Uma afronta disfarçada de proposta: a prefeitura de Maceió e o IPCA de 4,30%
A matemática da humilhação
A Prefeitura de Maceió, representada pela secretária Mary Anne Souza, apresentou aos servidores um reajuste escalonado de 2% em julho e 2,37% em novembro, totalizando 4,30% em 2026, além do pagamento de uma progressão referente ao biênio 2023-2025 apenas em janeiro de 2027.
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Proposta da prefeitura de Maceió não cobre inflação real dos servidores |
IPCA Acumulado 2025 (Ano Fechado): 4,26%. IPCA Acumulado 2026 (até Março): 1,92%.
Chamem isso pelo nome certo: não é um reajuste. É uma reposição parcial e tardia de perdas já consumadas, embrulhada em linguagem técnica para parecer oferta. E ainda parcelada — como se dividir migalhas em duas porções as tornasse mais nutritivas.
Em 2025, o IPCA acumulado foi de 4,26%. Ou seja, o município está propondo cobrir a inflação do ano passado — não do ano em curso — com um índice que ainda será aplicado em julho e novembro de 2026. Durante esses meses de espera, a inflação continua corroendo o salário. O servidor recebe o "reajuste" depois de já ter perdido mais poder de compra. É repor ontem para pagar hoje, enquanto o amanhã fica por conta do trabalhador.
E a inflação de serviços — a que mais pesa no bolso de quem tem salário fixo? O agregado especial de serviços acelerou de 4,78% em 2024 para 6,01% em 2025. Plano de saúde subiu 6,42%. Energia elétrica, 12,31%. Aluguel, 6,06%. O médico, o servidor público, o profissional de saúde — todos pagaram esses preços. E recebem 4,30% de "compensação".
O histórico que a prefeitura prefere esquecer
Os médicos da ESF em Maceió enfrentam 14 anos sem reajuste, o que resulta em perda de padrão salarial ano após ano. Eles recebem salários equivalentes a categorias de nível médio, mesmo possuindo mestrado.
Quatorze anos. Não é descuido administrativo — é política deliberada de arrocho. Primeiro sob Rui Palmeira, depois mantida por JHC, e agora herdada por Rodrigo Cunha. Cada gestão que passa endossa silenciosamente a negligência da anterior, e a conta chega ao profissional de saúde que atende a população mais vulnerável da cidade.
O grupo de médicos afetados é pequeno, com menos de 40 profissionais, e o impacto de um reajuste salarial não comprometeria o orçamento superavitário da prefeitura. Isso torna a situação ainda mais indefensável: não é falta de dinheiro. É falta de vontade política.
-O caos herdado — e os servidores que pagam a conta
Com problemas administrativos herdados da gestão do ex-prefeito JHC, o atual prefeito Rodrigo Cunha propôs o reajuste escalonado.
Compreende-se que toda gestão herda desequilíbrios. O que não se compreende — nem se aceita — é que os trabalhadores sejam usados como amortecedor fiscal. Os servidores não fizeram a dívida. Não tomaram as decisões que criaram o "caos administrativo". E não deveriam ser eles a saldar esse custo com seus salários congelados, sua aposentadoria aviltada, sua dignidade profissional sacrificada.
A categoria pede reajuste de 10%, garantia da atualização das progressões por mérito e titulação em 2026, valorização da carreira, isonomia e atualização da tabela para os servidores administrativos. Esse não é um pedido extravagante — é o mínimo de quem vem acumulando perdas reais há anos.
A passividade do Sinmed-AL: onde está a mobilização?
Aqui é preciso ser direto, mesmo que isso desagrade.
A nota do Sinmed-AL sobre a reunião do dia 28 de abril soa como um relatório de protocolo, não como um grito de indignação. Descrevem-se os fatos com cautela, fala-se em "buscar o diálogo com o prefeito", em "equilíbrio" e "interlocução no mais alto nível". A proposta foi classificada como "inaceitável" — mas onde estão as consequências dessa classificação?
Um sindicato existe para confrontar o poder quando o diálogo falha. Depois de 14 anos de congelamento para os médicos da ESF, de sucessivas propostas pífias, de promessas não cumpridas por gestões anteriores, a resposta institucional adequada não é aguardar audiência com o prefeito. É greve. É assembleia. É mobilização pública. É pressão política que doa.
Em nota oficial, o Sinmed reafirmou que seguirá "vigilante e firme". Vigilante e firme — mas de longe. Observar não é lutar. E a categoria médica de Maceió, que carrega o peso do sistema público de saúde nos ombros, merece uma representação que vá além das notas bem-escritas e das reuniões com secretários.
O contexto político que explica (mas não justifica) tudo
Estamos em maio de 2026, pré-eleições municipais de outubro, o que torna promessas como essa comuns para ganhar apoio de categorias estratégicas como médicos.
Ou seja: é ano eleitoral. Momento em que gestores costumam ser mais generosos com promessas do que com recursos. Se a prefeitura oferece 4,30% agora, é porque calcula que pode sair barato politicamente. E se o sindicato aceitar o jogo do "diálogo construtivo" sem pressão real, o cálculo da prefeitura será confirmado.
A história recente de Maceió mostra o padrão: reuniões, propostas insuficientes, contrapropostas, nova reunião, e ao final, o servidor aceita menos do que merecia porque o ano passou e o impasse cansou mais a categoria do que a gestão. Não se pode permitir que isso se repita.
O que se exige
A proposta de 4,30% deve ser formalmente rejeitada, com prazo claro para contraproposta. A data-base precisa ser respeitada. As progressões do biênio 2023-2025 não podem ser adiadas para janeiro de 2027 — essa é uma obrigação já vencida. Os médicos da ESF com 14 anos de congelamento precisam de solução específica e urgente, que não dependa de nenhuma negociação geral. E o Sinmed-AL precisa colocar na mesa instrumentos de pressão reais — ou explicar à categoria por que não o faz.
Reposição de inflação não é reajuste. É devolução de algo que já foi tomado. E ainda assim, nem isso está sendo feito adequadamente. Maceió merece médicos valorizados. E os médicos de Maceió merecem um sindicato que bata com mais força.
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📙 GLOSSÁRIO:
IPCA — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo; principal indicador oficial de inflação do Brasil, medido pelo IBGE.
ESF — Estratégia Saúde da Família; programa federal de atenção básica à saúde operado por equipes nos municípios.
Data-base — Data definida em lei ou acordo coletivo a partir da qual o reajuste salarial deve ser aplicado obrigatoriamente.
Progressão por biênio — Aumento salarial automático previsto em plano de carreira a cada dois anos de serviço prestado pelo servidor.
Arrocho salarial — Política de contenção ou congelamento de salários que resulta em perda real do poder de compra ao longo do tempo.
Reposição inflacionária — Correção do salário no valor equivalente à inflação do período, sem ganho real; apenas evita a perda já acumulada.
Sinmed-AL — Sindicato dos Médicos de Alagoas; entidade responsável pela representação e defesa dos interesses da categoria médica no estado.
Superávit orçamentário — Situação em que as receitas do município superam suas despesas, indicando que há recursos disponíveis além do necessário.
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