Escorpiões reaparecem no HGE, no setor de Terapia Ocupacional, e reacendem alerta sobre estrutura negligenciada
Animais voltaram a ser encontrados nessa semana em área de atendimento da unidade, em Maceió; Vigilância Sanitária esteve no hospital há poucos meses, mas, segundo relatos obtidos pela reportagem, os problemas persistem.
Por Redação AR NEWS 24H
Maceió (AL)
Escorpiões voltaram a aparecer no Hospital Geral do Estado Professor Osvaldo Brandão Vilela (HGE), em Maceió, desta vez no setor de Terapia Ocupacional da unidade. O reaparecimento dos animais, registrado em imagens obtidas pela reportagem do AR NEWS 24H, reacende a discussão sobre as condições estruturais de uma área descrita por servidores e usuários como negligenciada pela atual direção do hospital.
Estrutura negligenciada: por que o reaparecimento de escorpiões no HGE é um alerta sanitário
As fotografias mostram dois momentos distintos. Na primeira, o registro é da sinalização do setor: uma placa de identificação afixada na parede com os dizeres "TERAPIA OCUPACIONAL" e "FISIOTERAPIA". Na segunda, um escorpião de coloração marrom-amarelada aparece capturado dentro de um saco plástico transparente, seguro por uma pessoa, no que parece ser um corredor interno do hospital, com piso de granilite e paredes claras.
O achado não é um episódio isolado na percepção de quem circula pela unidade. Segundo relatos de servidores e de acompanhantes de pacientes ouvidos pela reportagem, a presença de escorpiões em áreas assistenciais do HGE deixou de ser novidade há algum tempo — e voltou a ocorrer agora, no setor de Terapia Ocupacional.
Vigilância Sanitária esteve no hospital, mas problemas persistem
Há poucos meses, a Vigilância Sanitária esteve no HGE. A visita, no entanto, aparentemente não resolveu a questão: segundo os relatos obtidos pela reportagem, as medidas adotadas desde então não foram suficientes para eliminar a presença dos animais nem para sanar as condições estruturais que favorecem o seu aparecimento.
A reportagem questiona o reaparecimento dos escorpiões, as medidas de controle adotadas, o resultado da última inspeção sanitária e o prazo para adequação da estrutura.O espaço permanece aberto para manifestações e eventuais esclarecimentos, que serão incorporados ao texto caso sejam enviados.
Por que o escorpião preocupa dentro de um hospital
O escorpionismo é um problema de saúde pública de dimensão nacional. Os acidentes por animais peçonhentos integram, desde agosto de 2010, a Lista de Notificação Compulsória do país — inclusão formalizada pela Portaria nº 2.472, de 31 de agosto de 2010, e ratificada pela Portaria nº 104, de 25 de janeiro de 2011 —, o que obriga o registro de cada caso no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. É a partir dessas notificações que a vigilância epidemiológica calcula o quantitativo de soros antivenenos a ser distribuído às unidades federadas e define os pontos estratégicos de atendimento.
No Brasil, as espécies de escorpiões com importância em saúde pública pertencem ao gênero Tityus. O Ministério da Saúde cita quatro delas: Tityus serrulatus, Tityus bahiensis, Tityus stigmurus e Tityus obscurus. É o T. stigmurus, o escorpião-amarelo-do-nordeste, que predomina na região Nordeste — e, portanto, o mais provável de ser encontrado em Alagoas. Seu veneno é neurotóxico e pode provocar, além da dor intensa no ponto da picada, manifestações sistêmicas como sudorese, vômitos, salivação e agitação.
O risco se concentra em grupos específicos. Crianças e idosos são apontados pelos protocolos como os mais vulneráveis a quadros graves, ao lado de pessoas com comorbidades. O próprio governo de Alagoas reforça essa orientação: em material divulgado pela Sesau, o médico veterinário Clarício Bugarim destaca que, embora a maioria dos acidentes seja classificada como leve, a busca por atendimento deve ser imediata justamente porque "o quadro pode evoluir com manifestações mais graves" em crianças, idosos e pessoas com comorbidades.
Um hospital é, por definição, um ambiente de risco ampliado. Reúne pessoas acamadas, com mobilidade reduzida, muitas delas idosas ou com o sistema imunológico comprometido — população que tem dificuldade de reagir rapidamente a uma picada e que, em caso de acidente, já está dentro de uma unidade de saúde, mas nem sempre com acesso imediato ao soro específico. É essa combinação que transforma a presença de escorpiões em área assistencial num problema que vai além do desconforto: trata-se de risco sanitário.
O que fazer em caso de picada
As orientações oficiais são objetivas. O primeiro passo é lavar o local da picada com água e sabão e buscar atendimento de saúde imediatamente, indo ao serviço mais próximo. Quando possível, é recomendável levar o animal — ou uma foto dele — para que a equipe identifique a espécie e avalie a gravidade com mais precisão.
O que não se deve fazer é igualmente importante, e a lista é repetida pelos protocolos: não fazer torniquete nem garrote; não cortar, furar ou tentar sugar o veneno; não colocar gelo ou água fria no local; não aplicar álcool, querosene, fumo ou pó de café; e não ingerir bebida alcoólica após o acidente. A aplicação de compressa morna no local é admitida como medida de alívio, sem substituir o atendimento.
O tratamento específico, quando indicado, é feito com soro antiescorpiônico — ou, na sua falta, com soro antiaracnídico —, obrigatoriamente em ambiente hospitalar e sob supervisão médica. Não é todo acidente que exige o soro: a indicação, restrita a casos moderados ou graves, cabe ao profissional de saúde.
Prevenção depende de estrutura, não só de dedetização
O controle de escorpiões não se resolve com uma aplicação pontual de inseticida. Os especialistas são unânimes em apontar que a medida tem eficácia limitada e que o enfrentamento depende, sobretudo, do manejo ambiental: eliminar o acúmulo de lixo, entulho e folhas secas; vedar frestas, buracos e ralos; instalar telas em ralos, pias e tanques; afastar camas e berços das paredes; evitar roupas e lençóis encostados no chão; e combater insetos, especialmente baratas, que servem de alimento aos escorpiões.
Essas recomendações, divulgadas pela própria Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas, apontam para uma conclusão incômoda quando aplicadas a um hospital: escorpião não aparece onde não há abrigo nem alimento. Frestas abertas, forros danificados, entulho acumulado e falhas de vedação são exatamente o tipo de condição que transforma um ambiente construído em criadouro. Sem intervenção estrutural, a captura de animais tende a ser paliativa — e o problema, recorrente.
Segundo os relatos obtidos pela reportagem, é esse o quadro do setor de Terapia Ocupacional do HGE: uma área que, na avaliação de quem a frequenta, acumula problemas de manutenção e carece de atenção da direção da unidade. A reportagem não localizou, até a publicação, registro público que confirme a existência de um plano de manejo de animais peçonhentos em execução no hospital.
O que diz a legislação
A legislação sanitária brasileira trata a questão como obrigação do poder público, não como eventualidade. A Lei nº 8.080/1990, que organiza o Sistema Único de Saúde, estabelece a saúde como direito fundamental e define, entre os princípios do SUS, a universalidade de acesso, a integralidade da assistência e a igualdade, sem preconceitos ou privilégios. A Lei nº 8.142/1990 completa o arranjo ao dispor sobre a participação da comunidade na gestão do sistema e sobre as transferências de recursos entre as esferas de governo.
No plano sanitário, as vigilâncias — a epidemiológica e a sanitária — têm papéis distintos e complementares. À primeira cabe detectar, notificar e monitorar agravos, dimensionando insumos como os soros antivenenos. À segunda cabe fiscalizar as condições de funcionamento dos estabelecimentos de saúde, identificar riscos e exigir adequação, com prazo e, se necessário, autuação. Quando a fiscalização ocorre e o problema retorna, a pergunta que se impõe é sobre a efetividade das medidas determinadas e sobre o acompanhamento do seu cumprimento.
SERVIÇO — Onde buscar atendimento e o que fazer
Em caso de picada de escorpião:
1. Lave o local com água e sabão.
2. Procure imediatamente o serviço de saúde mais próximo.
3. Se possível, leve o animal ou uma foto para identificação da espécie.
4. Não faça torniquete ou garrote; não corte, fure ou sugue o local; não use gelo, álcool, querosene, fumo ou pó de café.
5. O soro antiescorpiônico, quando indicado, é aplicado em ambiente hospitalar, sob supervisão médica.
Prevenção no ambiente:
- Elimine acúmulo de lixo, entulho e folhas secas.
- Vede frestas, buracos e ralos; instale telas em ralos, pias e tanques.
- Afaste camas e berços das paredes.
- Sacuda roupas e calçados antes de usar.
- Combata insetos, especialmente baratas.
Canais de denúncia e fiscalização:
- Ouvidoria da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas (Sesau) — relatos sobre condições de atendimento e estrutura das unidades estaduais.
- Vigilância Sanitária municipal ou estadual — notificações sobre risco sanitário em estabelecimentos de saúde.
- Ministério Público de Alagoas (MPAL)— representações sobre violação do direito à saúde.
- Conselho Regional de Medicina de Alagoas (CREMAL) — quando houver indício de falha ética ou de estrutura que comprometa a assistência.
Sobre esta matéria: as informações sobre o reaparecimento dos escorpiões no setor de Terapia Ocupacional do HGE são atribuídas a relatos de servidores e acompanhantes e às imagens obtidas pela reportagem. As orientações de saúde pública foram extraídas de material oficial do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde de Alagoas.
