Cólera: Panorama Atual, Fisiopatologia e Estratégias de Combate no Século XXI

Cólera (Vibrio cholerae): Revisão Abrangente

Cólera (Vibrio cholerae): microbiologia, epidemiologia, fisiopatologia, diagnóstico, tratamento e prevenção

Uma revisão abrangente da doença diarreica aguda de maior letalidade evitável no mundo

Resumo

A cólera é uma doença diarreica aguda, de notificação compulsória e potencial epidêmico, causada pela ingestão de água ou alimentos contaminados pela bactéria Gram-negativa Vibrio cholerae. Apenas os sorogrupos O1 e O139, portadores do fator de virulência codificado pelo bacteriófago CTXφ, são capazes de produzir a toxina colérica e desencadear epidemias. A doença permanece um importante problema de saúde pública global: em 2025, 47 países notificaram 451.499 casos e 7.870 óbitos à Organização Mundial da Saúde (OMS), o maior número anual de mortes desde 1999. A fisiopatologia centra-se na toxina colérica, que ativa de forma irreversível a adenilato ciclase do enterócito, elevando o AMP cíclico intracelular e promovendo a secreção maciça de água e eletrólitos para o lúmen intestinal, resultando em diarreia aquosa profusa e desidratação. O diagnóstico baseia-se em cultura, testes bioquímicos, sorologia e métodos moleculares como a PCR. O tratamento é essencialmente de reposição volêmica — solução de reidratação oral (SRO) nos casos leves a moderados e fluidos intravenosos (Ringer lactato) nos casos graves — complementado por antibióticos de dose única (doxiciclina ou azitromicina) nos casos mais severos. A prevenção depende de saneamento básico, acesso à água potável, higiene, vigilância epidemiológica e vacinas orais (OCV). Este artigo revisa de forma integrada os aspectos microbiológicos, epidemiológicos, clínicos e terapêuticos da cólera, com ênfase no contexto brasileiro.

Palavras-chave: Cólera; Vibrio cholerae; Toxina Colérica; Desidratação; Reidratação Oral; Saúde Pública; Epidemiologia.


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Abstract

Cholera is an acute diarrheal disease, subject to mandatory notification and with epidemic potential, caused by the ingestion of water or food contaminated with the Gram-negative bacterium Vibrio cholerae. Only serogroups O1 and O139, which carry the virulence factor encoded by the CTXφ bacteriophage, are capable of producing cholera toxin and triggering epidemics. The disease remains a major global public health problem: in 2025, 47 countries reported 451,499 cases and 7,870 deaths to the World Health Organization (WHO), the highest annual death toll since 1999. The pathophysiology centers on cholera toxin, which irreversibly activates enterocyte adenylate cyclase, raising intracellular cyclic AMP and driving massive secretion of water and electrolytes into the intestinal lumen, resulting in profuse watery diarrhea and dehydration. Diagnosis relies on culture, biochemical tests, serology and molecular methods such as PCR. Treatment is essentially volume replacement — oral rehydration solution (ORS) in mild to moderate cases and intravenous fluids (Ringer's lactate) in severe cases — complemented by single-dose antibiotics (doxycycline or azithromycin) in the most severe cases. Prevention depends on sanitation, access to safe water, hygiene, epidemiological surveillance and oral cholera vaccines (OCV). This article provides an integrated review of the microbiological, epidemiological, clinical and therapeutic aspects of cholera, with emphasis on the Brazilian context.

Keywords: Cholera; Vibrio cholerae; Cholera Toxin; Dehydration; Oral Rehydration; Public Health; Epidemiology.

1. Introdução

A cólera é uma das doenças infecciosas mais antigas e mais bem documentadas da história da humanidade, tendo acompanhado o desenvolvimento das grandes cidades, do comércio marítimo e das crises sanitárias que marcaram os séculos XIX e XX. Trata-se de uma infecção intestinal aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae, cuja transmissão ocorre predominantemente pela via fecal-oral, por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados.[1][2]

Apesar de ser uma doença prevenível e tratável, a cólera continua a representar uma ameaça significativa à saúde pública global. A maioria das pessoas infectadas é assintomática ou apresenta quadros leves, mas uma parcela pode evoluir para diarreia aquosa profusa e desidratação grave, com risco de morte em poucas horas caso não receba reposição volêmica adequada.[3] A doença está intimamente associada à pobreza, à ausência de saneamento básico, ao acesso limitado à água potável e a contextos de conflito, deslocamento populacional e desastres naturais.[4]

Nas últimas décadas, observou-se um recrudescimento global da cólera, com surtos simultâneos em múltiplas regiões e um aumento expressivo da letalidade. Em 2025, a OMS registrou o maior número de óbitos por cólera desde 1999, revertendo a tendência de queda observada em anos anteriores.[3][5] Esse cenário reforça a necessidade de compreensão integrada dos mecanismos da doença e de estratégias eficazes de vigilância, tratamento e prevenção.

Este artigo tem como objetivo apresentar uma revisão abrangente e atualizada sobre a cólera, abordando sua etiologia e microbiologia, epidemiologia global e brasileira, fisiopatologia e mecanismo de ação da toxina colérica, manifestações clínicas e classificação da desidratação, diagnóstico laboratorial, tratamento e medidas de prevenção e controle.

2. Etiologia e Microbiologia

2.1 O agente etiológico: Vibrio cholerae

Vibrio cholerae é um bacilo Gram-negativo, anaeróbio facultativo, em forma de vírgula, móvel, dotado de um único flagelo polar, pertencente à família Vibrionaceae. É uma bactéria halofílica, naturalmente encontrada em ambientes aquáticos — estuários, águas salobras e costeiras —, onde vive associada ao plâncton, especialmente ao zooplâncton e às algas.[1][6] Essa característica ecológica é fundamental para compreender a endemicidade da doença em determinadas regiões e sua relação com fatores ambientais e climáticos.

O gênero Vibrio é classificado em mais de 200 sorogrupos com base na estrutura do antígeno O do lipopolissacarídeo (LPS) de superfície. No entanto, apenas dois sorogrupos são capazes de causar a cólera epidêmica: O1 e O139 (também denominado Bengala).[6][7] Cepas de outros sorogrupos, denominadas V. cholerae não-O1/não-O139, podem causar diarreia e infecções extraintestinais, mas geralmente não produzem a toxina colérica e não desencadeiam epidemias.[7]

2.2 Sorogrupos O1 e O139

O sorogrupo O1 subdivide-se em três sorotipos — Ogawa, Inaba e Hikojima — e em dois biotipos: Clássico e El Tor.[6] O biotipo El Tor, identificado pela primeira vez em 1905, tornou-se predominante a partir da sétima pandemia (iniciada em 1961) e é responsável pela maior parte dos casos atuais. Comparado ao biotipo Clássico, o El Tor tende a causar uma proporção maior de infecções assintomáticas, com eliminação prolongada do patógeno e maior capacidade de sobrevivência no ambiente, o que favorece a transmissão sustentada.[7][8]

O sorogrupo O139 emergiu em 1992, na região do delta do Ganges, na Índia e em Bangladesh, causando epidemias explosivas em populações previamente imunes ao O1. Sua emergência demonstrou a capacidade de V. cholerae de adquirir novos antígenos de superfície por meio de recombinação genética e transferência horizontal de genes.[6][8]

Tabela 1 — Classificação de Vibrio cholerae e características dos sorogrupos epidêmicos
Característica O1 — Biotipo Clássico O1 — Biotipo El Tor O139 (Bengala)
Sorotipos Ogawa, Inaba, Hikojima Ogawa, Inaba, Hikojima Antígeno O único (não-O1)
Emergência Pandemias históricas (séc. XIX) 7ª pandemia (1961–atual) 1992 (Índia/Bangladesh)
Produção de toxina colérica Sim Sim Sim
Infecções assintomáticas Menos frequentes Mais frequentes Variável
Sobrevivência ambiental Menor Maior Intermediária
Hemólise (hemácias de carneiro) Negativa Positiva Variável
Relevância atual Histórica Predominante Endêmica regional

2.3 Fatores de virulência

A patogenicidade de V. cholerae depende de um conjunto coordenado de fatores de virulência, cuja expressão é regulada por uma complexa cascata genética sensível a estímulos ambientais, como temperatura, pH, osmolaridade e disponibilidade de nutrientes.[6][9] Os principais fatores incluem:

  • Toxina colérica (CT): principal fator de virulência, codificada pelos genes ctxAB presentes no bacteriófago filamentoso CTXφ. É uma enterotoxina responsável pela diarreia secretora característica.[9]
  • Pili corregulados pela toxina (TCP): estruturas filamentosas que permitem a adesão da bactéria à mucosa do intestino delgado, essenciais para a colonização.[6]
  • Flagelo e quimiotaxia: responsáveis pela motilidade e pela capacidade de penetrar a camada de muco intestinal.[9]
  • Neuraminidase e mucinase: enzimas que degradam o muco e expõem receptores de membrana (como o GM1) para a toxina colérica.[9]
  • Sistema de secreção tipo VI e outros fatores acessórios: envolvidos na competição com a microbiota e na sobrevivência no hospedeiro.[6]

A aquisição dos genes da toxina colérica por transferência horizontal, mediada pelo fago CTXφ, é considerada um evento evolutivo decisivo que converteu cepas ambientais em patógenos epidêmicos.[6][8]

3. Epidemiologia Global e no Brasil

3.1 Panorama global

A cólera permanece endêmica em grande parte do Sul da Ásia e da África Subsaariana, com surtos recorrentes em regiões afetadas por conflitos, deslocamentos e crises humanitárias. Segundo a OMS, em 2025, 47 países notificaram 451.499 casos e 7.870 óbitos, o maior número anual de mortes registrado desde 1999.[3][5] Apenas sete países — Angola, Bangladesh, República Democrática do Congo, Nigéria, Sudão do Sul, Sudão e Iêmen — concentraram cerca de 90% de todos os casos e óbitos notificados.[5]

Os dados oficiais, no entanto, subestimam a carga real da doença, uma vez que muitos casos não são notificados em razão de sistemas de vigilância limitados e do temor de repercussões sobre o comércio e o turismo.[3] Mais de um quinto dos óbitos notificados ocorreu fora de unidades de saúde, evidenciando que muitos pacientes ainda não chegam ao atendimento em tempo hábil. Entre os pacientes tratados em serviços de saúde, a taxa de letalidade global permaneceu abaixo de 1%, mas superou esse limiar em 12 países em 2025.[5]

451.499 Casos Notificados (2025)
7.870 Óbitos Registrados
47 Países Atingidos
< 1% Letalidade em Pacientes Tratados

Fatores como mudanças climáticas, eventos extremos (enchentes e secas), urbanização desordenada, conflitos armados e deslocamentos em massa têm intensificado a ocorrência e a complexidade dos surtos, especialmente em áreas rurais e em regiões com infraestrutura precária e acesso limitado aos serviços de saúde.[4][5]

3.2 As pandemias de cólera

Desde 1817, foram documentadas sete pandemias de cólera. A atual sétima pandemia teve início em 1961, na Indonésia, causada pelo biotipo El Tor, e se espalhou progressivamente por todo o mundo, permanecendo ativa até os dias atuais.[2][8] A emergência do sorogrupo O139 em 1992 representou um novo desafio epidemiológico, embora não tenha substituído o O1 como causa predominante de casos globais.[6]

3.3 Situação no Brasil

A sétima pandemia atingiu o Brasil em 1991, entrando pela fronteira do Amazonas com o Peru. A epidemia se alastrou pela região Norte e, até o final de 1992, alcançou todos os estados do Nordeste, com casos autóctones também registrados no Rio de Janeiro e no Espírito Santo. Em 1993, a doença avançou para as regiões Sudeste e Sul e, a partir de 1995, observou-se uma redução importante do número de casos.[10]

Entre 2002 e 2003 não houve registro de casos no país. Em 2004 foram confirmados 21 casos e, em 2005, cinco casos — os últimos casos autóctones daquele período. A partir de 2006, o Brasil passou a registrar apenas casos importados: um proveniente de Angola, notificado no Distrito Federal (2006); um da República Dominicana, em São Paulo (2011); um de Moçambique, no Rio Grande do Sul (2016); entre outros.[10]

Em 2024, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso autóctone de cólera no Brasil após 18 anos, em um homem de 60 anos residente em Salvador (BA), que apresentou sintomas leves e evoluiu para a cura. O caso foi classificado como isolado, sem evidência de transmissão sustentada.[11][12] Esse evento reforça a importância da manutenção da vigilância epidemiológica e da capacidade laboratorial de detecção, mesmo em períodos de baixa incidência.

Tabela 2 — Marcos epidemiológicos da cólera no Brasil
Período Evento Observação
1991 Chegada da 7ª pandemia Entrada pela fronteira Amazonas–Peru
1992–1993 Disseminação nacional Nordeste, Sudeste e Sul atingidos
1995 em diante Queda progressiva dos casos Melhoria do saneamento e vigilância
2002–2003 Nenhum caso registrado —
2004–2005 Últimos casos autóctones do período 21 e 5 casos confirmados, respectivamente
2006–2023 Apenas casos importados Angola, República Dominicana, Moçambique
2024 Primeiro caso autóctone após 18 anos Salvador (BA), caso isolado, evolução leve

4. Fisiopatologia e Mecanismo da Toxina Colérica

A fisiopatologia da cólera é um exemplo clássico de doença mediada por enterotoxina, na qual a lesão tecidual é mínima e o quadro clínico decorre essencialmente da secreção ativa de fluidos e eletrólitos pelo intestino delgado.[6][9]

4.1 Etapas da patogênese

  1. Ingestão e sobrevivência gástrica: a infecção requer a ingestão de uma carga bacteriana significativa (frequentemente 10⁸–10¹¹ microrganismos), pois muitos são destruídos pelo ácido gástrico. A redução da acidez estomacal (por exemplo, pelo uso de antiácidos ou por desnutrição) aumenta a suscetibilidade.[6]
  2. Colonização do intestino delgado: a bactéria atravessa a camada de muco, auxiliada por sua motilidade flagelar e por enzimas como a mucinase, e adere à superfície dos enterócitos por meio dos pili TCP.[6][9]
  3. Produção da toxina colérica: uma vez colonizada, a bactéria expressa a toxina colérica, cuja produção é regulada por uma cascata de genes de virulência (ToxR, ToxS, TcpP, ToxT) sensível a estímulos do ambiente intestinal.[9]
  4. Ação da toxina no enterócito: a toxina liga-se a receptores específicos e desencadeia a secreção maciça de fluidos, sem causar destruição significativa da mucosa.[9]

4.2 Mecanismo molecular da toxina colérica

A toxina colérica é uma enterotoxina de estrutura AB₅, composta por uma subunidade A (ativa) e cinco subunidades B (ligantes), organizadas em anel.[9] Seu mecanismo de ação pode ser descrito nas seguintes etapas:

  • Ligação: as subunidades B ligam-se com alta afinidade ao gangliosídeo GM1, presente na membrana dos enterócitos.[9]
  • Internalização e clivagem: a toxina é internalizada por endocitose; a subunidade A é clivada em peptídeos A1 e A2, e o fragmento A1 é liberado no citosol.[9]
  • Ativação da adenilato ciclase: o fragmento A1 catalisa a ADP-ribosilação da subunidade Gsα da proteína G, inibindo sua atividade GTPásica. Isso mantém a adenilato ciclase permanentemente ativada.[9]
  • Elevação do AMP cíclico: a ativação sustentada da adenilato ciclase eleva os níveis intracelulares de AMP cíclico (cAMP).[9]
  • Secreção de fluidos e eletrólitos: o aumento do cAMP inibe a absorção de sódio pelas vilosidades e estimula a secreção ativa de cloreto (e, secundariamente, de sódio, potássio e bicarbonato) pelas criptas intestinais, arrastando água para o lúmen por osmose.[9]
Ponto-chave fisiopatológico: A toxina colérica promove uma secreção isotônica maciça de água e eletrólitos no lúmen intestinal, cuja composição é rica em sódio, potássio, cloreto e bicarbonato. Essa perda volêmica pode atingir 1 litro por hora em adultos, levando rapidamente à desidratação hipovolêmica, à acidose metabólica e à hipocalemia. Como a mucosa permanece estruturalmente íntegra, a capacidade absortiva do intestino é preservada — princípio que fundamenta o uso da terapia de reidratação oral.[9][13]

Esse mecanismo explica por que a diarreia colérica é aquosa, volumosa e indolor, com aspecto de "água de arroz", e por que a reposição de fluidos e eletrólitos — e não a erradicação da bactéria — constitui a base do tratamento.[13]

5. Manifestações Clínicas e Classificação da Desidratação

5.1 Espectro clínico

O período de incubação da cólera varia de algumas horas a cinco dias, com média de um a três dias. A maioria das infecções (cerca de 75% a 80%) é assintomática ou cursa com diarreia leve, indistinguível de outras causas de gastroenterite.[3][7] Nos casos sintomáticos, o quadro clássico caracteriza-se por:

  • Diarreia aquosa profusa e indolor, com aspecto de "água de arroz", sem sangue, muco ou pus, de início súbito.[7]
  • Vômitos frequentes, inicialmente com conteúdo alimentar e depois aquosos, que agravam a perda volêmica.[7]
  • Ausência de febre na maioria dos casos e ausência de dor abdominal intensa (embora possa haver cólicas leves).[7]
  • Sinais de desidratação progressiva, que podem evoluir rapidamente para choque hipovolêmico e morte em poucas horas se não tratados.[13]

5.2 Classificação da desidratação

A avaliação do grau de desidratação é fundamental para orientar a conduta terapêutica. A OMS classifica a desidratação em três categorias, associadas aos planos de tratamento A, B e C.[13][14]

Tabela 3 — Classificação da desidratação e planos de tratamento (OMS)
Grau Sinais clínicos Perda volêmica estimada Plano
Sem desidratação Estado geral bom, olhos normais, sede normal, turgor cutâneo preservado < 5% (crianças) / < 3% (adultos) Plano A — SRO domiciliar e orientação
Desidratação leve a moderada Irritabilidade, olhos encovados, sede intensa, turgor cutâneo reduzido (sinal da prega com retorno lento) 5–10% (crianças) / 3–9% (adultos) Plano B — SRO supervisionada (4 horas)
Desidratação grave Letargia ou inconsciência, olhos muito encovados, incapacidade de beber, turgor cutâneo muito reduzido (sinal da prega com retorno muito lento), pulso rápido e fraco, hipotensão > 10% (crianças) / > 9% (adultos) Plano C — Reidratação intravenosa imediata
Sinal de alarme: A presença de choque hipovolêmico — pulso periférico ausente ou muito fraco, hipotensão, extremidades frias, cianose, redução do débito urinário e alteração do nível de consciência — constitui emergência médica e exige reidratação intravenosa imediata.[13]

5.3 Complicações

As principais complicações decorrem da perda volêmica e eletrolítica não corrigida e incluem: choque hipovolêmico, insuficiência renal aguda (por necrose tubular aguda), acidose metabólica grave, hipocalemia, hipoglicemia (especialmente em crianças) e, em casos extremos, óbito. Com tratamento adequado, a letalidade pode ser reduzida para menos de 1%.[13][14]

6. Diagnóstico Laboratorial

O diagnóstico da cólera combina a suspeita clínica e epidemiológica com a confirmação laboratorial. A coleta precoce de amostras de fezes é essencial, preferencialmente antes do início da antibioticoterapia.[15]

6.1 Métodos diagnósticos

  • Exame microscópico direto: a visualização de bacilos Gram-negativos em forma de vírgula, com motilidade em "enxame" (teste de motilidade em campo escuro ou contraste de fase), fornece uma orientação inicial rápida, embora não seja específico.[15]
  • Cultura: considerada o padrão-ouro. As fezes são cultivadas em meios seletivos, como o ágar TCBS (tiosulfato-citrato-bile-sacarose), no qual as colônias de V. cholerae apresentam coloração amarela pela fermentação da sacarose.[15]
  • Testes bioquímicos: identificação da espécie por meio de provas como oxidase (positiva), fermentação de açúcares e reações de aglutinação com antissoros específicos para os sorogrupos O1 e O139.[15]
  • Testes rápidos (dipsticks): testes imunocromatográficos que detectam antígenos de V. cholerae O1/O139 em amostras de fezes, úteis em situações de surto e em locais com recursos laboratoriais limitados, embora exijam confirmação por cultura ou PCR.[15]
  • Métodos moleculares: a reação em cadeia da polimerase (PCR) permite a detecção direta de genes específicos, como ctxA (toxina colérica) e ompW, com alta sensibilidade e especificidade, sendo útil na confirmação e na vigilância genômica.[6][15]
  • Testes de sensibilidade antimicrobiana: recomendados para orientar o tratamento e monitorar a emergência de cepas resistentes.[15]
Tabela 4 — Métodos de diagnóstico laboratorial da cólera
Método Vantagens Limitações
Microscopia direta Rápido, baixo custo Baixa especificidade
Cultura (TCBS) Padrão-ouro, permite antibiograma Demora 18–24 h; requer laboratório
Testes rápidos (dipstick) Rápidos, uso em campo Necessitam confirmação
PCR Alta sensibilidade e especificidade Custo elevado; infraestrutura
Aglutinação sorológica Identificação do sorogrupo Requer antissoros específicos

6.2 Diagnóstico diferencial

A cólera deve ser diferenciada de outras causas de diarreia aquosa aguda, incluindo infecções por Escherichia coli enterotoxigênica, Salmonella spp., Shigella spp., rotavírus, norovírus e outras enterotoxinas. A presença de diarreia aquosa profusa, indolor, com desidratação rápida e história epidemiológica compatível (área endêmica ou surto) deve levantar a suspeita de cólera.[7][15]

7. Tratamento

O tratamento da cólera é simples, altamente eficaz e fundamenta-se na reidratação rápida e adequada. A reposição de fluidos e eletrólitos é a base da terapia e deve ser iniciada imediatamente, antes mesmo da confirmação laboratorial. A antibioticoterapia é complementar e não substitui a reidratação.[13][14]

7.1 Reidratação oral e intravenosa

A escolha da via de reidratação depende do grau de desidratação, conforme os planos A, B e C da OMS:[13][14]

  • Plano A (sem desidratação): manutenção com SRO administrada em casa, após cada evacuação, associada a orientações sobre sinais de alerta e retorno ao serviço de saúde.[14]
  • Plano B (desidratação leve a moderada): administração supervisionada de SRO, geralmente 75 mL/kg nas primeiras 4 horas, com reavaliação periódica. Cerca de 80% dos casos sintomáticos podem ser tratados com sucesso apenas com SRO.[13][14]
  • Plano C (desidratação grave): reidratação intravenosa imediata com solução de Ringer lactato (ou solução salina isotônica), administrada rapidamente até a correção do choque, seguida de reposição de manutenção. A via intravenosa é reservada para pacientes com desidratação grave ou que eliminam mais de 10–20 mL/kg/h.[13][14]

Composição da solução de reidratação oral (SRO) da OMS

A SRO recomendada pela OMS baseia-se no princípio do cotransporte de sódio e glicose, que permanece funcional mesmo durante a diarreia. A formulação padrão de baixa osmolaridade contém, por litro de água potável:[14]

Tabela 5 — Composição da solução de reidratação oral (SRO) da OMS (por litro)
Componente Quantidade Concentração final
Glicose (anidra) 13,5 g 75 mmol/L
Cloreto de sódio (NaCl) 2,6 g 75 mmol/L de Na⁺
Citrato trissódico di-hidratado 2,9 g 10 mmol/L
Cloreto de potássio (KCl) 1,5 g 20 mmol/L de K⁺
Água potável 1 litro 245 mOsm/L

O uso de pacotes pré-medidos e selados de SRO, dissolvidos em 1 litro de água limpa, minimiza erros de preparação e é a forma preferida. Em situações de escassez, soluções caseiras podem ser utilizadas, embora com menor precisão na composição eletrolítica.[14]

7.2 Antibioticoterapia

A OMS recomenda antibióticos apenas para os casos graves, com o objetivo de reduzir o volume e a duração da diarreia, diminuir a perda de fluidos e encurtar o período de eliminação da bactéria, reduzindo a transmissão. A escolha deve considerar a sensibilidade local das cepas e os perfis de segurança para públicos especiais.[13][16]

Tabela 6 — Antibióticos indicados no tratamento da cólera (dose única)
Público 1ª escolha Alternativas
Crianças < 12 anos Azitromicina 20 mg/kg (máx. 1 g, dose única) Doxiciclina 2–4 mg/kg (dose única)* ou Eritromicina
Gestantes Azitromicina 1 g (dose única) Amoxicilina ou Eritromicina
Crianças ≥ 12 anos e adultos não gestantes Doxiciclina 300 mg (dose única) Azitromicina 1 g (dose única) ou Ciprofloxacino 1 g (dose única)

*Nota: O uso de doxiciclina em dose única em pediatria é aceito pela OMS especificamente em surtos epidêmicos graves de cólera quando a azitromicina não estiver disponível.

Em caso de resistência documentada à doxiciclina, recomenda-se azitromicina ou ciprofloxacino em dose única. Os medicamentos antidiarreicos que inibem o peristaltismo são contraindicados, pois podem prolongar a retenção da toxina e agravar o quadro.[16]

Princípio terapêutico: A reidratação é a base do tratamento e salva vidas. O antibiótico é complementar e nunca substitui a reposição de fluidos e eletrólitos. Com reidratação adequada, a letalidade da cólera pode ser reduzida para menos de 1%.[13][14]

8. Prevenção e Controle

A prevenção e o controle da cólera baseiam-se em uma abordagem multissetorial, que combina melhorias estruturais de saneamento e abastecimento de água, educação em saúde, vigilância epidemiológica e vacinação. A longo prazo, o acesso universal à água potável e ao saneamento básico é a medida mais eficaz e sustentável.[3][17]

8.1 Saneamento e água potável

  • Saneamento básico: coleta e tratamento adequados de esgoto, eliminação segura de fezes e proteção de fontes de água contra contaminação fecal.[17]
  • Água potável: garantia de acesso a água tratada, clorada e livre de contaminação; em situações de emergência, uso de métodos de desinfecção domiciliar (cloração, fervura, filtração).[17]
  • Higiene: lavagem das mãos com sabão, especialmente antes de preparar alimentos e após usar o banheiro; manipulação segura de alimentos e cozimento adequado.[17]
  • Segurança alimentar: evitar consumo de alimentos crus ou de procedência desconhecida em áreas de surto, especialmente frutos do mar.[17]

8.2 Vacinas orais contra a cólera (OCV)

As vacinas orais contra a cólera (OCV) são uma ferramenta complementar importante no controle de surtos e na proteção de populações em áreas endêmicas e de alto risco. Atualmente, existem três vacinas orais pré-qualificadas pela OMS:[18][19]

Tabela 7 — Vacinas orais contra a cólera pré-qualificadas pela OMS
Vacina Tipo Esquema Proteção Uso principal
Dukoral® Inativada + subunidade B recombinante (rCTB) 2 doses (7 dias a 6 semanas de intervalo); 3ª dose em crianças de 2–5 anos ~2 anos (eficácia de até 90% no 1º ano) Viajantes
Shanchol™ Inativada, células inteiras bivalente (O1 e O139) 2 doses (mínimo 2 semanas de intervalo) ~3 anos (eficácia de 65% em 5 anos) Campanhas de vacinação em massa
Euvichol® / Euvichol-Plus® Inativada, células inteiras bivalente (O1 e O139) 2 doses (mínimo 2 semanas de intervalo) ~3 anos (mesmo perfil de Shanchol) Campanhas de vacinação em massa

Shanchol™ e Euvichol® são essencialmente a mesma vacina, produzidas por fabricantes diferentes, e não requerem solução-tampão para administração. Ambas são utilizadas em campanhas de vacinação em massa por meio do estoque global de OCV, apoiado pela Gavi, a Aliança para Vacinas. Mais de 100 milhões de doses já foram distribuídas em resposta a surtos e em populações de alto risco.[18][19]

8.3 Vigilância epidemiológica e resposta a surtos

  • Notificação compulsória e imediata de casos suspeitos, com investigação epidemiológica e busca ativa de contatos.[10]
  • Monitoramento da qualidade da água e identificação de fontes de contaminação.[17]
  • Criação de centros de tratamento de cólera em áreas de surto, com isolamento de casos e manejo adequado de fluidos.[13]
  • Educação comunitária sobre higiene, preparo de SRO e sinais de alerta.[17]
  • Vigilância genômica para monitorar a circulação de cepas e a emergência de resistência antimicrobiana.[6]
Estratégia integrada: Nenhuma medida isolada é suficiente. O controle sustentável da cólera exige a combinação de água segura, saneamento, higiene, vacinação e vigilância, com forte articulação entre setores de saúde, infraestrutura e educação.[3][17]

9. Considerações Finais

A cólera permanece um dos maiores desafios de saúde pública do mundo, apesar de ser uma doença plenamente prevenível e tratável. O recrudescimento global observado nos últimos anos, com o maior número de óbitos notificados desde 1999, evidencia a necessidade de reforço das estratégias de vigilância, resposta a surtos e investimento em infraestrutura de saneamento e abastecimento de água.

O conhecimento aprofundado da microbiologia de V. cholerae, do mecanismo molecular da toxina colérica e da fisiopatologia da desidratação é essencial para o manejo clínico adequado. A terapia de reidratação oral, uma das intervenções de saúde pública mais custo-efetivas da história, continua sendo a pedra angular do tratamento, complementada pela antibioticoterapia nos casos graves e pelas vacinas orais em campanhas de prevenção.

No Brasil, a manutenção da capacidade de detecção laboratorial e da vigilância epidemiológica é fundamental, especialmente diante do registro recente de um caso autóctone após 18 anos. A integração entre assistência, vigilância e políticas de saneamento é indispensável para evitar a reintrodução sustentada da doença e proteger as populações mais vulneráveis.

Referências Bibliográficas

Formato: Vancouver (adaptado).

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