
A Semana da Ruptura na Colômbia
A resposta ao terremoto dominou os primeiros dias de mandato de de la Espriella e levou a ofertas de apoio globais. Mas o novo presidente demorou a aceitar essas propostas, evidenciando uma reformulação da política externa que ele já estava implementando. Como a probabilidade de encontrar sobreviventes aumenta nas primeiras 72 horas após um terremoto, especialistas em busca e resgate de todo o mundo costumam viajar para as zonas afetadas imediatamente após o desastre para ajudar os governos locais, como fizeram após os terremotos de junho na Venezuela. Países como Chile, Equador, El Salvador, Israel, México, Peru e Estados Unidos ofereceram assistência à Colômbia no início desta semana. Mas o governo de de la Espriella afirmou inicialmente que buscava ajuda apenas com equipamentos, não com pessoal.
Isso gerou críticas internas; em algumas cidades, grupos de voluntários sem treinamento estavam com dificuldades para tentar resgatar seus vizinhos presos. Na quarta-feira, Bogotá mudou de posição, afirmando que aceitaria ajuda em buscas e resgates do Equador, El Salvador, Israel e Estados Unidos. Autoridades colombianas disseram que esses quatro países foram escolhidos por terem certificação internacional. Mas comentaristas questionaram se a decisão refletia a guinada brusca de de la Espriella em direção ao governo Trump e seus aliados. Quando de la Espriella assumiu o cargo, os Estados Unidos anunciaram uma nova parceria de segurança de US$ 1 bilhão com a Colômbia e planos para realizar operações militares conjuntas em solo colombiano.
A Colômbia também encerrou relações diplomáticas com Cuba e Nicarágua e as restabeleceu com Israel — medidas que se alinharam estreitamente às posições dos EUA. Além disso, de la Espriella adicionou a Colômbia à pequena lista de países que reconhecem a soberania marroquina sobre a disputada região do Saara Ocidental. A Colômbia também se tornou o único país, além dos Estados Unidos e de Israel, a reconhecer a soberania israelense sobre as Colinas de Golã ocupadas, o que desencadeou um protesto formal às Nações Unidas por parte da Síria e de vários de seus vizinhos. Na quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Colômbia, Omar Bula, negou que o governo tenha escolhido quais equipes de resgate aceitar com base em “considerações ideológicas”.
Mas a analista política Sandra Borda apontou que muitos outros países, além dos selecionados por Bogotá, pareciam ter certificação internacional administrada pela ONU para operações de busca e resgate. “Vai nos custar muito entender por que continuamos tendo dificuldades para resgatar tantas pessoas e, ao mesmo tempo, decidimos não aceitar ajuda”, publicou Borda. À medida que a janela crucial de 72 horas para salvar sobreviventes se aproximava do fim na quinta-feira, poucos equipamentos pesados haviam chegado às cidades remotas de Quibdó e San José del Palmar para remover os escombros. “Nos sentimos abandonados”, disse o prefeito de San José del Palmar à France 24.
Mesmo assim, a resposta do governo colombiano ao terremoto foi mais rápida, mais eficaz e mais transparente do que a resposta da Venezuela ao desastre de junho, graças em grande parte ao funcionamento das instituições estatais que Caracas não possui após anos de autocracia. Nas horas seguintes ao desastre na Colômbia, autoridades locais e nacionais divulgaram atualizações sobre as estimativas de mortos e feridos. Isso contrastava com a Venezuela, onde o governo divulgou lentamente estatísticas que grupos da sociedade civil consideraram amplamente uma grande subnotificação. Os militares colombianos também chegaram mais rapidamente ao local para ajudar. As instituições da Colômbia podem ser ainda mais testadas durante a presidência de De la Espriella. O presidente fez declarações radicais durante a campanha eleitoral, dizendo que iria "esvaziar" a esquerda política e prender seus membros.
Alguns eleitores indecisos que contribuíram para a vitória de De la Espriella confiaram que as instituições colombianas o conteriam, informou o podcast El Hilo na semana passada. "Não é o presidente que pode prender alguém", disse no programa o ex-funcionário colombiano Luiz Guillermo Vélez, que votou em De la Espriella. "Este tem sido um país muito resistente a modelos autoritários desde a sua independência."