
Um curso de pós-graduação em jornalismo social que termina com ele, mas não com ele.

Porque as missões transcendem os mitos
Ele foi hospitalizado 20 vezes. Foi declarado morto 21 vezes. Criou presidentes. Derrubou presidentes. Realizou uma autópsia ao vivo em um alienígena e conduziu cinco entrevistas com Milei. E deixou ambas sem palavras. Perguntou a Cristina se ela tinha namorado quando ela ainda estava vestida de preto.
Porque ele podia
Carregando toda a culpa por aquele jornalismo antiquado que ainda hesita como uma criança, foi ele quem melhor decifrou a distância entre viúvas e milagres. Ele perguntou, questionou, expôs. Algo que nem a IA nem o emprego precário conseguem fazer.

Sua cabeça sobreviveu ao seu corpo
Como os relógios de pulso dos soldados que continuam vivos nos pulsos daqueles que foram baleados.
Quero morrer diante das câmeras”, ele me disse na primeira vez em que foi hospitalizado.
Há algo entre os fins e a morte, e são essas as perguntas. Chiche teve de tudo. Consultou mais especialistas do que um cartão de seguro de saúde poderia imprimir. Teve mais internações do que programas de internação em um ano. Por uma infecção urinária, por uma parada cardíaca, por um ataque cardíaco no pé, por uma trombose descontrolada que bloqueou algumas artérias, por uma febre alta, por precaução, por dúvidas e porque às vezes os melhores desaparecem aos poucos.

Quando o receberam pela última vez, ele não conseguia falar nem andar.
Vou fugir pela janela, preciso voltar”, ele me disse da última vez que o prenderam. Chiche só respirava quando estava perseguindo a Argentina.
Chiche caiu várias vezes, mas nunca se deixou abater. O que mais importava para ele estava fora de si. E como o perigo revela o pior do mundo, mas também o melhor dos jornalistas, ele preenchia a ansiedade da espera com notícias populares: da aposentadoria de Messi ao fechamento de lojas na Rua Avellaneda.
Nos últimos 45 dias, o corpo. Chiche era como um salão de bingo cheio de médicos jogando várias cartas ao mesmo tempo, como viúvas em fase terminal esperando o tambor da loteria parar o tempo.

Fizeram-lhe assinar um termo de consentimento informado declarando que a sua morte seria culpa dele, e depois deram-lhe alta. Voltou em uma cadeira de rodas para cobrir uma Copa do Mundo, gritando sem voz com o punho erguido a cada gol marcado contra a Inglaterra, e pediu para viajar para a final. Chiche queria assinar uma declaração de responsabilidade e embarcar em um avião para fazer reportagens à beira do campo.
Chiche apenas repassava seus planos, fantasiando sobre as muletas que o tempo lhe estava tirando, mas ele tinha tudo planejado e duas malas prontas: um conjunto de pijama de verão, um par de suspensórios, um coquetel de comprimidos para pressão arterial e uma quarta estrela explodindo em seu coração.
A distância entre ele e a morte sempre foi medida em ideias, e o risco existia para que ele o perseguisse. Chiche não era apenas uma celebração do perigo; era também uma provocação geracional. A vingança da velha guarda da guerra dos porcos: ele cobria tudo melhor do que os jovens e vivia à sombra do sagrado. "Não devemos descartar os pobres, os imigrantes, os refugiados ou os idosos", disse Francisco. Descartar é perder a alma e deixar de lado uma nota.
Chiche era algo que a sociedade continuará a ansiar: a segurança que os idosos proporcionam. Uma lembrança de um lugar de onde se pode extrair conforto, para que a bomba não exploda em nossas memórias. Chiche era uma certeza e a previsibilidade que a Argentina havia perdido.

O que Chiche decidiu contar será para sempre o lugar de onde ele escolheu lutar e um toque de recolher para a lógica da mídia: mostra que um jornalista não apenas nasce, mas também morre.
