Quando a liberdade de expressão tem um preço: vozes da juventude em Moçambique

✍️ Redação AR NEWS 24H ⏱️ 5 min de leitura
Quando a liberdade de expressão tem um preço: vozes da juventude em Moçambique

Em Moçambique, a liberdade de expressão é regulamentada pela Lei do Direito à Informação n.º 34/2014, um direito constitucionalmente garantido pelo artigo 48.º da Constituição da República de Moçambique. Contudo, para muitos jovens, falar publicamente sobre corrupção, desigualdade, violência policial ou responsabilização continua representando um risco, evidenciando o descompasso entre as promessas da democracia e a realidade quotidiana.

Na música, por exemplo, essa contradição é evidente. Nas últimas duas décadas, o hip-hop tornou-se um espaço fundamental para a juventude urbana expressar críticas sociais, particularmente na capital, Maputo. Mais do que um simples gênero musical, o hip-hop se transformou em uma forma de documentar as preocupações de uma geração que cresceu, por um lado, com a democratização política e o multipartidarismo do início dos anos 1990, mas, por outro, com o alto índice de desemprego juvenil, as desigualdades econômicas e a crescente desconfiança nas instituições públicas, lideradas pelo partido governista FRELIMO.

Por meio de narrativas musicais, grupos como o GPRO e artistas como Azagaia criaram uma linguagem que refletia as experiências cotidianas das pessoas em espaços públicos e institucionais. Talvez a questão que Azagaia levanta na canção "O ciclo da Censura" (Ciclo da Censura) permaneça relevante: Quem disse que neste país existe liberdade de expressão? Não se trata apenas de um comentário artístico provocativo. É uma reflexão sobre as condições materiais e políticas que determinam quem pode falar, sobre o quê e com quais consequências.

Novas formas de cidadania

A juventude moçambicana tem reinventado formas de participação política. Enquanto durante muitos anos a cidadania esteve fortemente associada a partidos políticos e organizações estatais, hoje ela também se manifesta em outras organizações, como coletivos feministas como o Fórum das Mulheres, plataformas digitais de monitoramento da governança local, associações culturais e iniciativas artísticas. Essa mudança aponta para uma geração que não aceita que a política se limite às eleições e reivindica o direito de participar continuamente na construção dos espaços públicos.

No entanto, essas novas formas de participação frequentemente entram em conflito com as autoridades, que continuam encarando os protestos como uma ameaça à ordem pública. Um dos eventos mais marcantes ocorreu em 2016, quando organizações feministas foram às ruas protestar contra a proibição do uso de minissaias em escolas públicas. A medida foi apresentada como uma resposta ao assédio sexual, mas insinuava que as escolhas de vestuário das estudantes eram a causa do sofrimento que elas vivenciavam.

Ao responsabilizar as jovens em vez dos agressores, o debate revelou algo mais profundo: a disputa pelo controle do corpo feminino e o direito das jovens de definirem sua própria identidade. Durante as manifestações, a ativista espanhola Eva Anadón Moreno foi detida e posteriormente expulsa de Moçambique por participar do protesto.

O silêncio também é político

Nos últimos anos, a censura em Moçambique raramente se manifestou na forma de proibições explícitas. Contudo, isso não significa que o medo e a autocensura estejam totalmente ausentes. Em uma entrevista de 2010, Azagaia observou que o maior obstáculo à liberdade de expressão em Moçambique não era necessariamente a intimidação policial direta, mas sim a precariedade económica. Quando muitas oportunidades de emprego dependem, direta ou indiretamente, de relações com estruturas de poder estabelecidas, a crítica pública pode colocar as pessoas em risco.

Um grupo de homens durante um protesto pacífico; um deles segura um microfone e uma faixa. Foto tirada por Stephanie Douglas. Nigéria. Via Pexels. Licença Pexels.
Um grupo de homens durante um protesto pacífico; um deles segura um microfone e uma faixa. Foto tirada por Stephanie Douglas. Nigéria. Via Pexels. Licença Pexels.

Jornalistas evitam certos tópicos, artistas moderam o que dizem, autoridades públicas mantêm suas opiniões em segredo e jovens ativistas aprendem que as palavras podem ter um alto preço. A liberdade, então, deixa de ser meramente uma questão legal e se torna uma questão de sobrevivência. Nesse contexto, a música de protesto assume um valor político particular. Ela rompe o silêncio coletivo e desenvolve comunidades de reconhecimento mútuo, onde experiências de injustiça encontram linguagem, memória e solidariedade.

A miragem da liberdade de expressão

A Constituição moçambicana afirma o direito de todos os cidadãos à liberdade de expressão e de opinião. Mas uma democracia não se mede apenas pelos direitos no papel, mas também pelas condições reais em que estes podem ser exercidos. A ilusão da liberdade reside nesta contradição: pede-se aos cidadãos que acreditem que podem falar livremente, enquanto mecanismos informais de vigilância, estigmatização e exclusão limitam a participação no espaço público. Não é necessário proibir todas as vozes; basta tornar os custos da dissidência intimidantemente elevados, como, por exemplo, o aumento das tarifas de telecomunicações acima do custo real.

Nesse contexto, o ativismo juvenil simboliza essa ambivalência. Ele amplifica vozes historicamente marginalizadas e as torna mais visíveis. Quanto maior a capacidade de um artista, ativista ou coletivo juvenil de mobilizar pessoas, maior o risco de intimidação, desinformação ou isolamento econômico.

Amplificando as vozes da juventude

Apesar dos desafios, os jovens continuam criando novas formas de esperança política. A arte, a música e o ativismo digital demonstram que a cidadania não é apenas um estatuto legal, mas uma prática diária de participação, imaginação e resistência. O verdadeiro desafio de proteger os moçambicanos não reside apenas na liberdade de expressão consagrada na Constituição, mas sim na criação de condições para que todos a exerçam sem receio de represálias económicas, sociais ou políticas. A questão fundamental para Moçambique não é apenas se os jovens podem falar, mas se podem falar sem pôr em risco a sua segurança, o seu emprego ou a sua capacidade de participar na vida pública.

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