filhos e dos meus netos é tudo o que eu quero agora”, afirmou.
E, entre as prioridades mais imediatas após a liberdade, ele acrescenta com bom humor: “Também preciso urgentemente cortar o cabelo.”
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