Convite com lista, áudio de pressão e hospital fiscalizado: a festa do diretor do HGE sob escrutínio
O convite circulou discretamente em grupos fechados de servidores e prestadores de serviço da saúde estadual de Alagoas. Sob o título "Amigos de Fernando Fortes", o evento junino foi marcado para 2 de junho de 2026, às 18h, no Salão Fama, no bairro do Trapiche, atrás da Igreja de São José, em Maceió. No texto da mensagem, um detalhe chamou atenção: "Preciso da relação dos nomes para encaminhar à direção". Para comparecer, era preciso estar em uma lista prévia.
O anfitrião era o diretor-geral do Hospital Geral do Estado (HGE), Fernando Fortes Melro Filho, que responde pela unidade desde janeiro de 2023. Ele foi Indicado por Maurício Quintella, o qual ficou responsável por escolher a direção-geral do Hospital Geral do Estado (HGE) por determinação do governador Paulo Dantas (MDB).
O evento junino ficou associado ao nome "Arraiá do Milhão" e, segundo reportagens locais, reuniu trabalhadores do hospital selecionados a dedo, enquanto a maioria do quadro não foi convidada.
Políticos em peso e declaração do anfitrião
De acordo com o portal AR News, estiveram presentes o senador Renan Calheiros (MDB), o então pré-candidato a deputado estadual Paulinho Mendonça (MDB, eleito em 4 de outubro), o deputado estadual José Wanderley Neto (MDB), o deputado federal Luciano Amaral (PSD) e o defensor público Ricardo Melro, irmão do diretor. Os shows ficaram a cargo de Manu Show e de Ariela, a Rainha do Paredão.
No palco, segundo relatos da imprensa alagoana, Fernando Melro afirmou que gostaria de reunir cerca de 3 mil funcionários e declarou que os presentes haviam sido "escolhidos a dedo".
Áudio atribuído a servidora alega pressão por apoio
Depois do evento, um áudio atribuído a uma servidora ganhou repercussão nos veículos locais. No relato, trabalhadores terceirizados e contratados teriam sofrido pressão para comparecer à confraternização e declarar apoio político. A frase registrada pelo portal Al102 no material foi: "Se não for para a festa declarar apoio, é rua".
É importante ressaltar: as alegações do áudio não foram comprovadas por decisão administrativa ou judicial e permanecem como denúncia pendente de apuração. Também não há informação pública sobre quem pagou o salão, os shows e os demais custos da festa. Nenhuma fonte consultada demonstra que recursos públicos foram usados, e a direção do hospital não se manifestou formalmente sobre o financiamento até a conclusão desta reportagem.
Festa em meio a fiscalizações que registraram problemas no HGE
O episódio ocorreu em um momento delicado para a maior unidade de urgência e emergência de Alagoas. Em julho de 2026, fiscalização da Vigilância Sanitária de Maceió identificou camas enferrujadas, equipamentos sem manutenção, fiação exposta, infiltrações, teto danificado, falhas no armazenamento de medicamentos e resíduos, insuficiência de enxoval e sinais de mofo no Centro de Tratamento de Queimados. O hospital foi notificado e recebeu prazo para corrigir as pendências.
O Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal), em inspeção própria, registrou infiltrações, superlotação, falta de insumos e medicamentos e escalas médicas desfalcadas em setores críticos, informando que encaminharia relatório ao Ministério Público e à Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
A Procuradoria-Geral do Estado (PGE), por sua vez, constatou desvio de função em processo no qual uma servidora concursada como Artífice executava transporte de pacientes graves e tarefas de higienização, e alertou a Sesau sobre o risco de responsabilização de gestores. Em junho, o hospital ainda ficou parcialmente sem energia por falha na subestação elétrica, episódio confirmado pela própria direção.
Irmão do diretor critica denúncias
Em agosto, o defensor público Ricardo Melro, que também participou da confraternização, saiu em defesa do hospital comandado pelo irmão. Ele acusou críticos de usar "a situação da unidade e o sofrimento de pacientes" para obter "likes, votos e dividendos políticos", e classificou parte das denúncias como "mentira e manipulação". A declaração, porém, esbarra em registros oficiais: as irregularidades apontadas não vieram apenas da imprensa ou de adversários, mas de fiscalizações da Vigilância Sanitária, do Cremal e de documentos da PGE.
O verdadeiro debate, portanto, não é sobre uma festa. É sobre o compromisso que se espera de todo agente público: exercer o poder com impessoalidade, transparência e respeito aos limites impostos pela Constituição e pelas leis. Sempre que houver dúvida sobre esses limites, a investigação é um dever institucional, e o julgamento pertence às autoridades competentes, nunca ao tribunal das redes sociais.
O que cabe exigir agora
Enquanto o convívio entre gestão hospitalar e política é por si só sensível, um evento com lista de convidados, presença maciça de agentes públicos eleitos e denúncia de pressão sobre trabalhadores exige transparência. Cabe ao Ministério Público de Alagoas e ao Tribunal de Contas do Estado apurar a origem dos recursos da festa e eventual uso indevido de servidores, com base na Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992) e nos princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade previstos na Constituição. Ao Cremal, que já fiscaliza a unidade, cabe seguir cobrando condições adequadas de trabalho e atendimento. O espaço permanece aberto para manifestações da direção do HGE e do governo de Alagoas.
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