Crise na saúde de Alagoas: maternidade suspende atendimentos e HGE enfrenta denúncias de cortes

Crise na saúde de Alagoas: Hospital da Mulher suspende atendimentos e HGE enfrenta denúncias de demissões em massa

Falta de obstetras, desligamentos de profissionais de enfermagem e descontos salariais ampliam a tensão na rede estadual. Enquanto gestantes ficam sem atendimento obstétrico na unidade, sindicatos cobram providências urgentes da Secretaria de Saúde.

A saúde pública de Alagoas vive um dia de preocupação e incerteza. Nesta quinta-feira (5 de novembro), problemas que já vinham sendo denunciados por profissionais da rede estadual ganharam contornos ainda mais graves: o Hospital da Mulher, em Maceió, suspendeu temporariamente os atendimentos obstétricos por falta de médicos, enquanto o Hospital Geral do Estado (HGE) passou a ser alvo de denúncias sobre desligamentos de profissionais de enfermagem e redução de horas de trabalho.

Por trás das notícias estão profissionais que dizem não encontrar condições para continuar trabalhando e pacientes que dependem exclusivamente do atendimento público.

O cenário também envolve um impasse financeiro. Médicos da rede estadual denunciam descontos de 15% nos salários referentes a outubro e começaram a entregar avisos prévios de desligamento. A Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) assumiu o compromisso de devolver os valores, mas, segundo o Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed-AL), ainda não apresentou uma data para o ressarcimento.

Os acontecimentos, registrados entre os dias 3 e 5 de novembro, colocam uma pergunta inevitável: como garantir assistência à população quando os próprios profissionais da rede pública demonstram insegurança para permanecer nos hospitais?


Hospital da Mulher suspende atendimentos obstétricos por falta de médicos
Hospital da Mulher em Maceió suspende atendimentos obstétricos por falta de médicos



A situação mais delicada desta quinta-feira foi registrada no Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, em Maceió.

A unidade comunicou ao Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal) a suspensão temporária dos atendimentos obstétricos a partir das 12h. A justificativa apresentada foi a falta de médicos suficientes para manter a escala de plantão.

Segundo o comunicado da coordenação de Obstetrícia, o hospital contaria com apenas um obstetra durante o período noturno. A equipe considerou insuficiente manter o atendimento nessas condições, diante da necessidade de realizar triagens, acompanhar partos, atender gestantes, puérperas e pacientes internadas, inclusive em situações de maior complexidade.

A preocupação é compreensível. Uma maternidade precisa estar preparada para atender situações simultâneas, algumas delas imprevisíveis e que exigem intervenção médica imediata.

Com a suspensão, foi solicitada a comunicação à Central de Regulação para reorganizar os encaminhamentos e direcionar as pacientes a outras unidades de referência.

O Sinmed-AL lamentou a situação e cobrou da Sesau providências urgentes para recompor a equipe e restabelecer a assistência.

Não se trata apenas de uma dificuldade administrativa. Para uma mulher em trabalho de parto, uma gestante com complicações ou uma família que procura atendimento de emergência, a falta de assistência pode representar momentos de angústia e insegurança. 


HGE: sindicato denuncia desligamento de quase 100 profissionais
HGE: sindicato dos enfermeiros de Alagoas denuncia desligamento de quase 100 profissionais


No Hospital Geral do Estado (HGE), outra denúncia aumentou a preocupação com a capacidade de atendimento da rede pública.

O Sindicato dos Enfermeiros de Alagoas (Sineal) denunciou o desligamento de quase uma centena de profissionais de enfermagem e a redução de mais de 15 mil horas de trabalho.

De acordo com as informações divulgadas, parte dos trabalhadores teria sido comunicada sobre o desligamento por telefone. O sindicato também questiona a forma como as medidas foram conduzidas e aponta possíveis prejuízos à organização das equipes.

A entidade afirma que a redução atingiu setores considerados críticos, incluindo as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), onde pacientes em estado grave dependem de acompanhamento permanente.

O alerta é especialmente preocupante porque a enfermagem não é um serviço complementar dentro de um hospital. São esses profissionais que acompanham os pacientes, administram medicamentos, monitoram alterações clínicas e prestam cuidados indispensáveis durante todo o período de internação.

O Conselho Regional de Enfermagem de Alagoas (Coren-AL) também manifestou preocupação com os desligamentos. A entidade alertou que a redução das equipes pode provocar sobrecarga de trabalho e comprometer a segurança dos pacientes.

O conselho informou que pretende adotar medidas junto aos órgãos competentes para acompanhar a situação. 

Médicos denunciam desconto de 15% nos salários e entregam avisos de desligamento

A insatisfação dos médicos da rede estadual também chegou a um ponto delicado.

Segundo o Sinmed-AL, profissionais identificaram descontos de aproximadamente 15% nos salários referentes a outubro. Desde terça-feira (3), o sindicato começou a receber comunicados de médicos que formalizaram avisos prévios de desligamento nos hospitais onde trabalham.

A entidade afirma que a Sesau encaminhou um documento assumindo o compromisso de devolver integralmente os valores descontados. O problema é que, até a manifestação divulgada nesta quinta-feira, não havia uma data definida para o pagamento.

A presidente do Sinmed-AL, Sílvia Melo, cobrou o cumprimento do compromisso e alertou para o risco de novas saídas.

O sindicato teme que a situação comprometa o funcionamento de diferentes hospitais, especialmente com a aproximação do final do ano.

A Secretaria, por sua vez, informou que mantém diálogo com a representação médica e reafirmou o compromisso de regularizar e devolver integralmente os valores, observando os procedimentos administrativos necessários. 


O que está em jogo é o atendimento de quem mais precisa

Os acontecimentos desta quinta-feira mostram que a crise não pode ser tratada apenas como uma divergência entre sindicatos e administração pública.

Quando uma maternidade precisa suspender atendimentos por falta de médicos, quando profissionais de enfermagem são desligados e quando médicos questionam descontos em seus salários, a preocupação ultrapassa os limites das categorias.

Ela chega diretamente às famílias.


É a gestante que precisa encontrar uma maternidade funcionando. É o paciente internado em uma UTI que depende de uma equipe completa. É a família que procura o HGE em uma situação de emergência e espera encontrar profissionais suficientes para prestar assistência.

Essas pessoas não têm obrigação de conhecer os detalhes dos contratos, os critérios de pagamento ou as decisões administrativas. Elas precisam de algo muito mais básico: encontrar atendimento quando precisam.

A Sesau precisa esclarecer quantos profissionais foram desligados, como pretende recompor as equipes, quando devolverá os valores descontados dos médicos e quais providências estão sendo adotadas para restabelecer o atendimento obstétrico no Hospital da Mulher.

Também é necessário que a direção do HGE apresente esclarecimentos sobre as denúncias do Sineal e demonstre se o dimensionamento das equipes continua adequado à demanda hospitalar.

Uma coisa precisa ficar clara: a população não pode ser transformada em vítima de conflitos administrativos, cortes de pessoal ou impasses financeiros.

A saúde pública não pode funcionar na base da improvisação. Por trás de cada plantão existe um profissional e, por trás de cada atendimento, existe uma pessoa que precisa de cuidado.

Em Alagoas, o que se espera agora não são apenas notas de esclarecimento. São providências concretas.
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