JHC e Marina Varreram os Calheiros da Política
O ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas (PSDB), venceu Renan Filho (MDB) já no primeiro turno e pôs fim a quase uma década de hegemonia do MDB no governo de Alagoas. No Senado, a estreante Marina Cândia (PSDB) e Arthur Lira (PP) foram eleitos e deixaram de fora Renan Calheiros, que deixa a Casa após 32 anos.
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| Virada nas urnas: JHC e Marina mudam o mapa político de Alagoas |
O resultado das urnas
MACEIÓ — Alagoas amanheceu neste domingo (4) com uma disputa que as pesquisas indicavam aberta e que terminou resolvida ainda no primeiro turno. O ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC (PSDB, 45), foi eleito governador do estado com 52,04% dos votos válidos (867.948 votos), superando o ex-governador e ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB, 15), que obteve 47,53%. A eleição foi matematicamente confirmada por volta das 21h33, segundo a totalização oficial divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Pela primeira vez desde 2015, o Palácio República dos Palmares será ocupado por um governador que não pertence ao grupo político dos Calheiros, do MDB. A eleição também redefiniu a representação do estado no Senado, onde a chapa puxada pelo novo governador foi integralmente vitoriosa.
| Candidato | Partido | Votos válidos | Situação |
|---|---|---|---|
| JHC (João Henrique Caldas) | PSDB (45) | 52,04% | Eleito |
| Renan Filho | MDB (15) | 47,53% | Não eleito |
| Lenilda Luna | UP (80) | <1% | Não eleita |
| Márcio Jambo | Democrata (35) | <1% | Não eleito |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme totalização divulgada na noite de 4 de outubro de 2026. Com 97,77% das urnas apuradas, os percentuais já não podiam ser revertidos (O Globo; O TEMPO).
| Candidato | Partido | Situação |
|---|---|---|
| Arthur Lira | PP (111) | Eleito |
| Marina Cândia ("Marina JHC") | PSDB (456) | Eleita |
| Renan Calheiros | MDB (151) | Não eleito |
| Dr. Wanderley | MDB (156) | Não eleito |
Fonte: TSE / Congresso em Foco / UOL. Cada eleitor votou em dois candidatos; não há segundo turno para o Senado.
A surpresa do primeiro turno
Até a véspera, os levantamentos apontavam empate técnico e um cenário provável de segundo turno. A última pesquisa Quaest, divulgada em 3 de outubro, mostrava Renan Filho com 50% e JHC com 49% dos votos válidos. O instituto Real Time Big Data, no dia 2, registrava Renan Filho numericamente à frente tanto no primeiro quanto em um eventual segundo turno (49% a 46%).
A leitura consolidada dos institutos era a de uma eleição indefinida, decidida "voto a voto". O resultado, porém, confirmou a virada de JHC já no primeiro turno, o que configura o principal elemento de surpresa do pleito alagoano.
A caracterização deste resultado como "surpreendente" baseia-se na comparação com as pesquisas de intenção de voto divulgadas às vésperas da eleição, que indicavam empate técnico e a necessidade de segundo turno. O texto não atribui a eleição a nenhuma causa específica não comprovada.
Quem é JHC
João Henrique Holanda Caldas tem 39 anos, é advogado e iniciou a trajetória política como deputado estadual, eleito em 2010. Foi deputado federal em 2014 e 2018 — nas duas eleições, o mais votado do estado para a Câmara — e prefeito de Maceió em 2020 e 2024, quando foi reeleito no primeiro turno com 83,25% dos votos válidos. Em abril de 2026, renunciou à prefeitura da capital para concorrer ao governo, deixando o cargo para o vice, Rodrigo Cunha.
É filho do ex-deputado João Caldas e da senadora Eudócia Caldas (PSDB). Disputou o governo pelo PSDB em uma chapa cujo vice é a médica e ex-prefeita de Arapiraca Célia Rocha (PSDB).
A candidatura de JHC ao governo representou uma reviravolta na própria campanha: até a semana anterior ao registro no TSE, ele ainda não havia definido a qual cargo concorreria — chegou a ensaiar uma candidatura ao Senado antes de confirmar a corrida ao governo.
O ocaso dos Calheiros
O resultado de domingo encerra um ciclo de domínio político do clã dos Calheiros em Alagoas. O MDB governava o estado desde 2015, e o senador Renan Calheiros (MDB), de 71 anos, deixa o Senado após quatro mandatos consecutivos — presente na Casa desde a legislatura iniciada em 1995, ou seja, há cerca de 32 anos, um dos parlamentares mais longevos do país.
A derrota não foi apenas do senador: seu filho, Renan Filho, ex-governador por dois mandatos e ex-ministro dos Transportes, também perdeu a disputa pelo governo. A eleição de 2026 marcou, assim, a vitória simultânea do grupo rival sobre pai e filho.
Também deixa o Senado a senadora Eudócia Caldas (PSDB), mãe de JHC e sogra de Marina, titular da outra cadeira que estava em disputa. Segundo a apuração, Eudócia foi eleita como primeira suplente na chapa de Marina Cândia.
Marina, a estreante que virou senadora
A grande novidade na disputa ao Senado foi Marina Cândia, de 35 anos, conhecida na campanha como "Marina JHC". Nascida em Cuiabá (MT), é casada com o governador eleito e atuou como primeira-dama de Maceió. Antes de 2026, nunca havia ocupado cargo político — disputou uma eleição pela primeira vez neste ano.
A candidata escalou nas pesquisas em poucas semanas e foi a única mulher a concorrer ao Senado pelo estado. Adversários a chamavam de "Michelle alagoana", numa referência à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro; aliados destacavam seu trabalho como embaixadora do Banco da Mulher Empreendedora, iniciativa de crédito e capacitação para mulheres com negócios formais em Maceió. Ao ser questionada sobre o crescimento nas pesquisas, afirmou ao jornal Valor Econômico:
"O eleitor está com a sensação de mudança, querem uma mulher."
— Marina Cândia, ao Valor Econômico, em 29 de setembro de 2026.
Eleito ao seu lado, o deputado Arthur Lira (PP), de 57 anos, foi presidente da Câmara dos Deputados entre 2021 e 2025 e ocupa o Legislativo federal desde 2011. Ele vai para o Senado na cadeira que já foi de seu pai, Benedito de Lira. A vitória tem sabor especial: Lira e Renan Calheiros eram rivais históricos e protagonizaram embates nos últimos anos.
Uma campanha de acusações
A disputa pelo governo foi marcada por uma sucessão de acusações mútuas envolvendo dinheiro público, investigações policiais e suspeitas de irregularidades. Entre os episódios que dominaram as últimas semanas, destacam-se:
- Investigação na Saúde: a campanha de JHC explorou investigações da Polícia Federal sobre contratos emergenciais da Secretaria de Estado da Saúde, que somariam cerca de R$ 100 milhões (Operação Estágio IV, de dezembro de 2025), com suspeitas de desvio de recursos, lavagem de dinheiro e fraudes relacionadas ao SUS.
- Banco Master: Renan Filho transformou em tema central de ataques as aplicações do Instituto de Previdência dos Servidores de Maceió (Iprev) em Letras Financeiras do Banco Master — cerca de R$ 97 milhões entre dezembro de 2023 e maio de 2024, período em que JHC era prefeito.
- Apreensão de dinheiro: a campanha foi também marcada pela apreensão de aproximadamente R$ 2 milhões em espécie em Maceió, ligada a empresas do setor de iluminação pública. Não houve, até então, confirmação de vínculo entre o dinheiro e a campanha de JHC, que classificou a associação como "ilações".
A Justiça Eleitoral foi acionada em diferentes momentos. Em setembro, o TRE-AL rejeitou uma ação da coligação de JHC para retirar do ar uma publicação de Renan sobre os R$ 97 milhões, mantendo o conteúdo por considerar que havia respaldo documental.
Reações e bastidores
A vitória de JHC foi reconhecida pela projeção de institutos como a Datafolha ainda durante a noite de domingo, à medida que a totalização avançava. O O TEMPO confirmou a eleição "matematicamente" às 21h33; O Globo registrava, com 97,77% das urnas apuradas, 52,04% para JHC contra 47,53% de Renan Filho.
Até o fechamento desta reportagem, não foi possível confirmar, em fontes verificáveis, o teor integral dos discursos de vitória de JHC e de concessão de Renan Filho, nem declarações oficiais de Renan Calheiros sobre a derrota. Por isso, o texto não reproduz falas desses personagens que não tenham sido confirmadas em veículos de imprensa. Caso surjam, serão incorporadas.
Análise: o fim de um ciclo e o peso das alianças nacionais
O pleito alagoano de 2026 se insere em um movimento nacional de reconfiguração política. Os dois principais candidatos ao governo trocaram, na reta final, apoios de peso: JHC contou com o apoio de Flávio Bolsonaro (PL), e Renan Filho teve o apoio do presidente Lula (PT), que esteve em Maceió no fim de setembro.
A eleição de um opositor aos Calheiros no governo, somada à derrota do senador que dominava a política do estado há três décadas, sugere o esgotamento de um arranjo de poder que se sustentava desde 2015. O fato de o resultado ter sido definido no primeiro turno, contrariando a leitura das pesquisas de empate técnico, reforça a leitura de que houve uma migração tardia de votos — fenômeno que, em regra, as pesquisas capturam com dificuldade.
Perspectivas
Com o resultado, o Executivo estadual será comandado pelo grupo de JHC a partir de 6 de janeiro de 2027, com mandato até 2030. No Senado, Arthur Lira e Marina Cândia assumem cadeiras de oito anos (2027–2035). A configuração redesenha o equilíbrio de forças em Alagoas e tende a reposicionar o estado no tabuleiro político nacional, dado que o novo governador se alinha ao campo de oposição ao governo federal e os novos senadores integram a base de poder que derrotou o emedebismo local.
O que está confirmado e o que não está
Em respeito à precisão jornalística:
O resultado da eleição para governador (JHC eleito com 52,04% dos votos válidos contra 47,53% de Renan Filho) e para o Senado (Arthur Lira e Marina Cândia eleitos; Renan Calheiros não reeleito), conforme dados do TSE reproduzidos por O Globo, O TEMPO, UOL e Congresso em Foco; o histórico dos candidatos; o apoio de Lula a Renan Filho e de Flávio Bolsonaro a JHC; os casos de campanha (Saúde, Banco Master, apreensão de valores).
O conteúdo dos discursos de vitória e de derrota; eventuais declarações oficiais de Renan Calheiros após o resultado. Tais lacunas estão sinalizadas no texto em vez de preenchidas por suposição.
Fontes
- O Globo — "JHC vence no primeiro turno e é eleito governador de Alagoas" (4 out. 2026). oglobo.globo.com
- O TEMPO — "Vitória de JHC para governador de Alagoas é matematicamente confirmada nas Eleições 2026" (4 out. 2026). otempo.com.br
- UOL / Carlos Madeiro — "Arthur Lira e Marina JHC são eleitos ao Senado por Alagoas" (4 out. 2026). noticias.uol.com.br
- Congresso em Foco — "Alagoas elege Arthur Lira e Marina JHC para o Senado" (4 out. 2026). congressoemfoco.com.br
- Folha de S.Paulo — "JHC vence Renan Filho e é eleito governador de Alagoas" (4 out. 2026). folha.uol.com.br
- Valor Econômico — "Ex-primeira-dama de Maceió ameaça eleição de caciques em Alagoas" (29 set. 2026). valor.globo.com
- g1 / Quaest — "Quaest em Alagoas, votos válidos: Renan Filho, 50% e JHC, 49%" (3 out. 2026). g1.globo.com
- R7 / Real Time Big Data — "Real Time: Renan Filho tem 52% dos votos válidos, e JHC, 48%, no 1º turno em Alagoas" (2 out. 2026). noticias.r7.com
- CartaCapital — "Marina JHC, Renan e Lira disputam as duas cadeiras de Alagoas no Senado, indica pesquisa" (2 out. 2026). cartacapital.com.br
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Resultados oficiais da Eleição Geral de 2026 (1º turno, 4 out. 2026). resultados.tse.jus.br
Documento de caráter informativo e jornalístico; produzido a partir de fontes públicas verificáveis. Dados eleitorais sujeitos a atualização pela Justiça Eleitoral.
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