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O foguete kirchnerista que nunca decolou

✍️ Redação AR NEWS 24H ⏱️ 4 min de leitura
O foguete kirchnerista que nunca decolou

Há uma coisa que o kirchnerismo fez extraordinariamente bem durante vinte anos: transformar o gasto público em uma virtude moral. Se uma agência recebia mais dinheiro, era porque o Estado estava "investindo"; se contratava mais funcionários, era porque estava "expandindo suas capacidades"; se um projeto se tornava cada vez mais caro, esse gasto tinha que ser interpretado como prova de compromisso nacional. Questionar o que todo aquele dinheiro realmente havia produzido acabou parecendo, naquele universo ideológico, uma forma de heresia. O projeto Tronador nos permite observar essa máquina em condições quase perfeitas. A discussão ressurgiu após uma entrevista com Noel de Castro, engenheira biomédica argentina e candidata a uma futura missão espacial privada com a Axiom Space, que criticou duramente a gestão de recursos no programa espacial argentino.

Segundo ela, a Argentina gastou cerca de US$ 600 milhões no desenvolvimento do lançador Tronador sem jamais concluí-lo. A comparação que ela fez foi ainda mais perturbadora. De Castro apontou que o desenvolvimento do Falcon 1 da SpaceX custou aproximadamente US$ 90 milhões. A NASA corroborou esse valor e também estimou o desenvolvimento subsequente do Falcon 9 em cerca de US$ 300 milhões. Ou seja, cerca de US$ 390 milhões para dois lançadores que de fato alcançaram o espaço. A Argentina trilhou um caminho bem diferente. Desde 2007, o projeto Tronador envolveu protótipos, motores, testes, infraestrutura, contratos, técnicos, autoridades, apresentações oficiais e novas etapas de desenvolvimento. Também houve avanços tecnológicos reais e testes bem-sucedidos.

Mas, quase vinte anos depois, o que deveria justificar todo o programa ainda falta: um lançador Tronador operacional capaz de colocar uma carga útil argentina em órbita. E há um fato ainda mais preocupante. Em 2014, a documentação oficial enviada ao Congresso projetava que, graças ao desenvolvimento do programa, a Argentina poderia realizar entre cinco e dez lançamentos anuais a partir de 2018. Essa não era uma estimativa divulgada por um crítico liberal, nem um exagero posterior para ridicularizar o Estado. Era o próprio Estado anunciando quais seriam seus resultados. 2018 chegou e passou. 2019 passou. Mais um governo Kirchnerista chegou e se foi. Os cinco a dez lançamentos anuais são inexistentes. Esse é o verdadeiro escândalo da Tronador.

Um projeto pode consumir fortunas, falhar em atingir seu objetivo principal por anos e ainda assim sempre encontrar uma nova explicação para continuar recebendo verbas públicas. Isso resume um estilo de governança que o Kirchnerismo transformou em cultura: envolver cada estrutura estatal em uma causa moralmente intocável para lançar suspeitas sobre qualquer questionamento a respeito de custos e resultados. Foi exatamente isso que aconteceu com a ciência. Se alguém perguntasse quanto custava, quando deveria ser concluído ou qual resultado concreto justificava o financiamento contínuo, a resposta raramente era técnica. Questionar o orçamento era equivalente a atacar a ciência; questionar a organização era desprezar o Estado; exigir resultados era adotar uma lógica "mercantilista" incompatível com os grandes objetivos nacionais.

Enquanto isso, o único obrigado a operar com eficiência era o contribuinte, porque alguém tinha que gerar a riqueza necessária para sustentar toda aquela superioridade moral. É aí que reside a principal diferença com a SpaceX. A empresa de Elon Musk poderia, de fato, falir. Seus investidores poderiam perder dinheiro, o financiamento poderia acabar e a empresa poderia desaparecer. Os engenheiros foram forçados a transformar recursos escassos em resultados antes que esses recursos se esgotassem. Essa pressão não é uma falha do capitalismo. É um dos mecanismos que força o capitalismo a distinguir entre boas intenções e algo que realmente funciona. O Estado opera sob incentivos completamente diferentes.

Quando um projeto atrasa, o cronograma pode ser estendido; quando custa mais, o orçamento pode ser aumentado; quando um teste falha, uma nova fase pode ser anunciada. E quando alguém finalmente propõe reduzir os fundos, o responsável pelo fracasso pode ser transformado, quase magicamente, em vítima de "corte de verbas."

É por isso que Javier Milei gera tanta rejeição em grande parte do establishment político, científico, cultural e midiático argentino. Sua ruptura mais profunda com o passado não consiste apenas em gastar menos. Consiste em fazer uma pergunta que foi proibida por tempo demais: que resultados o cidadão recebe em troca do dinheiro que o Estado o obriga a entregar? Milei não considera um orçamento crescente um distintivo de honra moral. Ele não presume que uma organização deva sobreviver simplesmente por existir há décadas, nem que invocar a palavra "ciência" garanta imunidade a qualquer avaliação. Essa transformação parece elementar, mas ameaça fundamentalmente um sistema acostumado a medir o comprometimento pela quantidade de recursos absorvidos, não pelos resultados.

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