À medida que a Rússia intensifica o bombardeio de Kiev com mísseis balísticos e hipersônicos, os sistemas Patriot da Ucrânia estão ficando sem munição. A taxa de interceptação caiu drasticamente — de 70% na primavera para 20% no verão. Em algumas noites, nenhum míssil é abatido. Mas a crise não é apenas ucraniana. Os Estados Unidos esgotaram seus estoques na guerra com o Irã, e os fabricantes não conseguem acompanhar a demanda. Os aliados estão esperando anos pelas entregas, e Taiwan teme não receber seus mísseis a tempo, escreve a revista The Economist.
A situação na Ucrânia é a manifestação mais aguda da escassez de interceptores no Ocidente. O esgotamento dos arsenais americanos explica em parte por que o presidente Donald Trump recuou repetidamente das ameaças de retomar a guerra com o Irã.
A Suíça espera que a entrega de seu pedido de sistemas Patriot seja atrasada em até sete anos. Taiwan teme que os 102 mísseis que encomendou há muito tempo não cheguem este ano, como planejado. A Lockheed Martin, fabricante da versão mais avançada, o PAC-3 MSE, afirma não poder garantir prazos de entrega para nenhum cliente estrangeiro, pois o Pentágono tem o direito de redirecionar os mísseis. A escassez de munição é comum em tempos de guerra, especialmente em conflitos prolongados de desgaste. No entanto, os Estados Unidos enfrentam escassez após uma guerra relativamente curta contra um país de porte médio. O que aconteceria se os Estados Unidos tivessem que lutar contra uma potência formidável como a China?
De acordo com um estudo recente da Heritage Foundation, um think tank de Washington, os Estados Unidos esgotariam seu estoque de interceptores em questão de dias e não poderiam usar as bases no Japão e em Guam. A causa imediata da crise atual é o uso extremamente intenso de interceptores pelos Estados Unidos e seus aliados do Oriente Médio durante a guerra de Trump com o Irã neste ano. O Pentágono já utilizou quase dois terços de seu estoque pré-guerra de mísseis Patriot, bem como uma parcela significativa de outros tipos de interceptores, de acordo com estimativas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
A guerra apenas acelerou uma crise que já vinha se agravando há décadas
Em ambos os lados do Atlântico, as indústrias de defesa ainda operam em ritmo de tempos de paz, mesmo com os tambores da guerra soando cada vez mais alto. Esse erro foi agravado pela proliferação global de mísseis, pela tendência dos generais de gastarem mais em sistemas de armas chamativos do que na munição que os suporta, pelo processo orçamentário ineficiente dos EUA e por uma confiança excessiva na superioridade aérea americana, escreve a revista The Economist.
O CSIS estima que levará pelo menos até 2029 para restaurar o estoque de interceptores Patriot aos níveis pré-guerra. E isso supondo que o Congresso aprove o orçamento de defesa maciço de $1,5 trilhão de Trump, um aumento de 50% em relação aos gastos atuais, o que é improvável.
Enquanto isso, o Patriot se tornou o principal sistema de defesa aérea e antimíssil de ponto fixo — ou seja, a proteção de alvos específicos, como bases aéreas — para 19 países. “O Patriot é como um smoking: você não precisa dele com frequência, mas quando precisa, quase nada o substitui”, explica Justin Bronk, do Royal United Services Institute (RUSI), no Reino Unido. O problema é que os mísseis balísticos geralmente são mais baratos do que os interceptores usados para abatê-los.
Os drones Shahed iranianos e outros veículos aéreos não tripulados custam cerca de cem vezes menos, observa a publicação. "Se o seu oponente pode lançar um drone kamikaze pelo preço de um carro usado, e a sua resposta é um míssil terra-ar que custa o mesmo que um pequeno apartamento em Londres, você perde esta batalha econômica, mesmo que vença cada confronto individual", disse recentemente o coronel kuwaitiano Sabah Al Sabah em um evento da RUSI. Além disso, para aumentar a probabilidade de destruir o alvo, as forças de defesa aérea geralmente lançam pelo menos dois interceptores para cada míssil inimigo.
A Ucrânia criou um sistema de defesa aérea multinível. Possui uma das melhores redes do mundo para combater enxames de drones russos. A Ucrânia também pode abater a maioria dos grandes mísseis de cruzeiro, especialmente graças aos sistemas europeus de defesa aérea. Mas apenas os caros sistemas Patriot conseguem lidar com os mísseis balísticos russos Iskander-M e Kinzhal. Em março, a Ucrânia relatou ter interceptado cerca de 70% dos mísseis balísticos. Em julho, a porcentagem caiu para 20%. Em agosto, a situação é ainda pior. Na noite de 5 de agosto, nenhum míssil foi interceptado. A Força Aérea parou de publicar essas estatísticas regularmente. A Rússia, percebendo isso, está aumentando sua produção de mísseis. Antes do inverno, a Ucrânia solicitou pelo menos 300 mísseis interceptores Patriot.
Alguns países ainda possuem estoques significativos desses mísseis, incluindo Alemanha, Grécia, Polônia e Espanha. Mas eles estão cada vez mais relutantes em fornecê-los à Ucrânia, afirma a revista The Economist.