Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): etiologia priônica, epidemiologia, diagnóstico e manejo de uma encefalopatia espongiforme transmissível
Revisão narrativa sobre a mais frequente das encefalopatias espongiforme transmissíveis humanas
Resumo
A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é a mais frequente das encefalopatias espongiforme transmissíveis (EET) humanas — um grupo de doenças neurodegenerativas raras, progressivas e invariavelmente fatais, causadas pela conversão conformacional de uma proteína priônica celular normal (PrPC) em uma isoforma patogênica e autopropagável (PrPSc). A DCJ apresenta-se sob quatro formas principais: esporádica (cerca de 85% dos casos), genética ou familiar (5% a 15%), iatrogênica (menos de 1%) e variante (vDCJ), esta última associada ao consumo de produtos bovinos contaminados pelo agente da encefalopatia espongiforme bovina. A incidência global estimada é de aproximadamente 1 a 2 casos por milhão de habitantes por ano, com predomínio em adultos acima de 55 anos. O quadro clínico caracteriza-se por demência rapidamente progressiva acompanhada de mioclonia, sinais cerebelares, piramidais e extrapiramidais e mutismo acinético, com sobrevida mediana de 4 a 5 meses após o início dos sintomas. O diagnóstico apoia-se em critérios clínicos e em exames complementares — eletroencefalograma, ressonância magnética, biomarcadores no líquido cefalorraquidiano (proteína 14-3-3, tau total) e, de forma destacada, a técnica de amplificação de proteína RT-QuIC —, sendo a confirmação definitiva obtida por neuropatologia. Não existe tratamento modificador da doença; o manejo é paliativo e centrado no controle de sintomas e no suporte ao paciente e à família. A prevenção baseia-se em medidas de biossegurança, vigilância epidemiológica e notificação compulsória.
Palavras-chave: Doença de Creutzfeldt-Jakob; Príons; Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis; Demência Rapidamente Progressiva; RT-QuIC; Saúde Pública.
Abstract
Creutzfeldt-Jakob disease (CJD) is the most common human transmissible spongiform encephalopathy (TSE) — a group of rare, progressive and invariably fatal neurodegenerative disorders caused by the conformational conversion of the normal cellular prion protein (PrPC) into a pathogenic, self-propagating isoform (PrPSc). CJD occurs in four main forms: sporadic (about 85% of cases), genetic or familial (5%–15%), iatrogenic (less than 1%) and variant (vCJD), the latter linked to the consumption of bovine products contaminated with the bovine spongiform encephalopathy agent. The estimated global incidence is approximately 1 to 2 cases per million inhabitants per year, predominantly in adults over 55 years of age. The clinical picture is characterized by rapidly progressive dementia accompanied by myoclonus, cerebellar, pyramidal and extrapyramidal signs and akinetic mutism, with a median survival of 4 to 5 months after symptom onset. Diagnosis relies on clinical criteria and ancillary tests — electroencephalogram, magnetic resonance imaging, cerebrospinal fluid biomarkers (14-3-3 protein, total tau) and, notably, the RT-QuIC protein amplification assay — with definitive confirmation obtained by neuropathology. No disease-modifying treatment exists; management is palliative and focused on symptom control and patient and family support. Prevention relies on biosafety measures, epidemiological surveillance and compulsory notification.
Keywords: Creutzfeldt-Jakob Disease; Prions; Transmissible Spongiform Encephalopathies; Rapidly Progressive Dementia; RT-QuIC; Public Health.
![]() |
| Creutzfeldt-Jakob: O Relógio Biológico de uma Demência que Avança em Meses |
1. Introdução
A doença de Creutzfeldt-Jakob foi descrita pela primeira vez na década de 1920, a partir das observações dos neurologistas alemães Hans Gerhard Creutzfeldt e Alfons Maria Jakob, e permanece, um século depois, como um dos capítulos mais intrigantes da neurologia e da biologia molecular [1]. Trata-se de uma doença priônica humana — também denominada encefalopatia espongiforme transmissível (EET) —, caracterizada por neurodegeneração progressiva, curso inexoravelmente fatal e um mecanismo patogênico singular, no qual o agente infeccioso é desprovido de ácido nucleico e constituído essencialmente por uma proteína mal dobrada [2].
O interesse científico e sanitário pela DCJ intensificou-se a partir da década de 1990, quando a epidemia de encefalopatia espongiforme bovina (EEB) no Reino Unido e o subsequente surgimento da forma variante da doença (vDCJ) demonstraram, de maneira dramática, o potencial zoonótico e transmissível dos príons [3]. Esse episódio redefiniu políticas de saúde pública, motivou a criação de redes internacionais de vigilância e impulsionou o desenvolvimento de métodos diagnósticos cada vez mais sensíveis e específicos [4].
A relevância clínica da DCJ reside em sua posição como uma das principais causas de demência rapidamente progressiva, um grupo de condições que exige investigação diagnóstica ágil e criteriosa. Embora rara, a doença impõe desafios substanciais: a dificuldade de diagnóstico precoce, a ausência de terapia modificadora, o impacto devastador sobre pacientes e familiares e a necessidade de rigorosas medidas de biossegurança em ambientes de assistência à saúde [5].
Este artigo tem por objetivo oferecer uma revisão abrangente e atualizada da DCJ, contemplando sua etiologia e classificação, os agentes etiológicos, a epidemiologia global e brasileira, a fisiopatologia, as manifestações clínicas, o diagnóstico — com destaque para os biomarcadores contemporâneos —, o diagnóstico diferencial, o tratamento e os cuidados paliativos, além das estratégias de prevenção, controle e vigilância epidemiológica.
2. Etiologia e Classificação
A DCJ é classificada, conforme a origem do processo patogênico, em quatro formas principais: esporádica, genética (familiar), iatrogênica e variante. Essa classificação tem implicações clínicas, epidemiológicas e de saúde pública, uma vez que cada forma apresenta características demográficas, mecanismos de transmissão e perfis de risco distintos [1][6].
| Forma | Proporção aproximada | Mecanismo | Características gerais |
|---|---|---|---|
| Esporádica (sDCJ) | ~85% | Mau dobramento espontâneo da PrPC, sem causa ou fonte infecciosa conhecida | Sem padrão de transmissão reconhecível; sem relação com história familiar, consumo de carne ou viagens; idade média ~65 anos |
| Genética / Familiar (gDCJ) | 5%–15% | Mutações hereditárias no gene PRNP que codifica a proteína priônica | Indistinguível clinicamente da forma esporádica; diagnóstico depende de teste genético; início geralmente mais precoce (~50 anos) |
| Iatrogênica (iDCJ) | <1% | Exposição acidental à PrPSc em procedimentos médicos | Instrumentos neurocirúrgicos, eletrodos intracerebrais, enxertos de dura-máter, córnea, hormônio de crescimento de cadáver |
| Variante (vDCJ) | Casos raros e decrescentes | Consumo de produtos bovinos contaminados pelo agente da EEB | Descrita em 1996 no Reino Unido; predomínio em adultos jovens; curso clínico mais prolongado |
2.1 Forma esporádica
A forma esporádica é responsável por aproximadamente 85% dos casos confirmados em todo o mundo. Não apresenta causa ou fonte infecciosa conhecida, tampouco padrão de transmissibilidade reconhecível, e não se correlaciona com história familiar da doença, consumo de carne ou viagens internacionais. Também não está associada a um padrão socioeconômico ou geográfico específico. Acomete geralmente pessoas com idade média de 65 anos, embora já tenham sido relatados casos em indivíduos entre 14 e 92 anos [6].
2.2 Forma genética (familiar)
Correspondendo a cerca de 5% a 15% dos casos mundiais, a forma genética decorre de mutações hereditárias no gene PRNP, que codifica a proteína priônica. Clinicamente, não é possível diferenciar a DCJ hereditária da esporádica; apenas o teste genético para detecção da mutação pode orientar o diagnóstico, complementado pela avaliação de vínculo familiar. Frequentemente, a forma hereditária é diagnosticada em idade mais precoce (cerca de 50 anos), com demência de instalação mais tardia e curso mais longo do que o observado na forma esporádica. Ressalta-se que nem todas as pessoas portadoras de mutações no gene desenvolverão a doença [6]. Entre as mutações mais estudadas destacam-se a E200K, associada a agrupamentos familiares em populações específicas, e variantes como V180I e V210I, descritas em determinadas regiões [4].
2.3 Forma iatrogênica
A forma iatrogênica pode ser adquirida pela exposição à proteína priônica anormal (PrPSc) e é responsável por menos de 1% dos casos conhecidos mundialmente. A transmissão pode ocorrer por procedimentos invasivos — instrumentos e equipamentos cirúrgicos contaminados (como instrumentos neurocirúrgicos ou eletrodos intracerebrais), transplantes de córnea ou de meninges (enxertos de dura-máter) — ou pela administração de hormônios de crescimento extraídos de hipófise de cadáveres e de gonadotrofinas cadavéricas. Os sinais e sintomas são semelhantes aos da forma esporádica. A transmissão pode ser evitada pela implementação de práticas adequadas de biossegurança, uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e Coletiva (EPC) e procedimentos rigorosos de desinfecção [6].
2.4 Forma variante
A forma variante (vDCJ) foi identificada em 1996, no Reino Unido, e está causalmente relacionada ao consumo de produtos bovinos contaminados pelo agente da encefalopatia espongiforme bovina (a chamada "doença da vaca louca") [3]. Diferentemente da forma clássica, a vDCJ acomete preferencialmente adultos jovens e apresenta curso clínico mais prolongado, com proeminência de sintomas psiquiátricos e sensitivos no início. A epidemia atingiu seu pico entre 1998 e 2003 e declinou acentuadamente após a implementação de medidas de controle da EEB na cadeia alimentar [4].
A DCJ clássica não está relacionada à EEB; a associação com o agente bovino é característica exclusiva da forma variante. Essa distinção é fundamental para a interpretação de critérios diagnósticos e para a vigilância epidemiológica [1].
3. Agentes Etiológicos: os Príons
A causa e a transmissão da DCJ estão diretamente ligadas a uma partícula proteica infecciosa denominada príon (do inglês proteinaceous infectious particle). Os príons são agentes infecciosos de tamanho menor que os vírus, formados apenas por proteínas altamente estáveis e resistentes a diversos processos físico-químicos [6]. A hipótese do "príon", formulada por Stanley B. Prusiner — que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1997 —, propôs que uma proteína poderia, por si só, constituir o agente infeccioso, contrariando o dogma então vigente de que todo agente transmissível necessariamente conteria material genético [4].
3.1 PrPC e PrPSc
A proteína priônica existe em duas conformações principais:
- PrPC (proteína priônica celular): isoforma normal, expressa fisiologicamente na superfície de neurônios e de outras células, rica em estruturas de α-hélice e solúvel em detergentes. Sua função exata ainda não está completamente esclarecida, mas está implicada em processos de sinalização celular, homeostase do cobre e proteção neuronal [2].
- PrPSc (isoforma associada à doença, de scrapie): forma mal dobrada, com predomínio de folhas β-pregueadas, insolúvel, resistente à degradação por proteases e capaz de se autopropagar. É considerada o principal — ou único — componente do agente infeccioso [2].
Ambas as isoformas compartilham a mesma sequência de aminoácidos; a diferença reside exclusivamente na conformação tridimensional. Essa característica explica por que o agente não é reconhecido como estranho pelo sistema imunológico e por que a doença não desencadeia resposta inflamatória ou imunológica convencional [2].
3.2 Mecanismo de conversão e propagação
O evento central da patogênese é a conversão conformacional da PrPC em PrPSc. Acredita-se que a PrPSc atue como molde, ligando-se à PrPC e induzindo-a a adotar a conformação patogênica — um processo denominado autotemplação conformacional ou "hipótese da proteína apenas" (protein-only hypothesis) [2]. Esse mecanismo é análogo ao observado em outras doenças de mau dobramento proteico, como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson, nas quais proteínas como Aβ e α-sinucleína também se propagam por autotemplação [2].
A PrPSc é notavelmente resistente à inativação por calor, radiação e métodos convencionais de esterilização, o que fundamenta a necessidade de protocolos específicos de descontaminação em serviços de saúde e laboratórios [7].
3.3 Subtipos moleculares
A heterogeneidade clínica da DCJ esporádica é parcialmente explicada por sua classificação molecular, que combina o polimorfismo no códon 129 do gene PRNP — metionina (M) ou valina (V) — com o tipo de PrPSc (tipo 1 ou tipo 2) identificado por western blot. Dessa combinação resultam seis subtipos moleculares principais (MM1, MV1, MM2, MV2, VV1 e VV2), que diferem quanto à apresentação clínica, idade de início, duração da doença, achados de exames e características neuropatológicas [8]. A homozigosidade no códon 129 (MM ou VV) está associada a maior suscetibilidade à doença e a períodos de incubação mais curtos [8].
4. Epidemiologia Global e no Brasil
4.1 Panorama global
A DCJ ocorre em todo o mundo, com incidência anual estimada em cerca de 1 a 2 casos por milhão de habitantes [1]. Nos Estados Unidos, são notificados aproximadamente 500 a 600 casos por ano [9]. O risco aumenta com a idade, sendo a faixa acima de 50 anos a mais acometida, com taxas que podem alcançar cerca de 3,4 casos por milhão nessa população [10].
Uma análise retrospectiva da epidemiologia global das doenças priônicas humanas, abrangendo 34 países com dados de vigilância acessíveis entre 1993 e 2020, registrou 27.872 casos de doenças priônicas e 24.623 casos de DCJ esporádica, correspondendo esta última a 88,3% do total. Os países com maior número absoluto de casos foram Estados Unidos (5.156), França (3.276), Alemanha (3.212), Itália (2.995), China (2.662), Reino Unido (2.521), Espanha (1.657) e Canadá (1.311) [4]. Os autores observaram tendência de aumento no número de casos e na mortalidade ao longo das quase três décadas analisadas, atribuída, em parte, à ampliação da vigilância, ao envelhecimento populacional e ao aprimoramento das técnicas diagnósticas [4].
| Forma adquirida | Casos relatados no mundo | Observações |
|---|---|---|
| DCJ iatrogênica (iDCJ) | ≥ 485 | Maioria por hormônio de crescimento (226) e enxerto de dura-máter (228); 96,7% identificados antes de 2012 |
| DCJ variante (vDCJ) | 232 | Pico entre 1998 e 2003; 76,7% no Reino Unido; declínio acentuado após 2004 |
| Kuru | Praticamente erradicado | Restrito à tribo Fore (Papua-Nova Guiné); associado a rituais funerários |
É importante destacar que a maioria dos países com programas de vigilância de doenças priônicas são de renda alta e média-alta, o que sugere que o número real de casos no mundo é substancialmente subestimado, especialmente em países de baixa e média-baixa renda [4].
4.2 Panorama brasileiro
No Brasil, a DCJ integra a Lista Nacional de Doenças de Notificação Compulsória desde 2005, conforme a Portaria de Consolidação GM/MS nº 4, de 28 de setembro de 2017. A vigilância epidemiológica está sob a Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (CGZHA), do Departamento de Doenças Transmissíveis (DEDT), da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) do Ministério da Saúde, e tem como principais objetivos detectar casos, conhecer o perfil epidemiológico e definir medidas de biossegurança [6].
Entre 2005 e 2021, foram registradas no Brasil 1.576 notificações de casos suspeitos de DCJ, com registros mais frequentes nas Regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Os estados com maior número de casos suspeitos notificados no período foram São Paulo (32,5%; 512), Paraná (12,0%; 189) e Minas Gerais (10%; 158). A maior frequência de notificações ocorreu na faixa de 55 a 74 anos, representando 60,2% (994) do total. Quanto ao sexo, observou-se pequena variação, com 53,6% (845) de casos suspeitos do sexo feminino e 46,3% (730) do sexo masculino [6].
Do total de notificações, 547 casos foram confirmados no período. As maiores concentrações de confirmações ocorreram em São Paulo (202), seguido por Minas Gerais (57) e Paraná (44) [11]. Esses dados reforçam a importância da notificação compulsória e da vigilância ativa como instrumentos para o monitoramento da doença e para a identificação precoce de eventuais casos de vDCJ ou de transmissão iatrogênica.
A notificação compulsória da DCJ no Brasil, vigente desde 2005, é essencial não apenas para o conhecimento do perfil epidemiológico nacional, mas também para a detecção de casos atípicos e para a implementação de medidas de biossegurança em serviços de saúde [6].
5. Fisiopatologia e Mecanismo de Neurodegeneração
A fisiopatologia da DCJ é um processo em múltiplas etapas, no qual a conversão conformacional da PrPC em PrPSc desencadeia uma cascata de eventos que culmina em morte neuronal, perda sináptica e alterações estruturais características do tecido cerebral [2].
5.1 Etapas da neurodegeneração
- Conversão e acúmulo: a PrPSc se acumula progressivamente no sistema nervoso central, formando agregados e depósitos resistentes à degradação [2].
- Propagação intercelular e regional: a PrPSc se dissemina de uma estrutura do sistema nervoso central para outra, propagando-se ao longo de vias anatômicas. Estudos experimentais demonstraram que a propagação segue uma sequência temporal previsível, com semeadura (seeding) detectável antes do acúmulo proteico, seguida de ativação glial e, por fim, morte neuronal [12].
- Disfunção neuronal e sináptica: a presença de PrPSc interfere na função neuronal normal, comprometendo a transmissão sináptica e a viabilidade celular [2].
- Ativação glial e neuroinflamação: astrócitos e micróglia são ativados em resposta ao acúmulo de PrPSc, contribuindo para o ambiente neurotóxico, embora sem a resposta imune adaptativa clássica [12].
- Morte neuronal e vacuolização: a perda neuronal progressiva e a formação de vacúolos intracelulares conferem ao tecido cerebral o aspecto "esponjoso" que caracteriza as encefalopatias espongiformes [2].
5.2 Correlatos neuropatológicos
Os achados neuropatológicos clássicos da DCJ compreendem a espongiose (vacuolização do neurópilo), a perda neuronal, a gliose (proliferação de astrócitos) e, em alguns casos, a formação de placas amiloides constituídas por PrPSc. A distribuição e a intensidade dessas alterações variam conforme o subtipo molecular e a forma da doença [2].
A ausência de resposta inflamatória clássica e de resposta imune humoral explica por que a DCJ não cursa com febre, alterações do hemograma ou marcadores inflamatórios sistêmicos, o que dificulta sua distinção clínica de outras demências [2].
6. Manifestações Clínicas e Estágios da Doença
As manifestações clínicas da DCJ são variáveis e inespecíficas, mas a doença costuma se apresentar com um quadro inicial de demência associada a outros sinais e sintomas neurológicos multifocais e psiquiátricos [6]. A DCJ tipicamente acomete pessoas com 55 anos ou mais, e o declínio, uma vez iniciado, é rápido, com mediana de 4 a 5 meses até o óbito [1].
6.1 Manifestações clínicas
- Cognitivas: comprometimento cognitivo, perda de memória, demência rapidamente progressiva, afasia e distúrbios da linguagem [6].
- Motoras: ataxia, falta de coordenação motora, tremores, mioclonia (espasmos musculares involuntários), sinais piramidais e extrapiramidais, paralisia facial [6].
- Visuais: distúrbios visuais, que podem ser a manifestação inicial em algumas variantes [6].
- Psiquiátricas e comportamentais: alterações de comportamento, insônia, depressão [6].
- Inespecíficas: cefaleia, fadiga, sonolência, falta de apetite [6].
Conforme a progressão do quadro, podem ocorrer crises epilépticas e, nas fases avançadas, mutismo acinético e coma. A degeneração progressiva das habilidades psicomotoras é bem mais acelerada do que a observada em outras demências [6].
6.2 Estágios da doença
| Estágio | Manifestações predominantes | Duração aproximada |
|---|---|---|
| Prodrômico / inicial | Sintomas inespecíficos: fadiga, alterações de sono e apetite, cefaleia, alterações sutis de comportamento e memória | Semanas |
| Fase de estado | Demência rapidamente progressiva, mioclonia, ataxia, sinais piramidais/extrapiramidais, distúrbios visuais e de linguagem | Meses |
| Fase avançada / terminal | Mutismo acinético, crises epilépticas, rigidez, coma; dependência total | Semanas a meses |
Na forma variante (vDCJ), o início costuma ser marcado por sintomas psiquiátricos (depressão, ansiedade, isolamento) e sensitivos (dor, parestesias), seguidos de ataxia e, mais tardiamente, demência; o curso tende a ser mais prolongado do que na forma clássica [3].
7. Diagnóstico
O diagnóstico preciso da DCJ é desafiador, pois os achados são essencialmente inespecíficos. Diversos exames auxiliam na investigação de um caso suspeito e na caracterização das formas da doença: eletroencefalograma (EEG), ressonância magnética (RM), tomografia computadorizada (TC), sequenciamento do gene PRNP e análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) para detecção de biomarcadores [6].
7.1 Critérios clínicos
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a definição de um caso baseia-se na análise de exames, sinais e sintomas e história epidemiológica do paciente. O caso pode ser classificado como possível, provável ou definitivo, sendo a confirmação final obtida por necropsia com análise neuropatológica [6].
| Classificação | Critérios |
|---|---|
| Definitivo | Confirmação por técnicas neuropatológicas padrão e/ou imuno-histoquímica e/ou western blot com PrP resistente à protease e/ou presença de fibrilas associadas ao scrapie |
| Provável | Distúrbio neuropsiquiátrico + RT-QuIC positivo no LCR ou em outros tecidos; ou demência rapidamente progressiva + pelo menos 2 de 4 achados clínicos (mioclonia, sinais visuais/cerebelares, sinais piramidais/extrapiramidais, mutismo acinético) + pelo menos 1 exame positivo (EEG típico, 14-3-3 no LCR, ou hipersinal em núcleo caudado/putâmen ou ≥2 regiões corticais na RM em DWI/FLAIR) |
| Possível | Demência progressiva + pelo menos 2 de 4 achados clínicos, sem resultado positivo nos exames que classificariam como provável, com duração da doença inferior a 2 anos |
7.2 Eletroencefalograma (EEG)
O EEG pode revelar o padrão característico de complexos periódicos de ondas agudas (periodic sharp wave complexes), considerado um dos achados de suporte ao diagnóstico de DCJ provável. Esse padrão, entretanto, não é universalmente presente e pode variar conforme o subtipo molecular e o estágio da doença [1].
7.3 Ressonância magnética (RM)
A RM cerebral, especialmente com sequências de difusão (DWI) e de recuperação de inversão atenuada por fluido (FLAIR), é um instrumento diagnóstico central. O achado típico é o hipersinal no núcleo caudado e no putâmen ou em pelo menos duas regiões corticais (temporal, parietal, occipital) [1].
7.4 Biomarcadores no líquido cefalorraquidiano
- Proteína 14-3-3: biomarcador de lesão neuronal amplamente utilizado como suporte diagnóstico; apresenta boa sensibilidade, porém especificidade limitada, pois pode estar elevada em outras condições neurológicas [13].
- Tau total (t-tau): biomarcador que complementa a detecção da proteína 14-3-3, com utilidade adicional na predição do tempo de sobrevida [13].
- RT-QuIC (Real-Time Quaking-Induced Conversion): técnica de amplificação proteica que detecta a atividade de semeadura da PrPSc em amostras de LCR e outros tecidos, com sensibilidade e especificidade muito elevadas. Uma meta-análise demonstrou que o RT-QuIC apresenta especificidade muito alta e sensibilidade comparável à da proteína 14-3-3 e da tau, consolidando-se como biomarcador confiável para o diagnóstico da DCJ esporádica [14]. A positividade isolada do RT-QuIC no LCR já é suficiente para classificar um caso como provável [1].
O RT-QuIC representa um avanço significativo no diagnóstico pré-morte da DCJ, permitindo a confirmação clínica precoce e reduzindo a dependência de procedimentos invasivos como a biópsia cerebral [14].
7.5 Genética e confirmação definitiva
A análise do gene PRNP pode auxiliar na identificação da forma hereditária da doença; a ausência de mutações, entretanto, não confirma isoladamente a forma esporádica. A investigação genética também contribui para o aconselhamento dos familiares [6]. A confirmação definitiva é obtida por necropsia com análise neuropatológica de fragmentos do cérebro, incluindo testes histopatológicos e/ou imuno-histoquímicos para identificação da PrPSc. Embora a biópsia cerebral possa ser considerada em casos específicos, não é frequentemente recomendada devido aos riscos associados ao procedimento; assim, a necropsia permanece o padrão-ouro [6].
8. Diagnóstico Diferencial
As manifestações clínicas da DCJ são semelhantes às de outras demências e transtornos neurológicos progressivos, como a doença de Alzheimer e a doença de Huntington. Além disso, a busca do diagnóstico deve descartar outras causas possíveis de demência, tais como encefalites e meningites crônicas [6].
| Categoria | Condições a considerar | Elementos distintivos |
|---|---|---|
| Demências neurodegenerativas | Doença de Alzheimer, demência com corpos de Lewy, demência frontotemporal | Curso geralmente mais lento; biomarcadores específicos (Aβ, tau fosforilada) |
| Doenças autoimunes do SNC | Encefalite autoimune (anti-NMDAR, anti-LGI1), encefalomielite | Resposta a imunoterapia; anticorpos específicos no LCR/soro |
| Infecções do SNC | Encefalites virais, meningites crônicas, neurossífilis | Alterações inflamatórias no LCR; agente identificável |
| Distúrbios metabólicos e tóxicos | Encefalopatia hepática, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12, intoxicações | Alterações laboratoriais reversíveis |
| Outras doenças priônicas | Insônia familiar fatal, síndrome de Gerstmann-Sträussler-Scheinker | Mutações específicas no gene PRNP; fenótipos distintos |
| Neoplasias e vasculares | Encefalite límbica paraneoplásica, demência vascular, linfoma do SNC | Neuroimagem e investigação oncológica |
A distinção entre a DCJ e outras demências rapidamente progressivas é crucial, pois muitas dessas condições são potencialmente tratáveis. A combinação de critérios clínicos, neuroimagem, biomarcadores no LCR e, quando indicado, investigação genética permite um diagnóstico diferencial mais preciso [5].
9. Tratamento e Cuidados Paliativos
Apesar de várias propostas terapêuticas terem sido estudadas, nenhuma até o momento mostrou-se efetiva para alterar a evolução fatal da doença. Aproximadamente 90% das pessoas acometidas evoluem para óbito em um ano [6]. Não existem terapias modificadoras da doença, e o manejo é inteiramente paliativo, centrado no controle de sintomas e na qualidade de vida [15].
9.1 Manejo sintomático
O tratamento é direcionado ao alívio de sintomas específicos à medida que surgem, seguindo princípios semelhantes aos cuidados geriátricos e de fim de vida, com adaptações específicas da doença [15]:
- Mioclonia: pode ser intensamente angustiante para pacientes e familiares e requer manejo farmacológico (por exemplo, com benzodiazepínicos ou outros agentes anticonvulsivantes, conforme avaliação clínica) [15].
- Agitação e sintomas psiquiátricos: podem exigir psicofármacos, utilizados com cautela devido à rápida progressão da doença [15].
- Espasticidade, rigidez e crises epilépticas: manejadas conforme indicação clínica individualizada [15].
- Suporte nutricional e hidratação: essenciais nas fases avançadas, com discussão precoce sobre vias de alimentação [6].
9.2 Cuidados paliativos e suporte
Dada a trajetória rápida e a sobrevida mediana de aproximadamente 5 meses a partir do início dos sintomas, o encaminhamento precoce para cuidados paliativos é fundamental [15]. É essencial abordar os aspectos físicos, as necessidades nutricionais, psicológicas, educacionais e sociais do paciente, bem como as necessidades emocionais dos familiares. Recomenda-se um planejamento coordenado para a transferência de cuidados da unidade de saúde para o acompanhamento domiciliar [6].
Os pacientes podem ser cuidados em unidades neurológicas, hospitais gerais, hospices, instituições de longa permanência ou em domicílio, conforme os recursos familiares e a carga de sintomas. A educação sobre a progressão da doença, o prognóstico e o suporte psicossocial à família são componentes indispensáveis do cuidado [15].
Pacientes com DCJ conhecida ou suspeita não podem ser doadores de tecidos ou órgãos para qualquer finalidade, devido ao risco de transmissão [15].
9.3 Perspectivas terapêuticas
Ensaios clínicos iniciais com terapias monoclonais e terapia gênica estão em andamento, mas ainda sem resultados conclusivos [15]. A compreensão crescente dos mecanismos moleculares da conversão da PrPC em PrPSc tem orientado a busca por estratégias que interfiram nesse processo, incluindo compostos que estabilizem a conformação nativa da proteína ou que promovam a depuração da PrPSc [2].
10. Prevenção e Controle
Não há evidências de que a DCJ seja transmitida por contato casual com alguém que tenha a doença. Não existe evidência científica indicando transmissão pelo ar ou pelo contato social cotidiano — como vestimentas, uso comum de copos e utensílios de cozinha ou contato íntimo (abraço, beijos, relações sexuais). Portanto, não há risco diferencial para os familiares do paciente em relação ao cidadão comum, e não existem casos relatados associados à exposição ao agente em superfícies como pisos, paredes ou bancadas [6].
10.1 Medidas de biossegurança
As medidas de prevenção estão voltadas para o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) e a aplicação de medidas de biossegurança, limpeza, desinfecção e esterilização de instrumentos cirúrgicos, com o objetivo de evitar a infecção iatrogênica [6]. Devido à notável resistência da PrPSc aos métodos convencionais de inativação, recomenda-se seguir protocolos específicos de descontaminação, conforme diretrizes da OMS e do CDC [7].
- Uso rigoroso de EPI e EPC em procedimentos com risco de exposição a tecido nervoso [6].
- Protocolos específicos de limpeza, desinfecção e esterilização de instrumentos neurocirúrgicos e reutilizáveis [7].
- Precauções especiais em procedimentos cirúrgicos em pacientes com DCJ diagnosticada ou suspeita [7].
- Restrição de doação de tecidos e órgãos por pacientes com DCJ [15].
10.2 Vigilância epidemiológica e notificação compulsória
A DCJ integra a Lista Nacional de Doenças de Notificação Compulsória no Brasil desde 2005. A vigilância tem como objetivos detectar casos, conhecer o perfil epidemiológico e definir medidas de biossegurança [6]. Em âmbito internacional, programas de vigilância ativa — como a rede EuroCJD e o programa NeuroCJD — monitoram tendências e permitem a detecção precoce de casos atípicos, incluindo a vDCJ e a transmissão iatrogênica [4].
10.3 Controle da cadeia alimentar e da EEB
O controle da encefalopatia espongiforme bovina na cadeia alimentar foi decisivo para a contenção da epidemia de vDCJ. A remoção de materiais de risco específico e a proibição do uso de farinhas de origem animal na alimentação de ruminantes resultaram em declínio acentuado dos casos de vDCJ após 2004 [4].
A prevenção da DCJ combina três pilares: (1) biossegurança em serviços de saúde, para evitar a transmissão iatrogênica; (2) vigilância epidemiológica e notificação compulsória, para detecção e monitoramento; e (3) controle de riscos na cadeia alimentar, para prevenir a vDCJ [4][6].
11. Considerações Finais
A doença de Creutzfeldt-Jakob permanece como um dos maiores desafios da neurologia contemporânea. Sua natureza priônica — um agente infeccioso desprovido de material genético, resistente aos métodos convencionais de inativação e capaz de se autopropagar por conversão conformacional — rompeu paradigmas da biologia e da infectologia. Apesar de sua raridade, a DCJ tem enorme impacto individual e familiar, dada a rapidez de sua progressão e a inexorabilidade de seu desfecho.
Nas últimas décadas, avanços significativos foram alcançados no diagnóstico, com destaque para o RT-QuIC, que transformou a capacidade de confirmação pré-morte da doença. A ampliação da vigilância epidemiológica global e a implementação de medidas de biossegurança e de controle da cadeia alimentar demonstraram ser instrumentos eficazes de saúde pública, como evidenciado pelo declínio da vDCJ e da iDCJ.
Persistem, contudo, lacunas importantes: não há terapia modificadora, o diagnóstico definitivo ainda depende de neuropatologia e a subnotificação em países de baixa e média renda limita a compreensão da real magnitude global da doença. O fortalecimento das redes de vigilância, o desenvolvimento de métodos diagnósticos simplificados e acessíveis e a pesquisa de estratégias terapêuticas que interfiram na conversão da PrPC em PrPSc constituem prioridades para o futuro. A DCJ, embora rara, permanece um lembrete contundente da complexidade das doenças neurodegenerativas e da importância de uma abordagem integrada entre clínica, laboratório e saúde pública.
Referências Bibliográficas
Formato Vancouver. Acesso em: 2 de outubro de 2026.
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Overview of Creutzfeldt-Jakob Disease (CJD). Atlanta: CDC; atualizado em 21 jan. 2026. Disponível em: https://www.cdc.gov/creutzfeldt-jakob/hcp/clinical-overview/index.html
- Soto C, Satani N. The intricate mechanisms of neurodegeneration in prion diseases. Trends Mol Med. 2011;17(1):14-24.
- Will RG, Ironside JW, Zeidler M, Cousens SN, Estibeiro K, Alperovitch A, et al. A new variant of Creutzfeldt-Jakob disease in the UK. Lancet. 1996;347(9006):921-5.
- Gao LP, Tian TT, Xiao K, Chen C, Zhou W, Liang DL, et al. Updated global epidemiology atlas of human prion diseases. Front Public Health. 2024;12:1411489.
- Watson N, Brandel JP, Green A, Hermann P, Ladogana A, Lindsay T, et al. The importance of ongoing international surveillance for Creutzfeldt-Jakob disease. Nat Rev Neurol. 2021;17(6):362-79.
- Brasil. Ministério da Saúde. Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). Brasília: Ministério da Saúde; 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/d/dcj
- World Health Organization. WHO Infection Control Guidelines for Transmissible Spongiform Encephalopathies: Report of a WHO Consultation. Geneva: WHO; 1999.
- Frontiers in Neurology. Genetic aspects of human prion diseases. Front Neurol. 2022;13:1003056.
- Centers for Disease Control and Prevention. Classic Creutzfeldt-Jakob Disease. Atlanta: CDC. Disponível em: https://www.cdc.gov/creutzfeldt-jakob/about/index.html
- Taiwan Centers for Disease Control. Creutzfeldt-Jakob Disease (CJD). Taipei: Taiwan CDC. Disponível em: https://www.cdc.gov.tw
- Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico: Doença de Creutzfeldt-Jakob no Brasil, 2005-2021. Brasília: Ministério da Saúde; 2022.
- Neurodegenerative Disease Research (JPND). Cascade of events leading to prion disease described. 2021.
- CSF Tau supplements 14-3-3 protein detection for sporadic Creutzfeldt-Jakob disease diagnosis while transitioning to next generation diagnostics. J Clin Neurosci. 2018.
- Russo MJ, Orrù CD, Hughson AG, Caughey B, et al. A meta-analysis on RT-QuIC for the diagnosis of sporadic CJD. Acta Neurol Belg. 2021;121(6):1505-12.
- Palliative Care Network of Wisconsin. Palliative Care Issues in Creutzfeldt-Jakob Disease. Fast Facts. 2024.
- Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo de notificação e investigação da doença de Creutzfeldt-Jakob com foco na identificação da nova variante. Brasília: Ministério da Saúde; 2018.
- Uttley L, Carroll C, Wong R, Hilton DA, Stevenson M. Creutzfeldt-Jakob disease: a systematic review of global incidence, prevalence, infectivity, and incubation. Lancet Infect Dis. 2020;20(1):e2-e10.
- Brown P, Brandel JP, Sato T, Nakamura Y, MacKenzie J, Will RG, et al. Iatrogenic Creutzfeldt-Jakob disease, final assessment. Emerg Infect Dis. 2012;18(6):901-7.
- Collinge J, Whitfield J, McKintosh E, Beck J, Mead S, Thomas DJ, et al. Kuru in the 21st century — an acquired human prion disease with very long incubation periods. Lancet. 2006;367(9528):2068-74.
