Após as urnas, Governo de Alagoas inicia rodada de exonerações de comissionados e terceirizados
Relatos de servidores apontam avisos de desligamento em várias pastas estaduais dias após a derrota de Renan Filho; estado tem 9,2% de desocupação
Passadas as eleições do dia 4 de outubro, o Governo de Alagoas entrou em um movimento de desligamentos de servidores comissionados e terceirizados que atinge diversas secretarias e órgãos estaduais. A onda de cortes, registrada em publicações do Diário Oficial do Estado e confirmada por relatos de próprios trabalhadores, começou poucos dias após a derrota do senador Renan Filho (MDB) para JHC (PSDB) na disputa pelo Palácio República dos Palmares, vencida pelo tucano ainda no primeiro turno.
![]() |
| Com desemprego em 9,2%, Alagoas vê exonerações em massa no funcionalismo estadual |
“A ordem é cortar”
Segundo relatos de servidores de diferentes pastas, os avisos de exoneração e demissão começaram a circular imediatamente após o resultado das urnas. A orientação interna, segundo os próprios atingidos, é “cortar” com força, o que em algumas secretarias se traduz em desligamentos em massa. Com os avisos dados, muitas repartições já operariam em “modo avião”, com funcionários dispensados de comparecer ao serviço.
O timing surpreendeu os próprios servidores. A expectativa era de que as exonerações ocorressem apenas em dezembro, no encerramento da gestão do governador Paulo Dantas (MDB), cujo mandato termina com a posse do governador eleito em 6 de janeiro de 2027. O corte antecipado reduz o tempo de organização financeira dos trabalhadores atingidos.
Entre os relatos, há o de um terceirizado que afirma ter trabalhado de graça na campanha de Renan Filho, inclusive em caminhadas, caravanas e panfletagens, e ter recebido o aviso de demissão dois dias depois da eleição. “Não só não recebi, como até paguei para trabalhar e, dois dias depois da eleição, a demissão foi o que recebi como agradecimento. Foi uma covardia!”, contou o trabalhador, que preferiu não se identificar.
Corte de gastos e transição
Oficialmente, os desligamentos se encaixam em um esforço de redução de despesas da máquina estadual e de preparação da transição administrativa para o próximo governo. Os cargos comissionados e os contratos de terceirização, por não contarem com vínculo estatutário, podem ser encerrados a qualquer momento, sem os trâmites de um processo disciplinar.
Para servidores públicos efetivos que desejam se desligar voluntariamente, o procedimento padrão no estado envolve a abertura de processo administrativo de exoneração, com requerimento de firma reconhecida e declaração da chefia imediata por meio do Portal Alagoas Digital.
Retaliações políticas
Além da lógica financeira, relatos de bastidores apontam um componente político nos cortes. As dispensas teriam alcançado indicações de aliados que não acompanharam a base governista durante a campanha, incluindo profissionais lotados em hospitais e outros órgãos públicos. A percepção entre os atingidos é de que a “corda arrebenta sempre do lado mais fraco”: os cargos sem estabilidade absorvem primeiro o custo da derrota eleitoral e dos ajustes do fim de gestão.
Cenário trabalhista
O movimento de cortes acontece em um estado com um dos piores indicadores de emprego do país. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de desocupação em Alagoas ficou em 9,2% no primeiro trimestre de 2026, o que corresponde a cerca de 121 mil pessoas desocupadas, uma elevação em relação aos 8,0% do quarto trimestre de 2025.
Na Justiça do Trabalho, o Tribunal Regional do Trabalho da 19ª Região (TRT-19) tem sido acionado em casos de dispensas coletivas e rescisões irregulares no estado. Um exemplo recente veio do Centro Sportivo Alagoano (CSA), que teve negado recurso de revista e mantida condenação por danos morais a funcionário dispensado durante protesto, em um episódio marcado por demissão coletiva na presença de seguranças armados. O caso ilustra a atenção crescente da Justiça laboral alagoana a desligamentos feitos com constrangimento no ambiente de trabalho.
O que vem a seguir
A tendência, avaliam interlocutores do funcionalismo, é de que novos lotes de exoneração sejam publicados no Diário Oficial nas próximas semanas, à medida que a gestão Paulo Dantas encerra contratos e o governo eleito organiza a estrutura de transição. Para os comissionados e terceirizados que permanecem, o período até 6 de janeiro de 2027 segue marcado por incerteza sobre a continuidade dos cargos.
Reportagem baseada em dados públicos e relatos de servidores. Cargos comissionados e contratos de terceirização não possuem garantia de permanência prevista em lei.
