
Entenda: No Vale do Ribeira, no Brasil, a Rede Agroecológica de Mulheres Agricultoras produz uma abundância que não se encontra nos mercados convencionais.
No Vale do Ribeira, no Brasil, a Rede Agroecológica de Mulheres Agricultoras produz uma abundância que não se encontra nos mercados convencionais. Originalmente publicado no Global Voices. Mulheres agricultoras no Brasil. Foto de João Ambrósio/O Joio e O Trigo, usada com permissão. Este artigo foi publicado em 18 de dezembro de 2025 por Patrícia Cornils, do O Joio e O Trigo, um veículo de notícias independente brasileiro.
Um trecho deste artigo está sendo republicado no Global Voices sob um acordo de parceria de conteúdo. Faz parte da série Spotlight de maio de 2026 do Global Voices, “Crise global, soluções locais”. Você pode apoiar esta cobertura doando aqui. Toda última quinta-feira do mês, bem cedinho, um caminhão começa a percorrer a estrada sinuosa entre os morros que liga a cidade de Barra do Turvo, no interior do estado de São Paulo, à rodovia BR-116, que corta o Brasil de nordeste a sul.
A coleta reúne alimentos cultivados e produzidos por cerca de 70 agricultoras locais, organizadas em 11 grupos que formam a Rede de Apoio às Mulheres Agroflorestais, conhecida como Rama. A Rede Ecológica de Mulheres Agricultoras (RAMA) recebeu esse nome em 2019, quatro anos após sua fundação. Foto de João Ambrósio/O Joio e O Trigo, usada com permissão.
Com o amanhecer, o caminhão recolhe as caixas colocadas à beira da estrada por membros da comunidade dos bairros rurais onde vivem as participantes da Rama. Nas caixas vão mudas, farinhas, café, pães, feijões, verduras, legumes e frutas frescas. Ao todo, são cerca de uma tonelada de centenas de variedades de cultivos e dezenas de produtos alimentícios artesanais.
Em fevereiro de 2025, quando visitamos Barra do Turvo, um dos produtos oferecidos era assunto de conversa devido ao aumento dos preços: os ovos. Neste caso, ovos de galinhas caipiras, vendidos por agricultores a R$ 15 (US$ 2,97) a dúzia, enquanto nos supermercados de São Paulo, a mesma dúzia chegava a R$ 19.
Os preços dentro da rede são ajustados apenas uma vez por ano, durante assembleias de produtores e grupos de consumidores, independentemente do aumento dos custos dos alimentos. Isso é possível porque o sistema comercial da organização não se baseia em princípios de mercado. Veja esta publicação no Instagram.
Os fundamentos da Rama são a economia solidária, o feminismo, a agroecologia, a soberania alimentar, a defesa dos territórios e modos de vida das mulheres agricultoras e a luta contra o racismo e todas as formas de violência. Esses princípios também são adotados pela rede de grupos de consumo solidário que compram alimentos da Rama, chamada Esparrama — palavra que, em português, descreve a ação de espalhar ou dispersar que os ramos das plantas realizam ao crescer.
Existem grupos auto-organizados nas cidades de Registro, Diadema e São Paulo. Os acordos operacionais da rede foram desenvolvidos coletivamente para proteger a autonomia das mulheres sobre sua produção. As regras adotadas permitem estabelecer preços justos para compradores e produtores. Um dos segredos da estabilidade de preços em Rama é que “as mulheres locais têm autonomia em relação ao mercado, que está ligado à economia global, às suas flutuações e às especulações do mercado financeiro”, observa Natália Lobo, técnica da equipe da Organização Feminista Sempreviva (SOF), que presta assistência técnica à rede.
“É diferente de ser produtora e precisar comprar fertilizante nitrogenado para plantar, e quando há guerra na Ucrânia, o preço do fertilizante dispara. Outra coisa é ter um sistema de produção bastante autônomo em termos de insumos necessários para o plantio e a criação de animais, com relações muito menos mercantilizadas em comparação com o restante da agricultura convencional”, explica.
Por dentro: Originalmente publicado no Global Voices.
Nilce Pontes, coordenadora da Associação Quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca, afirma: “Em Barra do Turvo, não havia assistência técnica e rural voltada para mulheres agricultoras”. Foto de João Ambrósio/O Joio e O Trigo, usada com permissão. Além disso, se o preço dos ovos subir devido ao aumento do preço do milho, sempre existe a possibilidade de comprar milho dos vizinhos, por meio de relações de cuidado, confiança, interdependência e reciprocidade que também são cultivadas entre as mulheres.
O mesmo se aplica às mudas e sementes, doadas ou trocadas, e ao conhecimento adquirido por meio de suas experiências de plantio em seus quintais. O valor dessas relações não é reconhecido pela economia clássica. Compromisso com as mulheres: “Criamos a Rama para apoiar os direitos das mulheres. Porque havia muitas mulheres que sofriam, muitas Mulheres sem voz, maltratadas pelos maridos, muitas espancadas e sem direito a dinheiro, nada, dependendo apenas do marido, certo.
Isso foi o que veio primeiro. ” Assim explica Dona Dolíria Rodrigues de Paula, moradora do quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca, a origem da rede. No Vale do Ribeira, na divisa entre os estados de São Paulo e Paraná, estende-se a maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil, totalizando 1,7 milhão de hectares.
Ali vivem muitas comunidades tradicionais: quilombolas, indígenas Guarani e Kaingang, e caiçaras. As mulheres que formam a Rama vivem em comunidades rurais de Barra do Turvo, município com 6. 900 habitantes. A maioria trabalha em seus campos e quintais desde a infância, utilizando técnicas de manejo aprendidas com mães, avós, bisavós e mulheres vizinhas.
As mulheres da Rama têm diferentes formas de acesso à terra, ou a falta dele, dependendo de como as comunidades às quais pertencem foram formadas. Além das mulheres quilombolas, vieram algumas pequenas agricultoras de outros estados, e também descendentes de famílias de trabalhadores rurais de Barra do Turvo.
Em 2005, essas comunidades formaram uma associação para buscar auto-reconhecimento como descendentes quilombolas e reivindicação de títulos legais para as terras que habitam. Em Rama, algumas mulheres participam da Pastoral da Criança, organização ligada à Igreja Católica, desde a década de 1980. As mulheres se mobilizaram em resistência contra a apropriação de suas terras por unidades de conservação e pequenos agricultores familiares com pouca ou nenhuma área de cultivo.
Muitas de suas terras foram tomadas por fazendas ou vendidas por anciãos a grandes latifundiários por pouco ou quase nada, e elas enfrentavam conflitos causados pelos ciclos de expansão da monocultura ou da pecuária no município. Os Campos de Diversidade (roças) são áreas normalmente utilizadas para produção específica e temporária: mandioca, milho e feijão.
No modo tradicional de produção, há rotação das espécies plantadas e também rotação entre os locais onde os campos são estabelecidos, para que o solo recupere sua fertilidade. Os quintais são espaços que as mulheres cultivam ao redor de suas casas e administram diariamente. “O quintal é tudo o que está ao redor da nossa casa — tudo o que plantamos, tudo o que temos, tudo o que cultivamos”, diz Dolíria.
“Quase todas as mulheres têm “Uma. ” Dona Claresdina a caminho da colheita de lichias na agrofloresta que circunda sua casa. Foto de João Ambrósio/O Joio e O Trigo, usada com permissão. A diversidade do quintal de Vera não é uma exceção entre as mulheres de Rama. “Os espaços sob o domínio das mulheres têm maior diversidade e maior complexidade de gestão do que os geridos pelos homens”, escreveu, em 2018, Liliam Teles, integrante do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia e membro da Marcha Mundial de Mulheres — em sua dissertação “Revelando a economia invisível das mulheres agricultoras agroecológicas: a experiência das mulheres da Barra do Turvo, SP”.
Síntese: Mulheres agricultoras no Brasil.
Essa diversidade de produção é o ponto de partida para o sistema de compras da Rama, onde o método de comercialização foi criado para acomodar a produção dos agricultores. Mensalmente, eles informam o que colherão em suas hortas e quintais, e os grupos de consumidores fazem seus pedidos com base nessa oferta.
Ao longo de quase 10 anos de comercialização, nunca houve escassez de alimentos ou produtos artesanais processados, como queijos, geleias, biscoitos e bolos. Na produção realizada pelos homens, seja em suas próprias monoculturas ou em terras alheias, a colheita acontece uma vez por ano. Na produção feminina, porém, uma parcela importante alimenta suas famílias, tanto as mais próximas quanto as mais distantes, durante todo o ano.
Um dos acordos entre as agricultoras é o seguinte: Nossa produção se destina, em primeiro lugar, à nossa própria alimentação ou à da família com quem convivemos, à de quem mora em outras cidades, aos filhos, parentes e comadres. Nunca se tira comida da mesa para vender. Cuidado coletivo No Vale do Ribeira, a coletividade faz parte do modo de vida.
Os agricultores daqui sempre organizaram mutirões — momentos de trabalho coletivo para se ajudarem mutuamente no cultivo de suas terras. Rama Foi a primeira organização a realizar esse trabalho comunitário, composta exclusivamente por mulheres, como mostra o documentário “Vida em Mutirão”, e a primeira a incluir o trabalho na cozinha na lista de tarefas executadas, o que não acontecia em mutirões mistos ou coordenados por homens.
As mulheres se escutam mais, tomam mais decisões umas das outras. Elas cuidam melhor umas das outras e estão mais preparadas para respeitar o modo de trabalho de cada mulher. Agricultoras locais de Córrego da Onça. Da esquerda para a direita: Vera Franco de Lima, Zenita de Lima, Simone Rosa, Noeli de Lima, Eliene de Lima e Dilma Rosa de Lima.
Foto de João Ambrósio/O Joio e O Trigo, usada com permissão. Com o tempo, Rama começou a reservar uma porcentagem do dinheiro da comercialização em um fundo que é usado, entre outras coisas, para pagar o transporte das mulheres até os mutirões. Não é incomum, porém, que esses fundos sejam necessários para pagar exames médicos ou medicamentos para uma delas ou um membro da família.
Ou para um membro da comunidade que se endividou para cobrir um tratamento. A falta de acesso à saúde é um dos problemas enfrentados pelas mulheres na região — um sintoma do acesso inadequado às políticas públicas não só na agricultura, mas também em direitos fundamentais. Quando a SOF começou a trabalhar no Vale do Ribeira em 2015, uma das primeiras coisas que as agricultoras disseram foi: “Sabemos plantar — fazemos isso a vida toda.
Precisamos vender nossa produção”. Enquanto tiverem a garantia de permanecer em suas terras, os alimentos saudáveis produzidos agroecologicamente continuarão no campo. O que falta é ampliar o apoio a essa produção, que é inseparável da vida das mulheres, e melhorar a logística para que esses alimentos cheguem às pessoas nas cidades.
Escrito por O Joio e O Trigo.
Fonte original:
In Barra do Turvo, Brazil, women promote biodiversity and harvest healthy food at fair prices
Categorias: Brasil,América Latina, Notícias/Mundo
Marcador: Notícias