Mialgia epidêmica: sintomas, diagnóstico e tratamento segundo revisão da literatura
Revisão publicada em 2023 analisou estudos sobre a doença, seus principais agentes virais, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e formas de tratamento.
![]() |
| crie uma imagem:Síndrome de Bornholm: o que a revisão revela sobre diagnóstico e tratamento . AR NEWS 24H |
O que é mialgia epidêmica?
A mialgia epidêmica, também denominada miosite epidêmica, é uma condição associada principalmente a infecções virais e caracterizada pela presença de dor muscular. Na literatura, também aparecem os termos pleurodinia epidêmica e síndrome de Bornholm.
A doença pode apresentar diferentes manifestações clínicas. Em determinados casos, o quadro é autolimitado e evolui de forma favorável. Entretanto, a literatura analisada pelos autores também descreve situações que podem evoluir para complicações como rabdomiólise e insuficiência renal.
Principais agentes virais relacionados
A revisão apresenta diversos vírus associados a quadros de mialgia. Entre eles estão:
- Influenza A e B;
- Coxsackievírus;
- vírus Epstein-Barr;
- vírus herpes simples;
- parainfluenza;
- adenovírus;
- echovírus;
- citomegalovírus;
- vírus do sarampo;
- vírus varicela-zóster;
- HIV;
- vírus da dengue.
Entre os agentes identificados nos estudos analisados, o parechovírus humano tipo 3 (HPeV3) teve destaque. O vírus pertence à família Picornaviridae e foi relacionado à maioria das publicações incluídas na revisão.
Síndrome de Bornholm
A síndrome de Bornholm, também conhecida como pleurodinia epidêmica, é uma manifestação caracterizada principalmente por dor intensa na região torácica, relacionada ao acometimento da musculatura intercostal.
Os pacientes podem apresentar dor torácica intensa e intermitente, além de manifestações como febre, dor de garganta, cefaleia e mialgia.
Um dos estudos incluídos na revisão descreveu uma paciente adulta que havia viajado para a Malásia e posteriormente apresentou febre, calafrios, dor torácica aguda e dor abdominal. Nesse caso, foi identificado o Echovirus tipo 1.
Como a doença pode ser transmitida?
De acordo com a revisão, as infecções relacionadas aos agentes descritos podem apresentar transmissão por diferentes vias, incluindo a fecal-oral e por gotículas respiratórias.
Objetivo da revisão
O trabalho de Caroline Nascimento Menezes e Matheus Todt Aragão teve como objetivo reunir e analisar informações disponíveis na literatura sobre a mialgia epidêmica, especialmente em relação à epidemiologia, manifestações clínicas, agentes causadores, diagnóstico e tratamento.
Metodologia
Os autores realizaram uma revisão da literatura utilizando as bases de dados PubMed e SciELO.
Entre os termos utilizados na pesquisa estavam expressões relacionadas a mialgia epidêmica, pleurodinia epidêmica e doença de Bornholm.
Foram consideradas publicações dos dez anos anteriores ao estudo. Os trabalhos selecionados incluíam estudos epidemiológicos, estudos observacionais, ensaios clínicos, séries de casos e relatos de casos.
Foram considerados trabalhos publicados em português, espanhol e inglês. Revisões de literatura, editoriais e correspondências foram excluídos.
Resultados da pesquisa
Na base PubMed, a busca pelo termo “Pleurodynia, Epidemic” encontrou inicialmente 367 publicações. Após a aplicação do período definido pelos pesquisadores, permaneceram dez trabalhos.
Depois da avaliação dos títulos e resumos, sete estudos foram selecionados. Outros dois trabalhos foram identificados a partir das referências das publicações analisadas.
Dessa forma, nove estudos foram analisados integralmente.
Na busca realizada na SciELO, os autores não encontraram publicações relacionadas aos termos utilizados.
Perfil dos casos analisados
Os nove estudos selecionados foram publicados entre 2013 e 2020. Oito eram provenientes do Japão e um da Holanda.
Ao todo, os estudos apresentaram 73 casos. A faixa etária abrangia crianças menores de seis anos e adultos de até 51 anos, com predominância de pessoas acima dos 20 anos nos casos analisados.
Os homens corresponderam a 77,78% dos casos descritos na revisão.
Principais manifestações clínicas
Entre as manifestações observadas nos estudos estavam:
- febre;
- mialgia ou dor muscular;
- astenia;
- fraqueza muscular;
- dor de garganta;
- cefaleia;
- dor torácica;
- dor testicular;
- sintomas gastrointestinais em alguns pacientes.
A febre foi relatada em nove estudos, enquanto a mialgia apareceu em seis deles. Considerando os pacientes analisados, 98% apresentaram febre e 65% apresentaram dor muscular.
A duração média dos sintomas foi de aproximadamente nove dias, variando entre três e 15 dias.
O papel do HPeV3
O parechovírus humano tipo 3 foi identificado em oito das nove publicações analisadas. Esses casos eram provenientes do Japão.
A revisão também apresenta relatos que sugerem uma relação entre a circulação do HPeV3 em crianças e o aparecimento de quadros de mialgia epidêmica em adultos. Em alguns casos, os adultos haviam tido contato com crianças com infecção ou apresentavam histórico recente de viagem.
Os autores destacam que, nos estudos analisados, crianças e adultos poderiam apresentar manifestações diferentes, sendo descritos quadros de maior intensidade muscular entre determinados pacientes adultos.
Casos descritos na literatura
Paciente de 32 anos
Um dos relatos analisados descreveu um homem de 32 anos com febre alta, dor de garganta, diarreia e mialgia intensa.
A dor atingiu diferentes grupos musculares, incluindo regiões do pescoço, tórax, abdome, membros superiores e inferiores. Também foi descrita dor testicular e dificuldade para dormir devido à intensidade das dores nas pernas.
Paciente de 37 anos
Outro relato apresentou um homem de 37 anos que desenvolveu mialgia após uma visita a um parque de diversões no Japão.
O quadro incluiu manifestações mucocutâneas, dor testicular e fraqueza nos braços. Os exames apresentaram alterações de CPK, enzimas hepáticas e LDH. O caso foi relacionado ao HPeV3.
Grupo de 22 pacientes
Um estudo realizado no Japão analisou 22 pacientes. Entre os principais sintomas estavam dor muscular, fraqueza, febre e dor de garganta.
O diagnóstico foi confirmado por métodos de biologia molecular e sorologia, com identificação do HPeV3.
Casos registrados em 2019
Outro estudo analisou pacientes que apresentaram mialgia epidêmica durante o verão de 2019 no Japão.
Foram descritos sintomas como febre, dor nas coxas, dor nas pernas, dor nos braços e antebraços e fraqueza distal dos membros superiores. Também foram observadas alterações nos reflexos tendinosos.
O HPeV3 foi identificado em amostras de garganta e fezes.
Casos em crianças
Um dos estudos analisados avaliou 26 crianças menores de seis anos.
Foram identificados diferentes agentes virais nos casos, entre eles:
- Coxsackievirus A4;
- metapneumovírus humano;
- adenovírus tipo 2;
- adenovírus tipo 3;
- Echovirus tipo 1;
- HPeV3.
Esses dados mostram, dentro do conjunto de estudos analisados, que diferentes vírus podem estar associados a manifestações de mialgia.
Diagnóstico
Um dos desafios apontados pela revisão é que a mialgia epidêmica não possui um marcador laboratorial específico.
Por esse motivo, o diagnóstico deve considerar o conjunto de informações clínicas, epidemiológicas e laboratoriais disponíveis.
Avaliação clínica
A presença de febre associada a dor muscular intensa, fraqueza ou outros sintomas compatíveis deve ser analisada juntamente com o histórico do paciente.
Informações epidemiológicas
O histórico pode incluir investigação de:
- contato com pessoas infectadas;
- ocorrência de surtos;
- viagens recentes;
- contato com crianças apresentando infecções virais.
Exames laboratoriais
Entre os exames utilizados nos estudos estavam:
- RT-PCR;
- sorologia;
- creatina quinase (CPK);
- AST;
- ALT;
- GGT;
- LDH;
- hemograma;
- proteína C-reativa;
- creatinina.
O RT-PCR foi utilizado em sete dos nove estudos analisados, sendo o método mais frequentemente empregado para identificação dos agentes virais.
Amostras utilizadas para identificação viral
Nos casos relacionados ao HPeV3, foram utilizadas principalmente amostras obtidas por swab de garganta e fezes. Em determinados casos também foram avaliadas amostras de sangue.
Tratamento
Os autores ressaltam que existem poucos dados disponíveis especificamente sobre o tratamento da mialgia epidêmica.
Nos estudos analisados, a conduta foi predominantemente sintomática, especialmente com medicamentos destinados ao controle da dor e da inflamação.
Entre os medicamentos mencionados estão os anti-inflamatórios não esteroides, incluindo celecoxibe e loxoprofeno.
Tratamento com celecoxibe
Um relato descreveu um homem de 42 anos com dor muscular intensa, fraqueza nos membros, dor de garganta e febre de 39,5 °C.
Foram observadas alterações laboratoriais envolvendo AST, ALT e γ-GTP. O HPeV3 foi identificado por PCR em amostras de garganta e fezes.
Após o início do tratamento com celecoxibe, houve redução da febre e da dor muscular. O paciente recebeu alta após nove dias de internação.
Tratamento com loxoprofeno
Outro caso envolveu uma mulher de 33 anos com febre, calafrios e dor lombar aguda. O hemograma demonstrou leucopenia.
A paciente foi acompanhada em regime ambulatorial e recebeu loxoprofeno. Segundo o relato analisado, houve remissão do quadro após seis dias.
Evolução e possíveis complicações
A maioria dos casos descritos na revisão apresentou evolução favorável e autolimitada.
Entretanto, os autores chamam atenção para a possibilidade de manifestações mais graves. Entre as complicações mencionadas estão a miosite, a rabdomiólise e a insuficiência renal.
Por isso, alterações musculares importantes e alterações laboratoriais devem ser consideradas na avaliação dos pacientes.
Conclusão
A revisão aponta que a mialgia epidêmica ainda é uma condição pouco estudada, apesar da ocorrência de surtos e da diversidade de agentes virais relacionados.
Nos estudos avaliados, houve predominância de homens e de adultos com mais de 20 anos. A maior parte dos trabalhos analisados era proveniente do Japão.
Febre, mialgia e fraqueza ou astenia estiveram entre as manifestações mais importantes encontradas nos relatos.
O HPeV3 foi o agente mais frequentemente identificado entre os estudos analisados, enquanto o RT-PCR foi o método diagnóstico mais utilizado.
Quanto ao tratamento, os dados disponíveis eram limitados e apontavam principalmente para uma abordagem sintomática, com utilização de anti-inflamatórios em alguns dos casos descritos.
Mialgia epidêmica → doença associada a infecções virais → febre e dor muscular são manifestações frequentes → HPeV3 foi o agente mais encontrado na revisão → RT-PCR foi o principal método diagnóstico utilizado → tratamento predominantemente sintomático → evolução geralmente autolimitada, mas com possibilidade de complicações como rabdomiólise e insuficiência renal.
Dados principais da revisão
- 9 estudos analisados integralmente;
- 73 casos descritos;
- 8 estudos provenientes do Japão;
- 1 estudo proveniente da Holanda;
- 77,78% dos casos eram homens;
- 98% apresentaram febre;
- 65% apresentaram dor muscular;
- 9 dias foi a duração média dos sintomas;
- HPeV3 apareceu em 8 das 9 publicações;
- RT-PCR foi utilizado em 7 dos 9 estudos.
Fonte: Menezes, Caroline Nascimento; Aragão, Matheus Todt. “Diagnóstico e tratamento da mialgia epidêmica: Uma revisão da literatura nos últimos 10 anos”. Research, Society and Development, 2023.
