Crise na obstetrícia de Alagoas: demissões em massa, escalas desfalcadas e alerta das entidades de classe
A assistência obstétrica e hospitalar em Alagoas vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A combinação de escalas incompletas, desligamentos coletivos e mudanças nas regras de contratação transformou o atendimento a gestantes e recém-nascidos em motivo de alerta para sindicatos, conselhos profissionais e para quem depende da rede pública. O quadro não é pontual: ele se soma a problemas estruturais antigos e a decisões administrativas recentes que, segundo as entidades de classe, aprofundaram a desvalorização dos profissionais.
Hospital da Mulher opera com um único obstetra no turno da noite
O Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, em Maceió, referência para casos de média e alta complexidade dos 102 municípios alagoanos, suspendeu temporariamente os atendimentos obstétricos por falta de médicos para completar as escalas. De acordo com a coordenação da unidade, o plantão noturno passou a contar com apenas um obstetra — quantidade incompatível com a rotina de uma maternidade que precisa lidar, ao mesmo tempo, com triagens, partos e acompanhamentos de maior complexidade.
Sinmed-AL aponta desvalorização, atrasos e descontos sem aviso
Para o Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed-AL), a permanência dos profissionais se tornou insustentável. Além do corte no valor dos plantões, a entidade relata parcelas salariais atrasadas e descontos feitos sem comunicação prévia na folha de hospitais estaduais.
Um ponto destacado pela presidente do sindicato, Sílvia Melo, é o efeito desproporcional sobre os médicos contratados como pessoa jurídica (PJ), que já não contam com garantias trabalhistas básicas e agora acumulam perda de renda e insegurança jurídica. Segundo ela, todas as tentativas de diálogo foram esgotadas antes da decisão pelo rompimento coletivo.
HGE: desligamentos na enfermagem levantam alerta do Coren-AL
Fora da obstetrícia, o Hospital Geral do Estado (HGE), maior unidade de urgência e emergência de Alagoas, também entrou no centro da crise. O Sindicato dos Enfermeiros do Estado de Alagoas (Sineal) denunciou desligamentos em massa e o corte de milhares de horas de plantão, com avisos feitos por telefone a parte dos trabalhadores — prática que dificultou a reorganização das equipes e abriu desfalques em setores críticos.
Diante do cenário, o Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas (Coren-AL) divulgou nota manifestando "profunda preocupação" com os desligamentos e com a continuidade da assistência. O órgão advertiu que a redução do quadro em uma unidade de referência provoca sobrecarga, agrava as condições de trabalho e coloca em risco a segurança dos pacientes, e informou que acionará os órgãos competentes dentro de suas atribuições legais.
O que as entidades cobram
Médicos e enfermeiros apontam na mesma direção: é preciso rever os desligamentos, readequar os orçamentos das unidades e restabelecer escalas completas antes que o atendimento a gestantes e recém-nascidos entre em colapso. As cobranças se dirigem ao Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
