
O que começou como uma série de pedidos de informação sobre bancos e operações financeiras tornou-se uma nova fonte de tensão política no Paraguai. O Senado tem examinado o Banco Central do Paraguai (BCP), solicitando informações sobre fusões e aquisições bancárias, fundos públicos depositados em entidades privadas e, especificamente, a situação de bancos como o Ueno e o Sudameris.
O economista e analista financeiro Amílcar Ferreira alerta que o problema reside não só no conteúdo das solicitações parlamentares, mas também no cenário político em que ocorrem e no risco de uma disputa entre setores acabar afetando o sistema financeiro.
Eles estão brincando com fogo”, resume Ferreira, que acredita que uma guerra política envolvendo bancos pode acabar afetando o principal ativo do sistema financeiro: a confiança.
O Senado aprovou esta semana pedidos de informação dirigidos ao Banco Central do Paraguai (BCP) referentes a diversas entidades. Um deles, proposto por legisladores do partido Honor Colorado, contém mais de 30 perguntas técnicas sobre o Banco Ueno, incluindo questões relacionadas a transações com empresas coligadas, limites prudenciais, recursos públicos e recursos do Instituto de Seguridade Social (IPS), e medidas adotadas pela Superintendência de Bancos.
Entretanto, outros legisladores solicitaram informações sobre fusões e aquisições realizadas nos últimos anos e sobre a situação financeira da Sudameris. O pedido inclui perguntas sobre diferimento de perdas, exigências de reservas, carteira de empréstimos, concentração de empréstimos e transações com partes relacionadas.
Uma disputa que vai além dos bancos
Para Ferreira, os pedidos de informação são uma ferramenta legítima do Congresso. O problema surge quando o mecanismo de supervisão parlamentar se envolve em uma disputa política.
O economista interpreta que a ofensiva em torno de Ueno tem uma particularidade: ela parte de setores dentro do próprio partido governista que apoiam o governo de Santiago Peña.
O Banco Ueno esteve ligado ao Presidente Peña até março de 2025 e atualmente detém uma quantia significativa de fundos públicos e do IPS (Instituto de Seguridade Social).
A leitura ganha maior significado porque, paralelamente ao pedido relativo a Ueno, surgiram demandas referentes a outras entidades. Em termos políticos, a ação pode ser interpretada como uma ofensiva que rapidamente levou a respostas e contra-ofensivas.
O resultado é um cenário incomum: bancos privados, reguladores e operações financeiras tornaram-se o foco de uma disputa política no Congresso.
Ferreira concentra-se em um conceito particularmente sensível: a confiança.
Os bancos operam sob a premissa de que os depositantes confiam que poderão acessar seu dinheiro quando precisarem. Portanto, um debate público repleto de acusações, suspeitas e referências a possíveis inadimplências pode ter repercussões mesmo quando não há nenhum problema real de solvência.
O capital é covarde, assusta-se facilmente”, explica o analista.
O receio, nesse sentido, não é apenas de que exista um problema específico em uma instituição. O cenário mais delicado seria que o debate político acabasse gerando dúvidas sobre todo o sistema financeiro paraguaio.
A experiência regional demonstra que as crises bancárias podem começar não necessariamente com um problema de liquidez, mas com uma perda de confiança que, por sua vez, acelera os movimentos de depósitos.
Por isso, Ferreira considera especialmente arriscado trazer para o debate político questões que são normalmente analisadas pela Superintendência de Bancos e pelo BCP sob critérios técnicos.
O Congresso tem poderes, mas o sistema é sensível
Por um lado, os legisladores têm poderes constitucionais para solicitar informações a órgãos públicos. De fato, o Senado aprovou as solicitações e estabeleceu um prazo de 15 dias úteis para que o Banco Central do Paraguai (BCP) responda.
Por outro lado, vários legisladores reconheceram a sensibilidade do setor financeiro durante o debate.
O senador Eduardo Nakayama alertou diretamente contra a entrada em uma guerra que, em sua opinião, poderia acabar provocando uma crise onde não existe. Celeste Amarilla também pediu prudência e lembrou a experiência da crise bancária paraguaia da década de 1990.
O alerta não foi unânime. O membro da oposição, Rafael Filizzola, argumentou que o Congresso deveria intervir quando se trata de fundos de depositantes e fundos públicos.
É precisamente aí que surge a tensão subjacente: o controle político sobre o sistema financeiro é legítimo, mas a divulgação política de informações técnicas pode ter consequências que vão além do próprio Congresso.
O BCP, no centro da tempestade
A próxima etapa será marcada pelas respostas do Banco Central do Paraguai.
O presidente Santiago Peña afirmou que as perguntas devem ser respondidas e as dúvidas esclarecidas, e defendeu a capacidade institucional do BCP de atuar como regulador do sistema financeiro.
Mas Ferreira alerta que as respostas do banco central também podem se tornar parte da disputa.
