
Ambos estão incendiando armazéns repletos de alimentos ou encomendas de compras online perto de grandes cidades. Estão destruindo portos e navios que transportam exportações vitais de grãos. E estão danificando redes de energia que mantêm as luzes acesas e os veículos abastecidos.
Rússia e Ucrânia, em cidades distantes da linha de frente, estão travando uma guerra aérea de retaliação cada vez mais intensa, que está causando mais sofrimento às populações de ambos os países do que em qualquer outro momento desde os primeiros meses da guerra em grande escala iniciada por Moscou em 2022.
Com a frente de batalha praticamente congelada, cada lado está utilizando arsenais crescentes de mísseis e drones para se vingar e tentar forçar o outro à rendição. No exemplo mais recente, Kiev, a capital ucraniana, tem sofrido bombardeios constantes de drones russos nos últimos dias, atormentando os moradores com alertas de ataque aéreo quase contínuos.
Ainda assim, não há evidências de que a escalada vá enfraquecer a determinação de qualquer um dos países em continuar lutando. O sofrimento humano só aumentará neste inverno, dizem os analistas, à medida que a Rússia e a Ucrânia buscam vantagens nas negociações de um acordo, apoiadas pelos EUA, que devem ser retomadas após terem alcançado poucos resultados este ano.
A Ucrânia não pode desistir, e a Rússia não quer, dizem os analistas.
A questão é quanta dor a Rússia pode suportar em comparação com a Ucrânia — e a Rússia pode suportar muita dor", disse Rob Lee, especialista militar do Instituto de Pesquisa de Política Externa, com sede na Filadélfia, que viaja frequentemente para a linha de frente.
Este novo período de ataques de olho por olho intensificou-se no final de junho, quando a Ucrânia iniciou uma campanha de 40 dias contra a Rússia, que, segundo o presidente Volodymyr Zelensky, tinha como objetivo "obrigá-la a pôr fim à guerra".
Desde que lançou o desafio, drones ucranianos de longo alcance atingiram mais de 30 armazéns de grandes empresas de comércio eletrônico, principalmente aqueles usados pela Wildberries, o equivalente russo da Amazon. Os ataques interromperam a logística comercial russa, causaram grandes prejuízos a pequenos comerciantes e mataram vários funcionários de armazém.
A Ucrânia também continuou seus ataques a refinarias de petróleo e à logística de combustíveis da Rússia. Cerca de 70% dos postos de gasolina russos ficaram sem gasolina ou diesel no mês passado, desencadeando a pior crise de combustíveis do país desde o colapso da União Soviética no início da década de 1990. O Kremlin se esforçou para resolver a situação, permitindo a venda de gasolina e diesel de qualidade inferior. Mas, até meados de agosto, havia filas de duas horas em todos os postos de gasolina de Moscou que ainda tinham combustível.
Além disso, os ataques ucranianos à infraestrutura no Mar de Azov e na bacia mais ampla do Mar Negro prejudicaram as exportações agrícolas da Rússia, o maior exportador mundial de trigo, e deixaram a península da Crimeia ocupada isolada.
A economia deles vai começar a entrar em colapso — já está entrando", disse Olena Ivashko, de 48 anos, uma ucraniana que trabalha em um supermercado e perdeu quatro parentes homens que lutaram na guerra. "Até que comecem a se devorar uns aos outros, não vão entender que existe uma guerra. Eles não entendiam o que era guerra até começarem a ficar em filas para abastecer o carro".
A economia russa não corre risco de colapso iminente, embora o crescimento tenha praticamente estagnado e o déficit orçamentário tenha disparado. Mas os ataques em território russo tornaram a guerra mais palpável para os russos do que nunca, e civis russos estão morrendo nesses ataques na maior proporção desde o início da guerra.
Pyotr, editor de livros na capital russa, disse que neste verão "as primeiras rachaduras apareceram na superfície do bem-estar de Moscou."
Yevgeny, um entusiasta de motocicletas, descreveu noites sem dormir sempre que via um alerta sobre um possível ataque de drone. Ambos pediram que apenas seus primeiros nomes fossem usados para proteger sua segurança.
Após o fim da campanha de 40 dias na Ucrânia, o presidente russo Vladimir V. Putin afirmou que Kiev havia aberto a "caixa de Pandora" ao tentar prejudicar a economia russa e que pagaria o preço por isso. Como tem sido o caso ao longo de toda a guerra, os ataques russos subsequentes infligiram mais sofrimento aos ucranianos do que qualquer coisa que os russos tenham suportado.

Mísseis balísticos e supersônicos russos estão atingindo cidades ucranianas quase à vontade, em grande parte porque a Ucrânia está com poucos mísseis interceptores Patriot de fabricação americana. Novos drones russos a jato, capazes de atingir velocidades superiores a 600 quilômetros por hora, realizam vigilância e se chocam contra alvos. As baixas civis ucranianas são maiores do que em qualquer outro momento desde as cinco primeiras semanas da guerra, e são muito maiores do que as baixas russas.
Os ataques de Moscou no Mar Negro paralisaram portos cruciais na região de Odessa e ameaçam custar à economia ucraniana mais de $2 bilhões em exportações agrícolas no segundo semestre de 2026. Mais de 300 postos de gasolina ucranianos foram danificados ou destruídos por ataques russos nos últimos seis meses. Dezenas de armazéns, incluindo os que abastecem supermercados, e diversos centros comerciais foram atingidos. Cerca de 13 milhões de livros foram carbonizados em ataques russos, segundo a Associação Ucraniana de Editores.
Analistas afirmaram que a escalada provavelmente continuará. Depois de praticamente destruir a rede elétrica da Ucrânia no inverno passado, a Rússia prometeu atacá-la novamente.
O Ministério da Defesa russo alertou no mês passado que Kiev enfrentaria um inverno rigoroso. Na terça-feira, Putin afirmou ter instruído suas forças armadas a realizarem ataques maciços contra as instalações de energia da Ucrânia. Analistas disseram que a Rússia também poderia tentar atingir o sistema de abastecimento de água ucraniano.
Falando após uma cúpula no Quirguistão na terça-feira, Putin também pareceu ameaçar estender a guerra aos aliados ocidentais da Ucrânia. "Se alguém tentar nos arrastar para o fundo do poço, nos engolir, nos devorar, pode acabar levando um soco na cara", disse ele.
A Ucrânia também pode continuar a intensificar o conflito. O país está desenvolvendo seus próprios mísseis balísticos poderosos e afirma que eles poderão estar prontos até o outono (do hemisfério norte). Se isso acontecer, a guerra entrará em uma fase diferente, disseram analistas.
Em seu próprio discurso na terça-feira, o Sr. Zelensky alertou as companhias aéreas de que o espaço aéreo russo estava "se tornando completamente inseguro" por causa dos drones ucranianos, uma ameaça que o Sr. Putin descreveu como "terrorismo de Estado".
Ninguém sabe ao certo como isso vai terminar. O diretor da CIA, John Ratcliffe, viajou a Moscou na semana passada para tentar persuadir a Rússia, a fechar um acordo antes que a situação militar e econômica do país piore ainda mais.
A resposta de Moscou à visita foi clara. O porta-voz do Kremlin, Dmitri S. Peskov, afirmou que as negociações de paz lideradas pelos EUA estavam em uma "pausa profunda."
Como que para reforçar essa declaração, entre quinta e segunda-feira, Kiev ficou sob alerta de ataque aéreo 58 vezes e enfrentou múltiplos ataques com mísseis e drones.
Especialistas e diplomatas afirmaram que negociações de paz sérias provavelmente não começarão antes da primavera ou do verão do ano que vem. Os principais negociadores americanos, Jared Kushner, genro do presidente Trump, e Steve Witkoff, enviado especial e amigo de longa data de Trump, devem visitar a Ucrânia em breve para dar início às negociações, segundo autoridades ucranianas. No entanto, essa visita já foi especulada pelo menos quatro vezes este ano e ainda não aconteceu.
A Rússia não deu qualquer indicação de estar pronta para negociações. O Sr. Putin está irritado, disseram autoridades ucranianas e diplomatas ocidentais, porque as tropas russas ainda não tomaram toda a área do leste da Ucrânia conhecida como Donbas. As tropas russas controlam pouco menos de 20% da Ucrânia, apenas um pouco mais do que controlavam há três anos.
Com a intensificação da guerra aérea, cada país se adapta. Na semana passada, as filas nos postos de gasolina de Moscou diminuíram. As aulas começaram em grande parte da Ucrânia na terça-feira, mesmo com a Rússia lançando mais mísseis e drones, embora o número de alunos do primeiro ano nas escolas de Kiev tenha sido 10% menor do que no ano passado.
Já nos acostumamos com a destruição", disse Aliona Chystiakova, de 45 anos, que recentemente se deparou com prateleiras vazias em um supermercado por causa dos ataques russos. "Eles estão nos bombardeando, estão tentando nos destruir, mas de alguma forma continuamos voltando à superfície, e não há nada que eles possam fazer a respeito."
