
Convenhamos o acerto de Castiglioni, historiador italiano de renome do pensamento médico, ao afirmar que a Medicina forma parte essencial e fundamental da civilização moderna.
Seu progresso é o índice fiel do progresso social, que por sua vez lhe determinam seu desenvolvimento.
A obra do médico em relação ao indivíduo e a coletividade afirma-se de um modo sempre mais evidente, sendo finalidade da história dar a gênese e a evolução dessa ação do médico.
O historiador moderno deve proporcionar aos médicos jovens e aos leigos interessados as bases fundamentais que levem em consideração todos os fatos da evolução social e política a fim de que o estudioso sob sua orientação se aproxime equilibrada e ponderadamente da verdade.
Precisa a classe médica entender a necessidade de uma formação histórica suficiente, rigorosa e profunda, a ponto de constituir um hábito intelectual e conhecer e respeitar as conquistas do passado.
Urge abandonar quanto antes a ideia de que a historiografia médica seja erudição vazia ou recreação literária. Vale insistir que é através da história que o médico valoriza as questões antropológicas, terapêuticas e sociais.
A incompreensão por parte do médico a respeito da história, determina consequências por vezes funestas como a emitida há três quartos de século por Thursch, grande cirurgião de Leipzig, quando afirmava sonorosamente que a Medicina havia deixado de ser filha da Filosofia, para ser irmã das Ciências Naturais, afirmação falha porque supervalorizava apenas uma faceta de um método geral de pesquisa e do progresso médico.
Sem dúvida que o grande salto da arte e ciências médicas resultou da experimentação, com suas amplas possibilidades. A ufania da experimentação "positiva", como se só ela nos pudesse levar à verdade, não pode empanar um conceito mais amplo: é a filosofia que deve nortear a experimentação, sendo esta apenas um método para pesquisar a verdade.
A experimentação que leva ao conhecimento novo, não pode, todavia, levar à conclusão de que não se deve estudar historicamente o conhecimento anterior.
Por isso, refutamos a posição dos que consideram puerilidade ou divulgação literária conhecer tudo que houvesse ocorrido ou tenha sido conquistado no campo da Medicina anteriormente ao século XIX, como defendem os orgulhosos das conquistas médicas no nosso século.
Mesmo no campo moderníssimo, para só citar um exemplo, da patologia psicossomática dos últimos anos, não estaria ela revendo sob novas formas "o incompreensível personalismo" da medicina semítica antiga?
Repitamos, pelo estudo dedicado da história da Medicina o exemplo dos grandes criadores do pensamento médico contemporâneo, como foram: Laennec, Virchow, Wunderlid, Malgaigne do século XVIII; Aschoff, Osler, Bier, Sherrington e Cushing do século XIX.
Devemos criar no espírito do estudante e do médico moderno a noção de que não basta um estudo superficial, inconstante e indisciplinado do conhecimento médico pretérito, mas, antes, é de seu dever emprestar dedicação mais séria e constante aos recursos que a história médica nos proporciona, a fim de melhor compreender a grandeza da Medicina atual e a estupenda potencialidade de sua evolução.
A história da cirurgia é um dos ramos mais recentes do saber médico, pois a cirurgia teve em um passado próximo a solução satisfatória de operar eliminando a dor durante o ato cirúrgico.
Antes da descoberta da narcose em 16 de abril de 1846, a cirurgia era o sofrimento associado a alguns conhecimentos básicos.
Mesmo ficando neste conceito limitado, foram as tentativas empíricas a princípio e, a seguir, um conceito filosófico robustecido pela experimentação que levaram à descoberta da narcose, com as consequências de mais de 150 anos de evolução no campo da cirurgia.
Essa evolução, podemos afirmar, sem temor, foi das mais fantásticas que a humanidade tenha conhecido.
Sim, fantástica porque ousou agredir cirurgicamente com sucesso os órgãos mais inacessíveis, criando capítulos da patologia médica.
Venceu os órgãos intratorácicos, o cérebro, substituiu artérias por material plástico, hibernou o homem e, por fim, atingiu o coração, considerado intocável, a ponto de que o médico que pensasse em operá-lo, corria o risco de faltar ao respeito de si mesmo e ao de seus colegas.
Quantos equívocos, como esses, a história demonstra à saciedade e revendo-os nos ensina que a filosofia guia o pensamento a alturas mais elevadas e que a experimentação, quando em cotejo com ela apesar de seu imenso valor, deve ocupar lugar adequado e talvez mais modesto no progresso da ciência médica.
A dedicação da profissão médica para corrigir a doença e lutar pelo estado de higidez do povo, finalidade mais nobre da verdadeira Medicina.
É necessário que os médicos da nova geração, compreendam e respeitem o valor da contribuição das gerações passadas, para informar-se da evolução da medicina em todas as partes do mundo.
Título de Especialista em G.O.; TEGO 179/73-FEBRASGO.
