
Vândalos picharam a Igreja Núcleo da Fé Noroeste Fotos: Reprodução No último dia 23 de outubro, às vésperas do segundo turno brasileiro, o mundo assistiu consternado a uma cena de barbárie em Karak, no sul da Jordânia: três homens armados invadiram uma igreja ortodoxa durante um funeral e dispararam ininterruptamente por cinco minutos contra os fiéis, deixando mortos e dezenas de feridos.
Diante de tragédias como essa, muitos cristãos no Ocidente costumam suspirar aliviados, imaginando que o ódio mortal à fé é uma realidade distante, restrita ao Oriente Médio ou a ditaduras asiáticas.
Ledo engano
A história das tiranias e a sociologia da religião ensinam uma regra implacável: em absolutamente todos os países onde hoje os cristãos enfrentam perseguição física e violenta, isto é, com templos incendiados, prisões arbitrárias e assassinatos, o derramamento de sangue foi precedido pela perseguição simbólica.
Primeiro, cria-se uma pecha negativa sobre os fiéis; depois, estigmatiza-se a pregação bíblica como "discurso de ódio" ou ameaça à democracia; em seguida, cerceia-se a liberdade de expressão de padres e pastores, tratando-os como inimigos internos da nação.
Ora, quando a sociedade se acostuma a ver o cristão como um pária moral, o caminho para a violência física está pavimentado.
E os fatos que cercaram a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva neste segundo turno provam que o Brasil acaba de cruzar uma linha vermelha perigosíssima.
Ocorre que, na reta final da campanha, um templo da Assembleia de Deus em Dourados (MS) amanheceu pichado com a ameaça: "Morram cristãos." Na véspera da votação, a Igreja Batista da Lagoinha em Justinópolis (MG) teve sua fachada vandalizada com cartazes políticos contra o senador Flávio Bolsonaro. Já no Rio de Janeiro, no bairro de Realengo, a militância recorreu ao assédio acústico com músicas repletas de palavrões em volume ensurdecedor para intimidar o eleitorado conservador e cristão.
Ademais, bastou a finalização da apuração nas urnas no domingo para que o ódio represado se sentisse plenamente legitimado.
Logo após o segundo turno, a Igreja Núcleo da Fé Noroeste, em Brasília (DF), foi alvo de vandalismo e teve suas paredes pichadas com as inscrições "fascistas" e "Deus é gay", em uma agressão direta ao espaço sagrado denunciada pelo pastor Wilber Batista à Polícia Civil.
Sob a ótica estritamente jurídica, é preciso dar o nome técnico correto a esses episódios: não estamos diante de meros excessos militantes ou de livre manifestação política, mas de delitos tipificados no Título V do nosso Código Penal, que trata precisamente dos Crimes Contra o Sentimento Religioso.
escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; ou vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso.
Neste sentido, tanto o assédio sonoro com músicas obscenas em volume elevado para perturbar a paz dos fiéis e o ambiente litúrgico quanto o vandalismo e as pichações ultrajantes nas paredes de templos configuram, além de dano ao patrimônio, flagrante perturbação de culto e vilipêndio público de espaço consagrado, violando frontalmente a garantia constitucional de proteção aos locais de culto e às suas liturgias (art. 5º, VI, da Constituição Federal).
Mas o retrato mais alarmante do que aguarda a Igreja nos próximos quatro anos veio das redes sociais da própria militância governista.
Sentindo-se fortalecido pelo resultado eleitoral, o "jornalista." Helder Maldonado, do canal de esquerda Galãs Feios, protagonizou um ataque visceral durante uma transmissão ao vivo.
Aos gritos, ele declarou que o "evangélico" e o "fubango". "Vão ser combatidos." Também, tachou de "traidores da pátria" os pastores e comunidades que exibem a bandeira de Israel em seus altares e lançou uma ameaça explícita de terrorismo doméstico: "Ou você tira [a bandeira], ou a gente bota fogo".
Ora, a gravidade da incitação ao incêndio de templos levou a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso e do Senado, juntamente com a Frente Parlamentar Brasil-Israel, a emitirem uma dura Nota de Repúdio no dia 30 de outubro, exigindo a responsabilização criminal diante de um ataque frontal à garantia constitucional da liberdade de culto e da proteção às liturgias.
Seria um erro fatal, contudo, tratar essas ameaças apenas como o delírio isolado de influenciadores radicais. Essa exata cosmovisão anticristã está hoje sentada nas cadeiras do Poder Executivo, em dezenas de gabinetes parlamentares e entranhada nas instituições da República.
Basta olhar para quem esteve na linha de frente da campanha digital de Lula neste segundo turno: a jovem deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), recebida com honras pelo presidente em Brasília.
Trata-se da mesma figura pública cujas postagens e vídeos, amplamente noticiados pela imprensa, incluem cobranças diretas a Lula pelo "fechamento das igrejas" e pelo "kit gay." Ainda por desejos de "queimar" a bancada evangélica, defesa do aborto tardio, propostas para proibir padres de terem perfis nas redes sociais e ataques abertos ao que ela chama, com desprezo, de "mente cristã" e "mente colonizada".
Quando pessoas com esse grau de aversão ao cristianismo passam a ditar os rumos da comunicação governamental e a legislar sobre o país, a hostilidade deixa de ser marginal e se torna projeto de poder.
Além disso, o que torna esse cenário ainda mais doloroso e revoltante é constatar que, mesmo diante de todas essas ameaças escancaradas, da vigilância sobre os altares e de um histórico visceral de desprezo aos princípios bíblicos, muitos que se dizem cristãos ainda tiveram a coragem de "fazer o L" nas urnas.
Seja por cegueira ideológica, conveniência pessoal ou pela soberba dos que preferiram lavar as mãos em uma falsa neutralidade, uma parcela de pessoas que professam a fé cristã ajudou a reconduzir ao poder um projeto político que já demonstrou sua aversão à Igreja, e que, agora fortalecido pela reeleição, se voltará com fúria ainda maior contra os próprios cristãos.
É profundamente lamentável assistir a irmãos entregando a chave da República justamente àqueles que sonham em silenciar os nossos púlpitos.
Contudo, o recado das urnas e das ruas é inequívoco: embriagados pela vitória eleitoral e cientes de que terão o controle da máquina pública (além da caneta presidencial para nomear mais quatro ministros ao STF até 2030), os setores mais intolerantes da esquerda brasileira sentem-se hoje com carta branca para avançar contra a Igreja.
Os próximos quatro anos exigirão dos cristãos brasileiros uma coragem e uma vigilância sem precedentes em nossa história democrática.
Não podemos assistir passivamente à normalização da perseguição simbólica, da estigmatização dos crentes e da criminalização dos nossos púlpitos.
Portanto, mais do que nunca é hora de pastores, padres, juristas, parlamentares e fiéis erguerem uma barreira intransponível em defesa da liberdade religiosa — antes que os discursos que hoje pedem o fechamento de igrejas e sugerem "botar fogo" nos templos se convertam na realidade cinzenta das nossas ruas.
