A Espada e o Bisturi: O Major Médico que Levou o Brasil à Grande Guerra
O retrato emoldurado em madeira entalhada, com seu vidro ligeiramente embaçado pelo tempo, guarda a imagem de um homem de olhar firme e bigode bem aparado: Manoel Secundino de Sá, major do Corpo de Saúde do Exército Brasileiro, posando com a espada cerimonial na mão direita — a famosa espada da família, símbolo de uma tradição que une honra militar e dever médico.
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| Trisavô da Dra. Laurijane Pantaleão, Dr. Sá |
De Mem de Sá à Frente Ocidental: A Jornada de um Médico Alagoano na Primeira Guerra
Nascido em 27 de maio de 1862, na Bahia, de uma linhagem que remonta aos governadores coloniais Mem de Sá e Estácio de Sá, Manoel Secundino formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia em 1888. Sua tese de formatura, sobre glycosuria (diabetes assucarado), já revelava o perfil de um profissional atento às patologias da época. Logo após a graduação, ingressou no Serviço de Saúde do Exército, conciliando a prática clínica com a carreira castrense — um caminho comum entre médicos brasileiros do final do Império e início da República, quando o Exército buscava modernizar sua estrutura sanitária.
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| Diário oficial da União de 1911, quando o Dr. Sá foi promovido a Major. |
Estabelecido em Maceió, Alagoas, onde construiu família e residência na Rua Aristeu de Andrade, no bairro do Farol, ele ascendeu progressivamente nas fileiras. Documentos preservados em arquivos familiares — incluindo edições do Diário Oficial da União — registram sua promoção a major em 1911, um marco que o colocava entre os oficiais de destaque do Corpo de Saúde. Mais adiante, alcançou o posto de chefe de clínica no Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, posição que o situava no centro da elite médica militar brasileira.O ápice de sua trajetória veio com a participação na Missão Médica Especial Brasileira enviada à França durante a Primeira Guerra Mundial.
Após a declaração de guerra do Brasil à Alemanha em outubro de 1917, o governo de Venceslau Brás cumpriu compromissos interaliados e organizou, em 1918, uma expedição médico-militar. Partindo do Rio de Janeiro em 18 de agosto a bordo do paquete La Plata, a missão — chefiada pelo dr. Nabuco Gouvêa — contava com cerca de 86 médicos (militares e civis), estudantes, farmacêuticos, intendentes e enfermeiras voluntárias (muitas delas esposas dos próprios médicos).A viagem foi marcada por perigos: desvios de rota por ameaça de submarinos alemães, e a irrupção da gripe espanhola a bordo, que infectou tripulantes e expedicionários. Chegando a Marselha em 24 de setembro de 1918, a equipe instalou o Hospital Franco-Brasileiro em Paris, com centenas de leitos destinados a feridos dos campos de batalha e vítimas da pandemia.
Manoel Secundino de Sá integrou esse esforço pioneiro, contribuindo para o tratamento de combatentes aliados até o armistício de 11 de novembro e a desmobilização em 1919. Seu nome ecoa em publicações da época, como o periódico Medicina Militar (1910-1923), ao lado de outros oficiais do Serviço de Saúde, confirmando sua relevância no contexto da modernização da medicina militar brasileira.No plano familiar, o major médico foi pai de cinco filhas: Isaura, Almerinda (avó de Aldo de Sá Cardoso, fundador do curso de Medicina da UFAL, e bisavó do dermatologista Alberto Cardoso), Arlinda, Maria de Sá Magalhães e a caçula Adelaide, bisavó da atual guardiã do retrato. Adelaide casou-se com o imigrante português Antônio Pinto, e na própria casa paterna — hoje transformada no Mirante Gourmet — nasceu a avó Laura, possivelmente sob os cuidados do avô médico.Esse retrato não é apenas uma relíquia doméstica. Ele encapsula a interseção entre história pessoal e coletiva: um descendente de colonizadores baianos que, no alvorecer do século XX, cruzou oceanos para servir na Grande Guerra, unindo o bisturi ao sabre em defesa de valores republicanos e humanitários.
Em Maceió, sua memória perdura nas ruas do Farol e nos corredores da medicina alagoana; no Brasil, ele representa os milhares de anônimos que, em 1918, deram ao país uma presença discreta, mas significativa, no palco europeu da guerra.Herança de sangue e de dever, o Dr. Sá permanece, na foto oval, como testemunho vivo de uma era em que médicos militares eram, ao mesmo tempo, cientistas, soldados e guardiões da vida em tempos de morte em massa.