Zâmbia amplia mineração de minerais críticos sob a sombra de um legado tóxico
Expansão do cobre, do cobalto e de outros insumos da transição energética reacende temores sobre contaminação, falhas regulatórias e danos permanentes à saúde pública
A Zâmbia avança na exploração de minerais críticos, impulsionada pela corrida global por cobre, cobalto, níquel e manganês — insumos essenciais para a transição energética e a expansão das tecnologias de baixo carbono. Mas, enquanto o país busca transformar riqueza mineral em crescimento econômico, antigos e novos desastres ambientais reacendem o alerta: o preço dessa prosperidade pode ser alto demais para comunidades inteiras e para o meio ambiente.
Em Kabwe, no centro do país, esse risco já tem rosto, nome e consequências concretas. A cidade, considerada uma das mais poluídas do mundo, convive até hoje com o legado tóxico da antiga mina e fundição de Broken Hill, inaugurada em 1906 e fechada em 1994 sem a devida descontaminação. Estima-se que 6,4 milhões de toneladas de resíduos com chumbo ainda contaminem o solo, a água e o ar da região.
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| Ruptura em uma barragem de rejeitos em uma mina de cobre da Sino-Metals perto de Kitwe, Zâmbia, em fevereiro de 2025. Foto de Richard Kille/AP. |
Foi nesse cenário que David Mwape passou 24 anos como professor, observando diariamente os efeitos da contaminação sobre seus alunos. Em uma escola próxima à antiga mina, crianças brincam em um parquinho a menos de um quilômetro da área contaminada, enquanto convivem com níveis alarmantes de chumbo no sangue. Segundo dados citados por especialistas, 95% das crianças de Kabwe apresentam índices muito acima do considerado seguro pela Organização Mundial da Saúde.
Mwape relata sintomas que já se tornaram rotina em sala de aula: dificuldade de concentração, sonolência, lapsos de memória e sinais persistentes de adoecimento. “Temos crianças doentes”, afirmou. “Às vezes, esquecem o que o professor está ensinando. Às vezes, até dormem na aula.”
Em 2022, a ONU classificou Kabwe como uma “zona de sacrifício”, expressão usada para designar áreas onde populações inteiras são expostas a níveis extremos de contaminação. Cerca de 300 mil pessoas vivem sob risco constante, expostas ao chumbo presente na água, no ar e até nos alimentos cultivados na região. Um relatório da Human Rights Watch, publicado em 2025, apontou que a contaminação do solo em algumas áreas da cidade chega a ser 300 vezes superior ao limite considerado perigoso pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.
A memória de Kabwe paira sobre o novo ciclo mineral da Zâmbia. E os receios aumentaram ainda mais após um grave acidente ocorrido no norte do país: o rompimento de uma barragem de rejeitos em uma mina de cobre operada por uma empresa chinesa, a Sino-Metals. O vazamento despejou cerca de 13 milhões de galões de resíduos tóxicos em um curso d’água que deságua no rio Kafue, o mais extenso da Zâmbia. A contaminação se espalhou por cerca de 96 quilômetros, matou peixes, comprometeu terras agrícolas e expôs comunidades a metais pesados perigosos.
Apesar dos riscos, a mineração permanece como espinha dorsal da economia zambiana. O setor responde por aproximadamente 15% do PIB, 70% das receitas de exportação e 44% da arrecadação governamental. Com 6% das reservas conhecidas de cobre do planeta, além de importantes jazidas de cobalto, níquel e manganês, a Zâmbia tornou-se peça estratégica na cadeia global de energia limpa.
Esse potencial tem atraído grandes investidores. Em 2024, uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos adquiriu participação majoritária na Mopani Copper Mines, com um aporte de mais de US$ 1,1 bilhão. Em 2025, a Zâmbia firmou acordo com a Arábia Saudita para incentivar investimentos em exploração mineral, enquanto a canadense Barrick Mining Corporation anunciou planos de dobrar a produção anual da mina de Lumwana com um investimento de US$ 2 bilhões.
Mas o crescimento acelerado tem despertado críticas. Especialistas alertam que, sem fiscalização rigorosa e investimentos robustos em saúde pública e proteção ambiental, a expansão mineral pode aprofundar tragédias já em curso. Para Titus Haakonde, presidente do Instituto de Saúde Ambiental da Zâmbia, o país está diante de “uma bomba-relógio”.
A preocupação se estende para além de Kabwe. Segundo uma avaliação da empresa sul-africana Drizit Environmental, o vazamento no rio Kafue liberou 1,5 milhão de toneladas de metais pesados — volume muito superior ao inicialmente informado pela empresa responsável. As amostras coletadas revelaram níveis perigosos de cianeto, arsênio, chumbo e cádmio, substâncias associadas a danos orgânicos, defeitos congênitos e câncer.
Na vila de Kalusale, uma das mais afetadas, o agricultor Bernard Njovu e seus seis filhos convivem diretamente com os impactos do desastre. A família recebe água potável fornecida pela mineradora três vezes por semana, mas continua usando água contaminada para banho e lavagem de roupas. “Vivemos com o ácido todos os dias”, afirmou.
A tragédia reforçou o debate sobre a fragilidade da regulação ambiental no país. Embora o governo tenha prometido investigações, suspendido operações e anunciado maior rigor na fiscalização, organizações da sociedade civil acusam as autoridades de agir de forma lenta e inconsistente. Em Kabwe, por exemplo, a Human Rights Watch denunciou que o próprio processo de reaproveitamento dos rejeitos da antiga mina vem criando novos focos de contaminação, com montes de material tóxico sendo deixados a céu aberto, próximos de casas e estradas, sem cercas ou avisos.
A mineração artesanal também agrava a crise. Em busca de sobrevivência, moradores em situação de pobreza extraem manualmente chumbo e zinco dos rejeitos, muitas vezes sem qualquer equipamento de proteção. O material é vendido a empresas locais e, segundo denúncias, parte dele segue para processadoras chinesas.
O custo humano dessa realidade é devastador. Um estudo de 2023 estimou que o impacto social do envenenamento por chumbo em Kabwe — considerando perda de QI e mortalidade associada entre crianças nascidas entre 2025 e 2049 — poderá custar ao país entre US$ 224 milhões e US$ 593 milhões. Para especialistas em toxicologia, os danos podem atravessar gerações: o chumbo se acumula nos ossos e dentes e pode ser transmitido da mãe para o feto durante a gestação.
A diretora associada de direitos da criança da Human Rights Watch, Juliane Kippenberg, afirma que o problema não está apenas no passado, mas na continuidade de decisões que agravam a exposição. Segundo ela, crianças são testadas, tratadas e devolvidas ao mesmo ambiente contaminado. “Há políticas corretas no papel, mas elas ainda não se traduziram em prática”, resumiu.
Enquanto isso, moradores de Kabwe seguem presos a uma rotina de contaminação silenciosa. Evans Kunda, de 50 anos, criou os três filhos a cerca de um quilômetro e meio da antiga mina. Sua filha Beatrice foi diagnosticada com intoxicação por chumbo ainda criança e enfrentou dificuldades durante toda a vida escolar, até abandonar os estudos na nona série. “Há muitas famílias enfrentando esse problema”, disse. “Eu gostaria que pudéssemos começar uma nova vida longe daqui.”
A Zâmbia se encontra, assim, diante de uma escolha decisiva. Pode transformar seus recursos minerais em alavanca para o futuro energético global, mas corre o risco de repetir um modelo em que comunidades inteiras pagam com a saúde e com a própria vida. Em um país onde a riqueza do subsolo sustenta a economia, a pergunta que paira é simples e brutal: quantas Kabwes ainda serão necessárias para que o desenvolvimento deixe de ser sinônimo de sacrifício?
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