
No artigo anterior, fizemos uma pergunta: quem veio primeiro, a Terra ou o Universo?
A ciência aponta para um Universo com cerca de 13,8 bilhões de anos e uma Terra formada há aproximadamente 4,5 bilhões.
A Bíblia começa dizendo: "No princípio, criou Deus os céus e a terra" (Gênesis 1:1). Logo depois, porém, encontramos: "A terra, porém, era sem forma e vazia…" (Gênesis 1:2).
Uma das interpretações propostas ao longo da história ficou conhecida como Teoria da Lacuna, ou Gap Theory. Segundo ela, poderia existir um período indeterminado entre Gênesis 1:1 e 1:2 e, talvez, até um intervalo extremamente longo.
Nesse entendimento, o primeiro versículo fala da criação original, enquanto o segundo descreve a Terra em uma condição posterior. Assim, os acontecimentos narrados a partir dali poderiam representar a organização ou restauração da Terra para receber a vida.
Um dos pontos discutidos está na tradução de Gênesis 1:2. Normalmente, lemos que a Terra "era sem forma e vazia." Alguns defensores da Teoria da Lacuna argumentam que a passagem poderia ser entendida como "tornou-se sem forma e vazia".
Se ela "tornou-se", surge uma pergunta inevitável: o que teria acontecido?
Algumas versões da teoria sugerem uma grande catástrofe ou julgamento e chegam a relacioná-lo à queda de Satanás. Nesse cenário, os dias seguintes de Gênesis descreveriam uma restauração.
É importante, porém, separar hipótese de texto bíblico. Gênesis não afirma que Satanás caiu entre os versículos 1 e 2, nem menciona uma civilização anterior ou descreve explicitamente uma destruição ocorrida nesse intervalo.
A expressão hebraica tohu va-bohu, traduzida como "sem forma e vazia", também está no centro da discussão.
Enquanto alguns a associam à desolação, outros entendem simplesmente que a Terra ainda não estava organizada e preenchida. Nesse segundo entendimento, não há necessidade de uma catástrofe entre os dois versículos.
A Teoria. Lacuna tornou-se atraente para alguns cristãos, porque permite considerar um longo período entre os primeiros versículos de Gênesis. Bilhões de anos, portanto, poderiam teoricamente caber nesse intervalo.
Mas uma distinção é fundamental: a ciência não comprova a Teoria da Lacuna.
A Astronomia procura reconstruir a história física do Universo e da Terra. A Teoria da Lacuna é uma interpretação teológica do texto bíblico. Uma coisa não deve ser usada artificialmente para provar a outra.
Então, devemos acreditar na Teoria da Lacuna? Podemos considerá-la e estudar seus argumentos, mas sem transformá-la em uma afirmação que a própria Bíblia não faz claramente. Cristãos comprometidos com as Escrituras possuem diferentes interpretações sobre os primeiros capítulos de Gênesis.
Talvez o ponto mais importante esteja justamente naquilo sobre o qual o texto não deixa dúvidas.
A ciência pode investigar estrelas, galáxias, rochas e bilhões de anos de história cósmica. Gênesis começa em outro lugar: apresentando Aquele que está antes de tudo. A Bíblia não é um livro de ciência, apenas não comete erros quando fala de algo envolvido com ciência.
Poderiam existir bilhões de anos entre Gênesis 1:1 e 1:2? A Teoria da Lacuna diz que sim. A Bíblia apenas nos afirma "que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia" (2 Pedro 3:8). e "Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite" (Salmos 90:4).
Talvez essa seja uma boa oportunidade para exercitarmos algo necessário tanto na ciência quanto na fé: humildade diante daquilo que ainda não sabemos. Gênesis não começa nos dando uma data.
Eduardo Baldaci é teólogo formado pelo STBN, defensor do Criacionismo Bíblico, astrônomo amador reconhecido pela NASA e jornalista científico há 43 anos. É pastor Batista há 34 anos atuando na The Grove Church (Titusville, FL-EUA).
