Por Nibia Pizzo
Uma pesquisa recente da empresa uruguaia Equipes Consultores revelou algo que pareceria improvável até pouco tempo atrás: entre os uruguaios de 18 a 29 anos, um grupo historicamente inclinado à esquerda, a identificação ideológica atingiu um equilíbrio entre esquerda e direita pela primeira vez em uma geração. A descoberta aponta para uma mudança mais ampla em curso na América Latina, que está reescrevendo as concepções sobre a política jovem em uma região há muito associada a movimentos progressistas.
Uma geração definida pela frustração
A Geração Z, geralmente definida como aqueles nascidos entre 1997 e 2012, representa atualmente cerca de um quarto da população da América Latina, de acordo com pesquisas de mercado regionais. Juntamente com os Millennials (também conhecidos como Geração Y, são as pessoas nascidas aproximadamente entre 1981 e 1996. Como a primeira geração a transitar do mundo analógico para o totalmente digital, eles testemunharam a ascensão da internet, viveram a chegada das redes sociais e moldaram o mercado de trabalho e consumo global), eles representam quase metade dos habitantes da região. Não são um grupo demográfico periférico. Eles são, cada vez mais, o presente político.
Esses jovens cresceram durante um período de rápida transformação: a expansão da comunicação digital, o enfraquecimento das instituições tradicionais e a disseminação de novas expectativas sociais. Suas expectativas são altas. Suas frustrações são igualmente intensas.
Em toda a região, muitos jovens vivem em condições de vulnerabilidade econômica. Uma grande parcela permanece na pobreza. Muitos outros tentam ascender à classe média ou manter-se em uma classe média que muitas vezes parece precária. Apenas uma pequena minoria desfruta da segurança dos setores de renda mais alta. Para milhões de jovens latino-americanos, o futuro não parece garantido.
É nesse contexto que uma notável mudança ideológica começou a emergir. Há poucas décadas, a política jovem na América Latina era associada quase automaticamente à esquerda. Hoje, essa suposição já não se sustenta.
As raízes da insatisfação
Diversos fatores ajudam a explicar a mudança.
A criminalidade tornou-se uma das maiores preocupações em toda a região, especialmente para os jovens. Isso ajuda a explicar o apelo de líderes focados em segurança, como Nayib Bukele, de El Salvador, cujas políticas de segurança atraíram admiração muito além de seu próprio país. Para uma geração que muitas vezes se sente exposta e desprotegida, a ordem pode ser mais persuasiva do que a ideologia.
A frustração econômica desempenha um papel igualmente importante. Muitos jovens cresceram em sociedades onde o Estado é visto como poderoso, mas ineficiente. Em vez de o enxergarem como um garantidor de oportunidades, veem-no como uma barreira ao desenvolvimento pessoal e à mobilidade social. Essa percepção levou alguns a adotarem posições políticas que enfatizam a iniciativa individual e a redução da intervenção estatal.
Uma terceira corrente, mais difícil de quantificar, é cultural. Entre um segmento significativo de jovens, há uma crescente impaciência com o que é comumente chamado de agenda "woke". Muitos sentem que os debates culturais suplantaram questões urgentes como moradia e empregos de qualidade. Independentemente de se compartilhar ou não dessa percepção, ela está claramente moldando o imaginário político de muitos jovens eleitores.
Essas pressões abriram as portas para figuras políticas que se apresentam como outsiders e alternativas a um establishment desacreditado. Muitos se posicionam à direita, e seus críticos frequentemente os descrevem como de extrema-direita. Para muitos jovens apoiadores, os rótulos importam menos do que a promessa de romper com um sistema visto como estagnado e voltado para seus próprios interesses.
Um sinal regional
Essa mudança contribuiu para movimentos eleitorais de direita na Argentina, Equador e El Salvador, além de remodelar o debate público em grande parte da região. A Geração Z parece estar impulsionando a mudança com particular força, enquanto os Millennials têm se movido na mesma direção de forma mais gradual.
Os resultados da Equipos Consultores, no Uruguai, oferecem alguns dos dados mais claros disponíveis. Com base em quatro ondas de pesquisa realizadas entre fevereiro e agosto de 2025, a empresa constatou que, entre a coorte adulta mais jovem, a predominância de longa data da identificação com a esquerda deu lugar a uma paridade aproximada.
Dados separados, divulgados pelo jornal montevidiano El País e baseados em uma série histórica mais longa, evidenciaram ainda mais a mudança: em 2000, 37% dos jovens uruguaios se identificavam com a esquerda, contra 27% com a direita. Essa diferença aumentou ainda mais em 2010. Mas, em 2025, os números se inverteram, com 29% à direita e 26% à esquerda.
O Uruguai é significativo justamente porque sua cultura política tornava essa mudança improvável. O país sempre teve uma forte inclinação para a social-democracia, e a Frente Ampla governou em diversas ocasiões desde 2005. O ativismo juvenil no Uruguai estava intimamente ligado a causas progressistas. A reversão não é uma mera oscilação.
Isso não significa que todos os jovens uruguaios, ou todos os jovens latino-americanos, estejam se movendo na mesma direção. Muitos se identificam com o centro, votam pragmaticamente ou rejeitam rótulos ideológicos por completo. O cenário é mais complexo do que qualquer narrativa simplista. Mas as tendências são reais e não podem ser ignoradas.
Um aviso, não um veredito.
A polarização ideológica na América Latina não vem apenas das elites políticas. Ela surge de baixo para cima, impulsionada pelas gerações mais jovens impacientes por resultados.
O declínio de vários projetos de esquerda abriu espaço para a direita. Mas aqueles que ocuparem esse espaço enfrentarão o mesmo teste. Se não conseguirem garantir segurança e progresso econômico, se se mostrarem tão distantes das preocupações do cidadão comum quanto as instituições que substituíram, também enfrentarão a desilusão que agora se dirige à velha ordem política.
A juventude latino-americana não está simplesmente atualizando suas preferências partidárias. Ela está enviando uma mensagem. Ela quer uma liderança honesta e um futuro que pareça ao seu alcance. Qualquer movimento político que ignore essas demandas, seja de esquerda ou de direita, acabará pagando o preço.
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Nibia Pizzo é psicóloga com mestrado em gestão e desenvolvimento de projetos de impacto social. Ela se especializa em patologias graves e abuso de drogas. É diretora acadêmica e fundadora do "Legado das Américas", um projeto da Fundação Global para a Paz.
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